[Altera a 2ª versão nos pontos VI, VII, IX e algumas das notas finais]
I. Para que serve? (Objectivos)
1. Contribuir para a melhoria da prática pedagógica do docente;
2. Diferenciar, premiar e valorizar o mérito do desempenho dos docentes;
3. Promover o desenvolvimento profissional dos docentes, diagnosticando as respectivas necessidades de formação;
4. Regular a progressão e o desenvolvimento da carreira.
II. O que se deve ter em conta? (Princípios Orientadores)
1. A avaliação deve servir de plataforma para uma aprendizagem ao longo da carreira e como oportunidade para reflexão conjunta e reforço do trabalho cooperativo;
2. A avaliação formativa deve ter uma presença muito significativa no processo de avaliação dos professores;
3. A avaliação deve assumir uma abordagem realista, progressiva e eficaz, por cada escola, de acordo com as suas condições específicas;
4. A avaliação deve garantir o direito dos professores participarem no seu próprio processo de avaliação;
5. A avaliação Docente deve ser feita dentro da escola;
6. A avaliação deve ser efectuada por avaliadores com formação específica.
7. A avaliação deve ser transparente.
III. O que se vai avaliar? (Dimensões a avaliar)
1. Vertente profissional e ética;
2. Participação na escola e relação com a comunidade escolar;
3. Desenvolvimento e formação profissional ao longo da vida.
IV. Quem avalia? (Definição dos avaliadores)
1. O Director da Escola, com aprovação da avaliação pelo Conselho Pedagógico.
2. Um Professor com funções de Avaliador (da mesma área científica que o Avaliado), com aprovação da avaliação pelo Conselho de Avaliadores.
V. Quem avalia o quê? (Itens a avaliar)
1. O Director da Escola avalia:
. a. A assiduidade e o cumprimento do serviço lectivo e não lectivo;
. b. A formação profissional realizada;
. c. A dinamização de projectos de investigação, desenvolvimento e inovação educativa (definidos previamente com o Director da Escola).
2. O Professor Avaliador avalia:
. a. A prática lectiva docente.
VI. De quanto em quanto tempo se avalia? (Periodicidade da Avaliação)
1. Professores QND: A avaliação é contínua e decorre em Ciclos de Avaliação, com duração igual ao período do escalão em que o Avaliado se encontra.
2. Professores Contratados: A avaliação é feita em Ciclos de Avaliação com a duração de um ano lectivo;
VII. Como se avalia? (Processo da Avaliação)
1. A Avaliação feita pelo Director decorre da seguinte forma:
. 1.1. O Avaliado, em cada ano lectivo, negoceia com o Director o(s) Objectivo(s) que se propõe realizar no âmbito da dinamização de projectos de investigação, desenvolvimento e inovação educativa.
. 1.2. No Final de cada ano lectivo, o Avaliado entrega ao Director um Relatório respeitante aos itens que constam no ponto seguinte.
. 1.3. O Director, no final de cada ano lectivo, faz uma Avaliação Parcial, respeitante aos dados recolhidos nesse ano lectivo, nos seguintes itens:
. a. Assiduidade e cumprimento do serviço lectivo e não lectivo;
. b. A formação profissional realizada;
. c. Cumprimento do(s) objectivo(s) fixado(s) no âmbito da dinamização de projectos de investigação, desenvolvimento e inovação educativa.
. 1.4. Em cada ano lectivo, o Director, após apreciação e aprovação do Conselho Pedagógico, dá a conhecer ao Avaliado a Avaliação Parcial obtida.
. 1.5. No final de cada Ciclo de Avaliação, o Director atribui uma Avaliação como resultado das Avaliações Parciais feitas ao longo do Ciclo de Avaliação.
2. A Avaliação feita pelo Professor Avaliador decorre da seguinte forma:
. 2.1. No último ano de cada Ciclo de Avaliação, o Avaliado, caso seja PQND, calendariza com o Professor Avaliador 4 aulas assistidas. Caso seja Professor Contratado, calendariza, anualmente, 2 aulas assistidas.
. 2.2. Após a concretização das aulas assistidas, o Avaliado deve entregar ao Professor Avaliador uma Auto-Avaliação sobre os itens que constam no ponto seguinte.
. 2.3. No final de cada Ciclo de Avaliação, o Professor Avaliador atribui uma Avaliação, após apreciação e votação do Conselho de Avaliadores, como resultado da avaliação que fez nos seguintes itens:
. a. Preparação e organização das actividades lectivas;
. b. Relação pedagógica com os alunos;
. c. Diversificação e adequação das estratégias de ensino;
. d. Rigor científico na leccionação dos conteúdos.
3. A Avaliação e Classificação Final, em cada Ciclo de Avaliação, obtém-se somando as classificações (de 1 a 10) atribuídas pelo Director da Escola e pelo Professor Avaliador em cada uma das suas Avaliações.
4. O Professor Avaliador e o Director, após cada Ciclo de Avaliação, reúnem com o avaliado, com o objectivo de dar a conhecer a Avaliação Final obtida e as recomendações para a melhoria do seu desempenho.
VIII. Quais são as classificações da avaliação? (Sistema de classificação)
1. As avaliações efectuadas pelo Director da Escola e pelo Professor Avaliador têm igual peso na Avaliação e Classificação Final.
2. As classificações são expressas nas seguintes menções qualitativas:
. a. Insuficiente – correspondente a avaliação final de 1 a 9,9;
. b. Suficiente – correspondente a avaliação final de 10 a 13,9;
. c. Bom – correspondente a avaliação final de 14 a 15,9;
. d. Muito Bom – correspondente a avaliação final de 16 a 17,9;
. e. Excelente – correspondente a avaliação final de 18 a 20;
3. As classificações de Muito Bom e de Excelente estão condicionadas a quotas, as quais terão em atenção os resultados obtidos na Avaliação Externa da escola.
4. A atribuição da classificação de Excelente deve especificar os contributos relevantes proporcionados pelo avaliado para a melhoria da qualidade do serviço público de Educação, tendo em vista a posterior divulgação.
IX. O que fazer com os resultados da avaliação? (Consequências da Avaliação)
1. Os professores devem progredir na carreira de acordo com as classificações obtidas:
. 1.1. No caso dos PQND:
. a. A menção de Excelente reduz o tempo de permanência no escalão seguinte em 2 anos;
. b. A menção de Muito Bom reduz o tempo de permanência no escalão seguinte em 1 ano;
. c. A menção de Bom não tem consequências, positivas ou negativas, na progressão na carreira, ou seja, não altera o tempo de permanência no escalão seguinte;
. d. A menção de Suficiente aumenta o tempo de permanência no escalão seguinte em 1 ano;
. e. A menção de Insuficiente implica a não contagem do período a que a avaliação respeita para efeitos de progressão na carreira, ou seja, o avaliado não progride para o escalão seguinte e tem de repetir o Ciclo de Avaliação;
. 1.2. No caso dos Professores Contratados:
. a. A menção de Excelente bonifica em 180 dias para efeitos de progressão na carreira;
. b. A menção de Muito Bom bonifica em 90 dias para efeitos de progressão na carreira;
. c. A menção de Bom não tem consequências, positivas ou negativas, na progressão na carreira;
. d. A menção de Suficiente implica que se retire 180 dias para efeitos de progressão na carreira;
. e. A menção de Insuficiente implica a não contagem do período a que a avaliação respeita para efeitos de progressão na carreira;
2. As atribuições de menções qualitativas de Insuficiente e Suficiente implicam a obrigatoriedade de formação contínua que permita ao docente superar as dificuldades identificadas.
3. A atribuição de duas classificações consecutivas, ou de três interpoladas, de Insuficiente determina, no caso dos PQND, a reconversão profissional nos termos da lei e, no caso dos professores Contratados, a proibição, num período de 5 anos, de ser opositor a qualquer concurso para contratação de professores para escolas públicas.
---------------------------------------------------------------------------
Nota1: A figura de Professor Avaliador deve resultar de uma alteração do ECD.
O professor que progride na carreira, de acordo com as avaliações de desempenho e as consequentes "acelerações" e "abrandamentos”, ao aceder ao 8º escalão, deve poder optar por uma de duas vias distintas:
1) Sem diferenciação funcional - isto é desenvolve as funções normais de professor e desenvolve a sua progressão na carreira (até ao 10º escalão) de acordo com as avaliações de desempenho e as consequentes "acelerações" e "abrandamentos”.
2) Com diferenciação funcional - Professor que, além das funções normais de professor, desenvolve funções de Avaliador e/ou Coordenador. Esta segunda via deve ser restrita, por meio de um concurso interno e de acordo com as necessidades da escola, e condicionada aos professores que tenham formação específica na área da avaliação. Quem optar por esta via progride na carreira (8º até ao 10º escalão) de acordo com uma avaliação de desempenho específica.
Nota2: A Auto-Avaliação deve ser feita ao longo do Ciclo de Avaliação da seguinte forma:
1) No final de cada ano lectivo, o Avaliado deve entregar ao Director um Relatório sobre os itens que constam no ponto 1.2 da parte VII.
2) No final de cada Ciclo de Avaliação, o Avaliado deve entregar ao Professor Avaliador uma Auto-Avaliação sobre os itens que constam no ponto 2.2 da parte VII.
Nota3: A existência de quotas para as classificações de Muito Bom e Excelente cumpre apenaso bjectivo de “obrigar” a uma diferenciação dos Avaliados. A atribuição de quotas é separada para os diferentes tipos de docentes.
Nota4: Não há nenhum condicionamento por quotas na progressão da carreira dos professores.
Nota5: O acesso ao 10º escalão deve estar condicionado a apresentação de uma prova pública.
Nota6: Com este sistema de avaliação os professores, em média, progredirão mais rapidamente na carreira do que no sistema vigente (e anterior). Assim, os tempos de permanência em cada escalão devem ser revistos (por exemplo, diminuir o nº de anos de permanência nos escalões mais baixos e aumentar nos escalões mais altos).
Nota7: A dimensão da “participação na escola e relação com a comunidade escolar” deve ser avaliada de uma forma objectiva e mensurável. Dessa forma, deve haver uma negociação, entre o Avaliado e o Director, de um objectivo ou dois, que envolva a participação do professor num projecto, individual ou em parceria com outros professores, no âmbito da comunidade escolar, de acordo com o projecto educativo de cada escola, e que resulte num desenvolvimento de actividades e projectos que sejam, de facto, um valor acrescentado para a escola.
Nota8: Nesta proposta há uma tentativa clara de desburocratizar todo o processo avaliativo e de tornar o mais objectivo possível cada item, sem com isso prejudicar a eficácia da avaliação. Desta forma, o que é proposto como objecto de avaliação está destituído de qualquer carga burocrática sendo tudo quantificável: Assiduidade e cumprimento do serviço, Formação contínua, grau de cumprimento num projecto desenvolvido e prática lectiva.
27 Outubro, 2009
10 Outubro, 2009
Proposta de Avaliação de Professores (1ª versão e 2ª versão)
Ficam aqui disponíveis, para consulta, os links para as primeiras versões da proposta de Avaliação de Desempenho Docente:
Proposta de ADD - 2ª Versão
Proposta de ADD - 1ª Versão
Proposta de ADD - 2ª Versão
Proposta de ADD - 1ª Versão
09 Outubro, 2009
Para onde vamos?
Após uma legislatura marcada por mudanças estruturais em praticamente todos os aspectos da política educativa é tempo de consolidar as mudanças e desenvolver os ajustes e correcções necessárias.
Apesar de muitos professores ainda se encontrarem aprisionados a um corporativismo conservador – que os impede de aceitar a mudança como algo de positivo - é tempo de construir e de deixar a crítica que só destrói e não apresenta soluções.
Os tempos que se aproximam vão colocar às escolas novos e importantes desafios, entre os quais destaco a universalização da frequência da educação básica e secundária entre os 5 e os 18 anos de idade.
Para cumprir este desafio será necessário dar continuidade e aprofundar um conjunto de políticas que têm vindo a ser implementadas nas nossas escolas e que, muitas vezes, não têm sido compreendidas e aceites pelos agentes educativos. Por exemplo, será necessário dar continuidade à diversificação das ofertas formativas – cursos Profissionais, CEF’s e EfA’s - e, ao mesmo tempo, desenvolver melhorias na organização, currículos e componentes práticas destes cursos de forma a valorizar e garantir uma efectiva qualidade de ensino.
Os níveis de sucesso dos nossos alunos, assim como as taxas de abandono escolar, têm melhorado, apesar de ainda se encontrarem muito longe dos níveis que ambicionamos. Ainda assim é necessário continuar esse esforço, adequando as ofertas formativas aos perfis dos alunos, e, ao mesmo tempo, garantindo uma efectiva melhoria da qualidade das aprendizagens dos alunos. Neste aspecto, e sem transigir na exigência de aprendizagens com aproveitamento, é necessário desenvolver novos instrumentos de combate ao insucesso escolar, como por exemplo, na reformulação dos planos (e aulas) de apoio e recuperação, tornando-os menos burocráticos e mais eficientes – e, garanto, há mesmo muita coisa a fazer e mudar nesta área.
Apesar de elogiar este governo por não ter feito mais uma reforma curricular – em contraste com quase todos os ministros anteriores - chegou agora o tempo de fazer alguns ajustes e melhorias na organização dos currículos dos diferentes ciclos, sem que isso implique nenhuma revolução.
Reconheço também que é tempo “pacificar” a relação do Ministério de Educação com os professores e de conseguir-se valorizar o trabalho e mérito dos professores de uma forma justa mas também aceite por “todos”. Para tal será necessário reformular o Estatuto do Aluno – que manifestamente não está bem feito - e negociar uma alteração ao Estatuto da Carreira Docente e, consequentemente, propor um novo modelo de Avaliação de Desempenho de Professores – até porque, neste quadro político, o modelo em vigor será certamente suspenso.
Aliás, julgo que seria muito mau que se suspendesse este modelo sem se apresentar nenhum modelo alternativo que o substituísse. Afinal, espero que estes anos de lutas dos professores tenham ao menos servido para garantir o direito a uma avaliação justa. Caso contrário, confirmar-se-á que os professores não querem esta nem nenhuma avaliação – ou então, querem a que havia, que como sabemos era a única que garantia que todos chegassem, sem esforço e sem diferenciação ao topo da carreira.
Muito já se tem escrito sobre a avaliação de professores, mas, se queremos de facto fazer uma avaliação séria e com consequências, seria bom que pudéssemos fazê-lo conscientes que não há modelos perfeitos.
Apesar de muitos professores ainda se encontrarem aprisionados a um corporativismo conservador – que os impede de aceitar a mudança como algo de positivo - é tempo de construir e de deixar a crítica que só destrói e não apresenta soluções.
Os tempos que se aproximam vão colocar às escolas novos e importantes desafios, entre os quais destaco a universalização da frequência da educação básica e secundária entre os 5 e os 18 anos de idade.
Para cumprir este desafio será necessário dar continuidade e aprofundar um conjunto de políticas que têm vindo a ser implementadas nas nossas escolas e que, muitas vezes, não têm sido compreendidas e aceites pelos agentes educativos. Por exemplo, será necessário dar continuidade à diversificação das ofertas formativas – cursos Profissionais, CEF’s e EfA’s - e, ao mesmo tempo, desenvolver melhorias na organização, currículos e componentes práticas destes cursos de forma a valorizar e garantir uma efectiva qualidade de ensino.
Os níveis de sucesso dos nossos alunos, assim como as taxas de abandono escolar, têm melhorado, apesar de ainda se encontrarem muito longe dos níveis que ambicionamos. Ainda assim é necessário continuar esse esforço, adequando as ofertas formativas aos perfis dos alunos, e, ao mesmo tempo, garantindo uma efectiva melhoria da qualidade das aprendizagens dos alunos. Neste aspecto, e sem transigir na exigência de aprendizagens com aproveitamento, é necessário desenvolver novos instrumentos de combate ao insucesso escolar, como por exemplo, na reformulação dos planos (e aulas) de apoio e recuperação, tornando-os menos burocráticos e mais eficientes – e, garanto, há mesmo muita coisa a fazer e mudar nesta área.
Apesar de elogiar este governo por não ter feito mais uma reforma curricular – em contraste com quase todos os ministros anteriores - chegou agora o tempo de fazer alguns ajustes e melhorias na organização dos currículos dos diferentes ciclos, sem que isso implique nenhuma revolução.
Reconheço também que é tempo “pacificar” a relação do Ministério de Educação com os professores e de conseguir-se valorizar o trabalho e mérito dos professores de uma forma justa mas também aceite por “todos”. Para tal será necessário reformular o Estatuto do Aluno – que manifestamente não está bem feito - e negociar uma alteração ao Estatuto da Carreira Docente e, consequentemente, propor um novo modelo de Avaliação de Desempenho de Professores – até porque, neste quadro político, o modelo em vigor será certamente suspenso.
Aliás, julgo que seria muito mau que se suspendesse este modelo sem se apresentar nenhum modelo alternativo que o substituísse. Afinal, espero que estes anos de lutas dos professores tenham ao menos servido para garantir o direito a uma avaliação justa. Caso contrário, confirmar-se-á que os professores não querem esta nem nenhuma avaliação – ou então, querem a que havia, que como sabemos era a única que garantia que todos chegassem, sem esforço e sem diferenciação ao topo da carreira.
Muito já se tem escrito sobre a avaliação de professores, mas, se queremos de facto fazer uma avaliação séria e com consequências, seria bom que pudéssemos fazê-lo conscientes que não há modelos perfeitos.
07 Outubro, 2009
Citação
“O desafio da qualificação respeita a todos. As famílias não podem naturalizar e desculpar o insucesso escolar, devem ser exigentes e transmitir aos jovens a convicção de que aprender é um tanto um direito como um dever. Os jovens, sobretudo os mais desmotivados, necessitam da confiança dos pais e dos professores para acreditarem em si próprios e ultrapassarem os bloqueios que os impedem de estudar. As escolas e os professores devem, apesar das dificuldades, inscrever na sua missão o princípio de que nenhuma criança pode ser deixada para trás. Por fim, o Estado tem a obrigação de garantir que a escola pública tem e terá todas as condições para cumprir as metas que hoje lhe atribui”
Maria de Lurdes Rodrigues
Maria de Lurdes Rodrigues
30 Setembro, 2009
O caso das escutas 2 - descrição cronológica dos factos
Após os últimos desenvolvimentos deste caso das "escutas", senti necessidade de fazer uma cronologia dos factos que estão por detrás desta história. Aqui vai:
1. Cavaco, após o caso dos Açores e da sua misteriosa comunicação ao país, perde a confiança no governo e deixa cair a ideia de cooperação estratégica.
2. Em Abril de 2008, o homem de confiança do Presidente, e segundo o e-mail a mando do Presidente, marca um encontro com um jornalista do jornal Público e "planta" uma notícia de suspeição de vigilância do governo à presidência, entregando um dossier sobre um assessor do 1ºministro e montando uma história de vigilância de forma a consubstanciar as tais suspeitas.
3. A 23 de Abril de 2008, o jornalista do Público contacta outro jornalista que está na Madeira, pede-lhe que investigue a situação e, segundo o e-mail, chega à conclusão que a história não tem fundamento.
4. Em princípios de Agosto de 2009, surgem notícias, na comunicação social, que assessores de Belém participaram na elaboração do programa do PSD e alguns deputados do Partido Socialista pedem esclarecimentos a Belém.
5. O Presidente fica incomodado com estas notícias e não percebe como vem a público essa participação dos assessores no programa do PSD e permite que, através das suas fontes anónimas, a comunicação social seja "informada" das suspeitas de vigilância que a Presidência tem.
6. A 18 de Agosto de 2009, sai uma notícia no Jornal Público que a Presidência suspeita que está a ser vigiada pelo governo.
7. O Presidente não desmente a notícia e permite que o caso seja alimentado e aproveitado politicamente pelo PSD e pelo tema da asfixia democrática.
8. O Público, no dia a seguir, faz uma notícia com as suspeitas que tinham sido levantadas pelo homem de confiança do Presidente quanto ao tal assessor na viajem à Madeira e que o próprio Público já tinha confirmado serem infundadas.
9. Em plena campanha eleitoral, Francisco Louça acusa que Fernando Lima, o tal homem da confiança de Cavaco, está por detrás das notícias das suspeitas,
10. O Provedor do Público escreve que o jornal Público deu, no caso das suspeitas de vigilância, notícias infundadas e põe em causa as fontes que os jornalistas invocam.
11. Um e-mail interno do Público é publicado no Diário de Notícias onde é revelado os pormenores de como, há 17 meses atrás, Fernando Lima tentou "plantar" uma notícia de suspeitas de vigilância à Presidência.
12. O Director do Público acusa o SIS de interceptarem correspondência interna do seu jornal.
13. O Presidente recusa comentar o e-mail exposto no Diário de Notícias, mas dá a entender que há problemas de segurança.
14. Manuela Ferreira Leite usa as palavras do Director do Público e reforça a ideia de asfixia democrática com as suspeitas de escutas que o SIS faz a alguns jornais.
15. Na mesma noite, o director do Público, confrontado com os resultados públicos de uma auditoria interna aos sistemas informáticos, informa que o e-mail não foi interceptado por fontes externas e nega o envolvimento do SIS.
16. O provedor do Público escreve novamente e insinua que o jornal Público tem uma agenda oculta para prejudicar o governo e beneficiar o PSD.
17. Um deputado do PS, com base no desmentido do próprio director do Público, exige um pedido de desculpas de alguns dirigentes do PSD que insinuaram que o SIS estava a mando do governo a fazer escutas à comunicação social.
18. Cavaco Silva afasta Fernando Lima da assessoria para a comunicação social.
19. Cavaco fala ao país e diz que nunca teve suspeitas de escutas e que Fernando Lima não fala pelo seu nome e que tudo o que se passou não foi mais do que uma manipulação do Partido Socialista para colar o Presidente ao PSD.
20. Pedro Silva Pereira, falando em nome do governo e do PS, desmente ponto por ponto as acusações de manipulação do Presidente da República e sugere que o mal tem de ser resolvido pela raiz.
Penso que não preciso de fazer nenhum comentário. Tirem as vossa próprias conclusões...
1. Cavaco, após o caso dos Açores e da sua misteriosa comunicação ao país, perde a confiança no governo e deixa cair a ideia de cooperação estratégica.
2. Em Abril de 2008, o homem de confiança do Presidente, e segundo o e-mail a mando do Presidente, marca um encontro com um jornalista do jornal Público e "planta" uma notícia de suspeição de vigilância do governo à presidência, entregando um dossier sobre um assessor do 1ºministro e montando uma história de vigilância de forma a consubstanciar as tais suspeitas.
3. A 23 de Abril de 2008, o jornalista do Público contacta outro jornalista que está na Madeira, pede-lhe que investigue a situação e, segundo o e-mail, chega à conclusão que a história não tem fundamento.
4. Em princípios de Agosto de 2009, surgem notícias, na comunicação social, que assessores de Belém participaram na elaboração do programa do PSD e alguns deputados do Partido Socialista pedem esclarecimentos a Belém.
5. O Presidente fica incomodado com estas notícias e não percebe como vem a público essa participação dos assessores no programa do PSD e permite que, através das suas fontes anónimas, a comunicação social seja "informada" das suspeitas de vigilância que a Presidência tem.
6. A 18 de Agosto de 2009, sai uma notícia no Jornal Público que a Presidência suspeita que está a ser vigiada pelo governo.
7. O Presidente não desmente a notícia e permite que o caso seja alimentado e aproveitado politicamente pelo PSD e pelo tema da asfixia democrática.
8. O Público, no dia a seguir, faz uma notícia com as suspeitas que tinham sido levantadas pelo homem de confiança do Presidente quanto ao tal assessor na viajem à Madeira e que o próprio Público já tinha confirmado serem infundadas.
9. Em plena campanha eleitoral, Francisco Louça acusa que Fernando Lima, o tal homem da confiança de Cavaco, está por detrás das notícias das suspeitas,
10. O Provedor do Público escreve que o jornal Público deu, no caso das suspeitas de vigilância, notícias infundadas e põe em causa as fontes que os jornalistas invocam.
11. Um e-mail interno do Público é publicado no Diário de Notícias onde é revelado os pormenores de como, há 17 meses atrás, Fernando Lima tentou "plantar" uma notícia de suspeitas de vigilância à Presidência.
12. O Director do Público acusa o SIS de interceptarem correspondência interna do seu jornal.
13. O Presidente recusa comentar o e-mail exposto no Diário de Notícias, mas dá a entender que há problemas de segurança.
14. Manuela Ferreira Leite usa as palavras do Director do Público e reforça a ideia de asfixia democrática com as suspeitas de escutas que o SIS faz a alguns jornais.
15. Na mesma noite, o director do Público, confrontado com os resultados públicos de uma auditoria interna aos sistemas informáticos, informa que o e-mail não foi interceptado por fontes externas e nega o envolvimento do SIS.
16. O provedor do Público escreve novamente e insinua que o jornal Público tem uma agenda oculta para prejudicar o governo e beneficiar o PSD.
17. Um deputado do PS, com base no desmentido do próprio director do Público, exige um pedido de desculpas de alguns dirigentes do PSD que insinuaram que o SIS estava a mando do governo a fazer escutas à comunicação social.
18. Cavaco Silva afasta Fernando Lima da assessoria para a comunicação social.
19. Cavaco fala ao país e diz que nunca teve suspeitas de escutas e que Fernando Lima não fala pelo seu nome e que tudo o que se passou não foi mais do que uma manipulação do Partido Socialista para colar o Presidente ao PSD.
20. Pedro Silva Pereira, falando em nome do governo e do PS, desmente ponto por ponto as acusações de manipulação do Presidente da República e sugere que o mal tem de ser resolvido pela raiz.
Penso que não preciso de fazer nenhum comentário. Tirem as vossa próprias conclusões...
18 Setembro, 2009
O caso das escutas 1 - questões que me atormentam
Confesso que estou perplexo com o desenvolvimento desta história das "escutas". Por isso, e porque a situação é tão grave que tenho medo que a consigam abafar, deixem-me colocar algumas questões que me atormentam:
1. O Presidente mandou “plantar” uma notícia, há 17 meses atrás, dando conta de que tinha suspeitas que estava a ser vigiado, dando orientações (que estão expostas no e-mail) na forma de como a investigação devia prosseguir, como camuflar a fonte e, ainda, dando como fundamento das tais “suspeitas” o facto de um tipo ligado ao governo (e ao estatuto dos Açores) ter se sentado numa mesa que para o qual não tinha sido convidado (convém também saber que o jornalista do Público, noutro e-mail, diz que investigou a história e que as tais suspeitas não tinham fundamento.
2. Outro facto interessante é o Fernando Lima (assessor de cavaco) ter entregue um dossiê sobre o tal Rui Paulo Figueiredo. Será que não há ninguém que se choque com isto? Desde quando é que a Presidência produz um dossiê sobre alguém? Isto não era o que a PID fazia?
3. Se o Presidente da República suspeitou em algum momento que estava a ser “vigiado” por São bento – que é algo de uma gravidade extrema – porque não fez uma queixa na Procuraria da República?
4. Em Agosto, o Público deu a primeira notícia sobre as tais “suspeitas”, após a confirmação oficial de uma fonte de Belém, numa altura em que os assessores do Presidentes estavam sobre fogo, por terem sido acusados de colaborar na elaboração do programa do PSD e quando o tema da “Asfixia Democrática” fazia caminho.
Ora, não há aqui coincidências a mais e interesses políticos claros (nem que seja uma vingançazinha…)?
5. Francisco Louça, numa daquelas entrevistas intimistas da SIC, denunciou que o autor daquelas notícias “tontas” sobre as tais “suspeitas” a Belém era o Fernando Lima, assessor de Cavaco. Como é que o Louça sabia? Será que o SIS reporta a Louça?
6. José Manuel Fernandes, numa primeira reacção, estava convicto que aquele e-mail interno divulgado pelo Público, só poderia ter sido obtido pelo SIS (que reporta ao SIRP e este ao primeiro ministro). Há pouco, na SIC Notícias, José Manuel Fernandes já não é tão convicto na acusação, até porque, entretanto, “o Conselho Geral da Público Comunicação Social, SA, informa [de] que não tem, até à data, o mais pequeno indício que lhe permita confirmar qualquer violação dos seus sistemas de informação”.
Ou seja, sem qualquer prova, o Director do Público, lançou, mais uma vez, lama para cima da dignidade do 1º Ministro apenas para sacudir a água do capote e, assim, produzir o ruído necessário para que não se discuta o essencial. Tem José Manuel Fernandes uma agenda oculta?
7. Ao longo destes últimos tempos todos temos percebido a semelhança nos discursos de Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite. Será porque o chefe de gabinete de Manuela Ferreira Leite, o jornalista Francisco e Silva, ter sido adjunto de Fernando Lima, o tal assessor de Cavaco, na Direcção do DN? Ou será uma cooperação estratégica?
8. A propósito das notícias do Público sobre as tais “suspeitas” o provedor do leitor do Público produz uns textos muito interessantes que, só por si, levantam imensas dúvidas. Eis uns extractos:
“Salvo melhor prova, tudo não passa de um indício, sim, mas de paranóia, oriunda do Palácio de Belém. Só que tal manifestação é em si já notícia, porque revela a intenção deliberada de alguém próximo do PR minar a relação institucional (ou a “cooperação estratégica”) com o Governo.
(…)
“Pelo que o provedor percebeu, só há uma fonte, que é sempre o mesmo colaborador presidencial que tomou a iniciativa de falar ao PÚBLICO em 2008, mas este milagre da multiplicação das fontes é uma velha pecha do jornalismo político português e não vale a pena perder agora mais tempo com ela.”
(…)
“Solicitados pelo provedor a explicar por que razão os dados recolhidos há ano e meio por T.N. [Tolentino de Nóbrega], e que de algum modo contrariavam a versão do assessor de Belém, não entraram na notícia sobre o “espião” de S. Bento, nem J.M.F. [José Manuel Fernandes] nem L.A. [Luciano Alvarez] responderam.”
9. A intervenção de Cavaco Silva de hoje, a propósito deste caso, é bem medido e pensado. Por isso fica evidente a vontade que o Presidente tem em denegrir a imagem de Sócrates e assim dar mais um contributo para os seus interesses ocultos. Se há problemas de segurança que envolvem “espionagem” ao Presidente – assunto de extrema gravidade – é de aceitar esta reacção?
Afinal, o que quer Cavaco?
P.S. "Pode ser paranóia mas o melhor é não correr riscos." Luciano Alvarez
1. O Presidente mandou “plantar” uma notícia, há 17 meses atrás, dando conta de que tinha suspeitas que estava a ser vigiado, dando orientações (que estão expostas no e-mail) na forma de como a investigação devia prosseguir, como camuflar a fonte e, ainda, dando como fundamento das tais “suspeitas” o facto de um tipo ligado ao governo (e ao estatuto dos Açores) ter se sentado numa mesa que para o qual não tinha sido convidado (convém também saber que o jornalista do Público, noutro e-mail, diz que investigou a história e que as tais suspeitas não tinham fundamento.
2. Outro facto interessante é o Fernando Lima (assessor de cavaco) ter entregue um dossiê sobre o tal Rui Paulo Figueiredo. Será que não há ninguém que se choque com isto? Desde quando é que a Presidência produz um dossiê sobre alguém? Isto não era o que a PID fazia?
3. Se o Presidente da República suspeitou em algum momento que estava a ser “vigiado” por São bento – que é algo de uma gravidade extrema – porque não fez uma queixa na Procuraria da República?
4. Em Agosto, o Público deu a primeira notícia sobre as tais “suspeitas”, após a confirmação oficial de uma fonte de Belém, numa altura em que os assessores do Presidentes estavam sobre fogo, por terem sido acusados de colaborar na elaboração do programa do PSD e quando o tema da “Asfixia Democrática” fazia caminho.
Ora, não há aqui coincidências a mais e interesses políticos claros (nem que seja uma vingançazinha…)?
5. Francisco Louça, numa daquelas entrevistas intimistas da SIC, denunciou que o autor daquelas notícias “tontas” sobre as tais “suspeitas” a Belém era o Fernando Lima, assessor de Cavaco. Como é que o Louça sabia? Será que o SIS reporta a Louça?
6. José Manuel Fernandes, numa primeira reacção, estava convicto que aquele e-mail interno divulgado pelo Público, só poderia ter sido obtido pelo SIS (que reporta ao SIRP e este ao primeiro ministro). Há pouco, na SIC Notícias, José Manuel Fernandes já não é tão convicto na acusação, até porque, entretanto, “o Conselho Geral da Público Comunicação Social, SA, informa [de] que não tem, até à data, o mais pequeno indício que lhe permita confirmar qualquer violação dos seus sistemas de informação”.
Ou seja, sem qualquer prova, o Director do Público, lançou, mais uma vez, lama para cima da dignidade do 1º Ministro apenas para sacudir a água do capote e, assim, produzir o ruído necessário para que não se discuta o essencial. Tem José Manuel Fernandes uma agenda oculta?
7. Ao longo destes últimos tempos todos temos percebido a semelhança nos discursos de Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite. Será porque o chefe de gabinete de Manuela Ferreira Leite, o jornalista Francisco e Silva, ter sido adjunto de Fernando Lima, o tal assessor de Cavaco, na Direcção do DN? Ou será uma cooperação estratégica?
8. A propósito das notícias do Público sobre as tais “suspeitas” o provedor do leitor do Público produz uns textos muito interessantes que, só por si, levantam imensas dúvidas. Eis uns extractos:
“Salvo melhor prova, tudo não passa de um indício, sim, mas de paranóia, oriunda do Palácio de Belém. Só que tal manifestação é em si já notícia, porque revela a intenção deliberada de alguém próximo do PR minar a relação institucional (ou a “cooperação estratégica”) com o Governo.
(…)
“Pelo que o provedor percebeu, só há uma fonte, que é sempre o mesmo colaborador presidencial que tomou a iniciativa de falar ao PÚBLICO em 2008, mas este milagre da multiplicação das fontes é uma velha pecha do jornalismo político português e não vale a pena perder agora mais tempo com ela.”
(…)
“Solicitados pelo provedor a explicar por que razão os dados recolhidos há ano e meio por T.N. [Tolentino de Nóbrega], e que de algum modo contrariavam a versão do assessor de Belém, não entraram na notícia sobre o “espião” de S. Bento, nem J.M.F. [José Manuel Fernandes] nem L.A. [Luciano Alvarez] responderam.”
9. A intervenção de Cavaco Silva de hoje, a propósito deste caso, é bem medido e pensado. Por isso fica evidente a vontade que o Presidente tem em denegrir a imagem de Sócrates e assim dar mais um contributo para os seus interesses ocultos. Se há problemas de segurança que envolvem “espionagem” ao Presidente – assunto de extrema gravidade – é de aceitar esta reacção?
Afinal, o que quer Cavaco?
P.S. "Pode ser paranóia mas o melhor é não correr riscos." Luciano Alvarez
03 Dezembro, 2008
Contra a corrente
Convicto que a democracia ainda não está suspensa, preparo-me para, nos próximos minutos, cumprir o meu dever e o meu horário de professor.
17 Novembro, 2008
Pontos de discórdia
1. Os sindicatos têm-se servido da insatisfação dos professores para, com sucesso, construírem um clima de receio e boicote nas escolas baseado em argumentos enganosos, que os professores acolhem sem espírito crítico nenhum (por exemplo, muitos professores estão convencidos que nunca mais vão progredir na carreira quando, em boa verdade, apenas uma avaliação negativa o impede).
2. Os números impressionantes das manifestações assentam num conjunto de motivos que vai para além da história da avaliação docente - o bode expiatório dos professores. Contudo a maior parte dos professores não quer esta nem nenhuma avaliação. Aliás, quer a que havia, porque é a única que garante que todos cheguem, sem esforço e sem diferenciação, ao topo da carreira.
3. Apesar deste modelo de avaliação não ser perfeito e carecer de muitas melhorias é o modelo que, entre todos os disponíveis, melhor serve o interesse da escola e dos professores. Imagine-se, por exemplo, uma avaliação externa e o pandemónio que não seria nas escolas (gostaria de ver os professores a serem avaliados por um inspector que fosse à escola uma ou duas vezes por ano e que avaliasse os professores de áreas tão diferentes como Educação Visual, Alemão ou Matemática).
4. Muitos professores queixam-se da burocracia do processo de avaliação quando são os próprios, em cada escola, que definem quais os papéis que é necessário preencher e produzir. Ou seja, sempre que se dá à escolas poder decisório para fazer qualquer coisa de importante, invariavelmente, tem de haver um despacho para ensinar aos professores o que fazer exactamente, porque estes só complicam e burocratizam a coisa.
5. Quando alguns professores dizem, os avaliadores em particular, que estão sem tempo para preparar as suas aulas, não dizem a verdade. Os professores avaliadores - que são todos do 8º, 9º ou 10º escalão – têm 3 a 5 horas semanais para avaliar os 5 ou 6 professores a seu cargo (ou seja por cada ano lectivo têm no seu horário, pelo menos 150 horas para dedicar à avaliação). Note-se, no entanto, que neste início de processo é normal que se perca muito mais tempo que o disponível, afinal só agora é que as escolas estão a construir os instrumentos de avaliação.
6. Quando se diz que este processo está a afectar o normal funcionamento das aulas e a prejudicar a qualidade do ensino também não se fala a verdade. Aliás, desde que se sabe que a assiduidade é um factor de avaliação, poucos são os professores a faltar. Mais, ao contrário do que dizem, nunca como agora houve tanta preocupação com os alunos, com as suas aprendizagens e com o seu sucesso.
7. Os professores dizem também não querer hierarquias nem responsabilidades que os diferenciem, isto é, querem ser todos iguais. Mas já não se incomodavam tanto quando alguns, sem nenhum mérito além da antiguidade, chegavam ao topo da carreira ganhando o dobro (2200 euros) com metade do trabalho (12 horas lectivas semanais). Afinal, mais cedo ou mais tarde, todos lá chegariam.
2. Os números impressionantes das manifestações assentam num conjunto de motivos que vai para além da história da avaliação docente - o bode expiatório dos professores. Contudo a maior parte dos professores não quer esta nem nenhuma avaliação. Aliás, quer a que havia, porque é a única que garante que todos cheguem, sem esforço e sem diferenciação, ao topo da carreira.
3. Apesar deste modelo de avaliação não ser perfeito e carecer de muitas melhorias é o modelo que, entre todos os disponíveis, melhor serve o interesse da escola e dos professores. Imagine-se, por exemplo, uma avaliação externa e o pandemónio que não seria nas escolas (gostaria de ver os professores a serem avaliados por um inspector que fosse à escola uma ou duas vezes por ano e que avaliasse os professores de áreas tão diferentes como Educação Visual, Alemão ou Matemática).
4. Muitos professores queixam-se da burocracia do processo de avaliação quando são os próprios, em cada escola, que definem quais os papéis que é necessário preencher e produzir. Ou seja, sempre que se dá à escolas poder decisório para fazer qualquer coisa de importante, invariavelmente, tem de haver um despacho para ensinar aos professores o que fazer exactamente, porque estes só complicam e burocratizam a coisa.
5. Quando alguns professores dizem, os avaliadores em particular, que estão sem tempo para preparar as suas aulas, não dizem a verdade. Os professores avaliadores - que são todos do 8º, 9º ou 10º escalão – têm 3 a 5 horas semanais para avaliar os 5 ou 6 professores a seu cargo (ou seja por cada ano lectivo têm no seu horário, pelo menos 150 horas para dedicar à avaliação). Note-se, no entanto, que neste início de processo é normal que se perca muito mais tempo que o disponível, afinal só agora é que as escolas estão a construir os instrumentos de avaliação.
6. Quando se diz que este processo está a afectar o normal funcionamento das aulas e a prejudicar a qualidade do ensino também não se fala a verdade. Aliás, desde que se sabe que a assiduidade é um factor de avaliação, poucos são os professores a faltar. Mais, ao contrário do que dizem, nunca como agora houve tanta preocupação com os alunos, com as suas aprendizagens e com o seu sucesso.
7. Os professores dizem também não querer hierarquias nem responsabilidades que os diferenciem, isto é, querem ser todos iguais. Mas já não se incomodavam tanto quando alguns, sem nenhum mérito além da antiguidade, chegavam ao topo da carreira ganhando o dobro (2200 euros) com metade do trabalho (12 horas lectivas semanais). Afinal, mais cedo ou mais tarde, todos lá chegariam.
20 Outubro, 2008
Orçamento de Estado
A única característica positiva que sobressai da Dr. Manuela Ferreira Leite é a sua imagem de credibilidade e rigor. Daí que, sempre que fala, faz questão de vincar a sua postura de estado querendo fazer crer que é a única que fala a verdade e que sabe da coisa. Mas o problema é mais do que uma questão de estilo. O que é importante saber é se a Dr, Manuela tem, ou não, competência e se é, ou não, a pessoa certa para ser primeiro ministro. E, para isso, temos que analisar mais do que estilo e dissecar o que diz e, e propõe. E nesse aspecto, custa-me ouvi-la num discurso que, se o entendermos bem, denota algumas falhas de coerência, honestidade e até de soluções. Ao classificar o valor de 0.6 de crescimento do PIB de irreal, nesta conjutura, e indicar o valor de 0.2 como o mais indicado, não lhe parece que está a ser pouco honesta? Ainda para mais quando foi responsável por “prognósticos” em OE anteriores que falharam estrondosamente com diferenciais de 3%? Por outro lado, não lhe parece estranho que a promotora da “obcessão do défice” entre agora numa lógica de medidas que põem em causa o défice público? E o que dizer da sua posição quanto aos grandes investimentos públicos quando, ao mesmo tempo, diz que deve haver uma preocupação com o emprego? Será que é apoiando as empresas que têm prejuizo que se vai criar emprego e desenvolver e melhorar o tecido empresarial português? Serão estas empresas, as que dão prejuízo, que vão alterar os números de desemprego e do desenvolvimento económico? E o que dizer da acusação de que OE está cheio de truques? Será que está a pensar na titularização das dividas que entregou ao citibank? E quando diz que a crise internacional só atingiu Portugal porque Portugal já estava em crise, será que pensa o mesmo para Espanha, Reino Unido, Alemanha,França e todos os outros países? E quando o FMI diz que Portugal vai crescer 1% e muitos, que sempre cresceram mais do que Portugal, vão entrar em recessão, será que também está a vender ilusões?
10 Março, 2008
Desconstruindo a manifestação dos professores
Ao que parece assistimos, neste último fim-de-semana, à maior manifestação de professores que há memória em Portugal. Obviamente não pretendo desvalorizar tal feito, mas, no entanto, julgo interessante tentar perceber os reais motivos de uma onda de insatisfação tão generalizada.
Antes de mais, convém perceber que a revolta dos professores não é de agora e tem que ver com muitos mais factores do que a Avaliação de Desempenho. De facto, há muito que se sentia entre os professores um mal-estar latente. Note-se que foi com este Ministério da Educação que, entre outras medidas, os professores passaram a ter um horário na escola mais alargado, as progressões na carreira congeladas, a idade da reforma adiada para os 65 anos, aulas de apoio e de substituição por sua conta e um regime de faltas e de interrupções lectivas muito mais apertado. Tudo isto medidas que, independentemente da sua justiça e urgência, infligiram aos professores perdas nos seus direitos outrora adquiridos.
Claro que, por si só, estas medidas não eram justificativas de grandes contestações, mas somadas, uma após outra, foram mais do que suficientes para que a classe docente se sentisse vitimizada e perdesse a confiança no Ministério de Educação. À custa disso, os sindicatos reforçaram o seu papel junto da classe docente e tornaram-se os principais, senão únicos, fazedores de opinião credível entre os professores, adoptando uma postura de clara oposição a tudo o que emanava do gabinete da Ministra. Está bom de ver que, a partir daí, só faltava uma boa desculpa para que a bolha da insatisfação explodisse para fora das escolas.
Os sindicatos quando pegaram na questão da Avaliação do Desempenho dos Professores fizeram-no com óbvia má fé, fazendo crer que o que aí vinha iria tornar a vida dos professores num inferno, impossibilitando que qualquer professor subisse na carreira. Os professores, completamente manietados e feridos, nem se deram ao trabalho de dar o benefício da dúvida ao Ministério da Educação em algo que, não sendo perfeito, é mais do que necessário e justo fazer. Afinal, a sua posição há muito que estava tomada.
P.S. Para quem quiser saber mais sobre a regulamentação da Avaliação de Desempenho dos Professores aconselho a consulta deste link.
Antes de mais, convém perceber que a revolta dos professores não é de agora e tem que ver com muitos mais factores do que a Avaliação de Desempenho. De facto, há muito que se sentia entre os professores um mal-estar latente. Note-se que foi com este Ministério da Educação que, entre outras medidas, os professores passaram a ter um horário na escola mais alargado, as progressões na carreira congeladas, a idade da reforma adiada para os 65 anos, aulas de apoio e de substituição por sua conta e um regime de faltas e de interrupções lectivas muito mais apertado. Tudo isto medidas que, independentemente da sua justiça e urgência, infligiram aos professores perdas nos seus direitos outrora adquiridos.
Claro que, por si só, estas medidas não eram justificativas de grandes contestações, mas somadas, uma após outra, foram mais do que suficientes para que a classe docente se sentisse vitimizada e perdesse a confiança no Ministério de Educação. À custa disso, os sindicatos reforçaram o seu papel junto da classe docente e tornaram-se os principais, senão únicos, fazedores de opinião credível entre os professores, adoptando uma postura de clara oposição a tudo o que emanava do gabinete da Ministra. Está bom de ver que, a partir daí, só faltava uma boa desculpa para que a bolha da insatisfação explodisse para fora das escolas.
Os sindicatos quando pegaram na questão da Avaliação do Desempenho dos Professores fizeram-no com óbvia má fé, fazendo crer que o que aí vinha iria tornar a vida dos professores num inferno, impossibilitando que qualquer professor subisse na carreira. Os professores, completamente manietados e feridos, nem se deram ao trabalho de dar o benefício da dúvida ao Ministério da Educação em algo que, não sendo perfeito, é mais do que necessário e justo fazer. Afinal, a sua posição há muito que estava tomada.
P.S. Para quem quiser saber mais sobre a regulamentação da Avaliação de Desempenho dos Professores aconselho a consulta deste link.
01 Março, 2008
Descodificando a contestação dos professores
Ao que parece, a classe docente anda revoltada. A julgar pelas conversas nas salas de professores, e pelas manifestações “espontâneas” que por aí se preparam, nunca, como hoje, a contestação a este governo e à Ministra da Educação foi tão unânime e incisiva por parte dos professores.
Nos últimos dias, a propósito da Avaliação de Desempenho dos Professores, muito se tem dito e ouvido. Há ano e meio atrás, altura em que escrevi o texto que postei anteriormente, a maior parte dos professores dizia-se contra qualquer avaliação de desempenho que fugisse dos termos da que era feita na época, ou seja, que interferisse com a progressão automática nas carreiras que, como alguns sabem, assegurava a todos, sem distinção, ao fim de uns anos o topo da carreira, isto é, um ordenado de € 2900 (ilíquidos) por 12 horas semanais de trabalho lectivo. Agora, percebendo que não têm argumentos que sustentem o facto de não quererem ser avaliados, dizem que, afinal, querem ser avaliados mas não nos moldes que a regulamentação do Ministério da Educação definiu.
Todos sabemos que a avaliação dos professores, tal como a dos alunos, é de elementar justiça e fundamental para valorizar o empenhamento e premiar o mérito, visando, dessa forma, a melhoria das aprendizagens e resultados. Contudo, isso não é suficiente para que os professores a desejem e aceitem. Muito menos para os sindicatos, através dos seus milhares de agentes impregnados nas escolas, deixarem fugir esta oportunidade de fazerem figura perante os seus líderes partidários. Afinal, qual seria o professor que aceitaria de bom grado, de um dia para outro, o incómodo e a preocupação de prestar contas pelo trabalho realizado ao longo do ano lectivo, ainda por cima com implicações na progressão na carreira? Certamente muito poucos.
Por agora, o objectivo de alguns professores e sindicatos é, tal como ouvi ontem na voz de um colega, "dar cabo da ministra antes que ela dê cabo de nós". Por isso que os argumentos contra a regulamentação da Avaliação de Desempenho dos Professores, assim como as providências cautelares interpostas pelos sindicatos e as mega manifestações previstas, são apenas fogo de artificio para nos entreter em discussões demagógicas e vãs que visam apenas e só adiar a implementação da avaliação e deixar tudo como está.
Sejamos claros, a reforma em curso na educação é difícil, com óbvios custos políticos, e envolve mudanças profundas na cultura das nossas escolas que, sem margem de dúvida, afectam os interesses e expectativas dos professores. Contudo, são reformas imperativas a bem do país, que só não foram feitas há muitos anos por falta de coragem política dos governos anteriores.
Nos últimos dias, a propósito da Avaliação de Desempenho dos Professores, muito se tem dito e ouvido. Há ano e meio atrás, altura em que escrevi o texto que postei anteriormente, a maior parte dos professores dizia-se contra qualquer avaliação de desempenho que fugisse dos termos da que era feita na época, ou seja, que interferisse com a progressão automática nas carreiras que, como alguns sabem, assegurava a todos, sem distinção, ao fim de uns anos o topo da carreira, isto é, um ordenado de € 2900 (ilíquidos) por 12 horas semanais de trabalho lectivo. Agora, percebendo que não têm argumentos que sustentem o facto de não quererem ser avaliados, dizem que, afinal, querem ser avaliados mas não nos moldes que a regulamentação do Ministério da Educação definiu.
Todos sabemos que a avaliação dos professores, tal como a dos alunos, é de elementar justiça e fundamental para valorizar o empenhamento e premiar o mérito, visando, dessa forma, a melhoria das aprendizagens e resultados. Contudo, isso não é suficiente para que os professores a desejem e aceitem. Muito menos para os sindicatos, através dos seus milhares de agentes impregnados nas escolas, deixarem fugir esta oportunidade de fazerem figura perante os seus líderes partidários. Afinal, qual seria o professor que aceitaria de bom grado, de um dia para outro, o incómodo e a preocupação de prestar contas pelo trabalho realizado ao longo do ano lectivo, ainda por cima com implicações na progressão na carreira? Certamente muito poucos.
Por agora, o objectivo de alguns professores e sindicatos é, tal como ouvi ontem na voz de um colega, "dar cabo da ministra antes que ela dê cabo de nós". Por isso que os argumentos contra a regulamentação da Avaliação de Desempenho dos Professores, assim como as providências cautelares interpostas pelos sindicatos e as mega manifestações previstas, são apenas fogo de artificio para nos entreter em discussões demagógicas e vãs que visam apenas e só adiar a implementação da avaliação e deixar tudo como está.
Sejamos claros, a reforma em curso na educação é difícil, com óbvios custos políticos, e envolve mudanças profundas na cultura das nossas escolas que, sem margem de dúvida, afectam os interesses e expectativas dos professores. Contudo, são reformas imperativas a bem do país, que só não foram feitas há muitos anos por falta de coragem política dos governos anteriores.
02 Fevereiro, 2008
O problema de Portugal não são os políticos. São os portugueses.
Aproveitando o amuo da esposa, permito-me, durante os próximos minutos, tentar escrever uma ou duas coisas que me parecem muito pertinentes, apesar de pouco interessantes.
Já devo ter dito algures que a democracia só servia para Portugal se fossem os suecos ou os finlandeses a votar por nós. Não é que eles sejam mais espertos ou menos egoístas. Simplesmente, por estarem longe, não seriam parte interessada. E assim, talvez vissem as coisas com outro alcance, sem a mesquinhez que nos faz desejar que tudo fique na mesma e nos impede de deixar fazer aquilo que tem de ser feito.
Por issso que, enquanto professores, médicos, enfermeiros, policias, militares, juízes, magistrados, farmacêuticos, notários, funcionários públicos, cidadãos em geral, populações em particular, e sei lá mais quem, manifestarem-se na rua ou fizerem greve, este governo tem o meu apoio.
Já devo ter dito algures que a democracia só servia para Portugal se fossem os suecos ou os finlandeses a votar por nós. Não é que eles sejam mais espertos ou menos egoístas. Simplesmente, por estarem longe, não seriam parte interessada. E assim, talvez vissem as coisas com outro alcance, sem a mesquinhez que nos faz desejar que tudo fique na mesma e nos impede de deixar fazer aquilo que tem de ser feito.
Por issso que, enquanto professores, médicos, enfermeiros, policias, militares, juízes, magistrados, farmacêuticos, notários, funcionários públicos, cidadãos em geral, populações em particular, e sei lá mais quem, manifestarem-se na rua ou fizerem greve, este governo tem o meu apoio.
06 Janeiro, 2008
Dúvidas políticas
Em época de balanços e projecções noto que o desemprego é o tema que mais preocupação traz aos portugueses. Muitos, convenientemente, responsabilizam o governo pela situação a que chegámos. 8,2 %. Porém, são os mesmos que, quando o governo traçou como objectivo o aumento do emprego, acusaram tal promessa de completa demagogia e propaganda política, argumentando que não é o governo que cria postos de trabalho. Mas se o governo não é responsável pelo aumento do emprego, pode ser responsável pelo aumento do desemprego?
03 Janeiro, 2008
Proibido Fumar
Ao que parece, e para surpresa de muitos, a nova lei que proíbe fumar em recintos fechados está a ser bem recebida e cumprida pela generalidade dos fumadores. Portugal precisava de uma lei assim. De 1º mundo. Que, mais do que melhorar a saúde das pessoas, só se pudesse aplicar num país desenvolvido e não cá. Finalmente temos uma lei que não permite desabafos do tipo "ah se fosse na América ou na Suécia isto não era assim...". Agora cá é como lá, onde dizem que se vive bem. E isso dá-nos esperança e enche-nos o peito. Aumenta-nos a auto-estima. Aos portugueses não interessa se esta lei faz bem à saúde. Se fosse só por isso nenhum fumador a elogiava. O que interessa aos portugueses é que esta lei traz um arauto de modernidade e de desenvolvimento que, pelo menos nisto, não podem deixar escapar. Receiam passar por provincianos. Por isso são tão cumpridores, educados e compreensivos. Vaidade, apenas isso. O problema é que este tipo de sentimentos não perdura nos portugueses - somos mais invejosos do que vaidosos - e bastará um ou dois exemplos convenientes para que, mais cedo ou mais tarde, se invoque a liberdade individual e o 25 de Abril para que tudo volte ao mesmo. Afinal, não fomos feitos para isso, nem a lei foi feita para nós.
02 Janeiro, 2008
Eu acho... essencialmente... coisas perdidas
Já vai para mais de 1 ano que não escrevo aqui. A preguiça, os afazeres e a esposa (não necessariamente por esta ordem) colocaram-me num estado de letargia bloguista que só o acumular de perplexidades pôs fim - como sabemos, as perplexidades produzem opiniões e as opiniões só fazem sentido se partilhadas e confrontadas.
O português, ao contrário do que se pensa, não tem opinião sobre nada de essencial. Faltam-lhe ideias e interesse para as produzir. Quanto muito, de uma forma preguiçosa, “acha que” qualquer coisa – excepto, claro, em assuntos que tenham que ver com a vida dos outros. E quando “achamos” alguma coisa, dificilmente “achamos” bem. Achar mal está mais de acordo com a nossa natureza pessimista. Ajuda-nos a encarar a vida. Desculpa-nos.
Acho que devíamos ter opinião sobre tudo e alguma coisa. Nem que seja para cair no ridículo. Eu, parece-me, já estou a fazer a minha parte.
O português, ao contrário do que se pensa, não tem opinião sobre nada de essencial. Faltam-lhe ideias e interesse para as produzir. Quanto muito, de uma forma preguiçosa, “acha que” qualquer coisa – excepto, claro, em assuntos que tenham que ver com a vida dos outros. E quando “achamos” alguma coisa, dificilmente “achamos” bem. Achar mal está mais de acordo com a nossa natureza pessimista. Ajuda-nos a encarar a vida. Desculpa-nos.
Acho que devíamos ter opinião sobre tudo e alguma coisa. Nem que seja para cair no ridículo. Eu, parece-me, já estou a fazer a minha parte.
26 Outubro, 2006
Direito de Antena
Há uma franja de pessoas, comentadores políticos e jornalistas incluídos, que anseiam por qualquer coisa que cause embaraço político ao Primeiro-ministro e ao governo. Sem alternativas credíveis, fazem o que podem para garantir o seu poleiro, amplificando tudo e mais alguma coisa com a demagogia e o populismo que convém. Afinal, já perceberam que, para saírem da clandestinidade a que ficaram remetidos, não podem usar dos recorrentes chavões de ausência de reformas, falta de coragem política, medidas eleitoralistas e outras coisas parecidas a que estão habituados. Suponho que seja bom sinal. Ou não.
21 Setembro, 2006
Ser benfiquista
Não poucas vezes, dou comigo a tentar perceber porque sou do Benfica. Na falta de uma razão melhor, suponho que, como não me lembro de ter optado por este ou aquele clube, só pode ser um problema de nascença. Nasci assim. Inteligente, bonito e, para compensar, benfiquista. Há quem nasça com o rabo* virado para a lua e depois há os infelizes dos benfiquistas. É um facto. Por isso, tenho para mim que, não fosse Adão ter comido a maça, todos seriam da Académica e felizes.
Ser do Benfica, tal como o género sexual, não se escolhe. Está predestinado. Quanto muito, revoltados, podemos nos travestir em outra coisa qualquer. E há razões para isso, pois ser do Benfica há muito que não envaidece nem dá genica. Pelo contrário. Bastava que um Aladino qualquer concedesse a um benfiquista um desejo futebolístico para rapidamente optar por um clube mais decente, como o belenenses ou assim.
Ser do Benfica é uma convicção romântica - é ter na alma uma chama imensa que nos consome e sei lá mais o quê - que pouco tem que ver com desporto ou futebol. Por isso perdura. Porque se fosse pelo qualidade do futebol praticado nem seis benfiquistas haveriam, quanto mais seis milhões. Pode-se gostar muito de futebol mas, um benfiquista, gosta muito mais do Benfica. Futebol sem Benfica é como ciclismo. Mas menos interessante. Benfica sem futebol é o dia-a-dia. Jogo-a-jogo.
Este ano está mais que visto que, impossibilitados de escolher os árbitros, nem a taça da amizade ganhamos. A ver pelos últimos jogos, que eu não vi, bem podem os nossos rivais, se é que os há neste nosso Portugal, ficarem preocupados com o Paços de Ferreira e tal. Aliás, só vejo futebol na televisão, tal como hóquei patins ou esgrima, quando o Benfica joga. Mas, como o Benfica não tem jogado nada, tenho me dedicado mais ao ciclismo e isso.
Afinal, o que se poderia esperar de umas papoilas saltitantes, ainda por cima, vestidas com camisolas berrantes?
Ser do Benfica, tal como o género sexual, não se escolhe. Está predestinado. Quanto muito, revoltados, podemos nos travestir em outra coisa qualquer. E há razões para isso, pois ser do Benfica há muito que não envaidece nem dá genica. Pelo contrário. Bastava que um Aladino qualquer concedesse a um benfiquista um desejo futebolístico para rapidamente optar por um clube mais decente, como o belenenses ou assim.
Ser do Benfica é uma convicção romântica - é ter na alma uma chama imensa que nos consome e sei lá mais o quê - que pouco tem que ver com desporto ou futebol. Por isso perdura. Porque se fosse pelo qualidade do futebol praticado nem seis benfiquistas haveriam, quanto mais seis milhões. Pode-se gostar muito de futebol mas, um benfiquista, gosta muito mais do Benfica. Futebol sem Benfica é como ciclismo. Mas menos interessante. Benfica sem futebol é o dia-a-dia. Jogo-a-jogo.
Este ano está mais que visto que, impossibilitados de escolher os árbitros, nem a taça da amizade ganhamos. A ver pelos últimos jogos, que eu não vi, bem podem os nossos rivais, se é que os há neste nosso Portugal, ficarem preocupados com o Paços de Ferreira e tal. Aliás, só vejo futebol na televisão, tal como hóquei patins ou esgrima, quando o Benfica joga. Mas, como o Benfica não tem jogado nada, tenho me dedicado mais ao ciclismo e isso.
Afinal, o que se poderia esperar de umas papoilas saltitantes, ainda por cima, vestidas com camisolas berrantes?
07 Setembro, 2006
Só se vê o que se quer ver
Num dos muitos, mas sempre únicos, momentos de contemplação de mim próprio, desta vez frente ao espelho, verifico que a acção da melanina produziu em mim, desculpem-me a imodéstia, um apresentável e bonito bronzeado. Espantam-me, por isso, as insinuações a propósito do envelhecimento precoce da pele e os comentários sobre o acentuar das minhas eventuais rugas.
Numa observação menos atenta, e com alguma má vontade, pode-se de facto, passado algum tempo, encontrar na zona dos meus olhos alguns riscos na pele de tom mais claro. Mas daí a confundi-los com rugas vai uma distância como daqui, sei lá, até à Fonte da Telha. O pior é que nem rugas de expressão são. Aliás, parece-me evidente que, sem muito esforço, facilmente se pode concluir que tais riscos na pele só podem resultar de uma disforme exposição solar, consequente do facto de não usar óculos de sol na praia e, por isso, involuntariamente, enrugar a cara aquando a exposição da minha bela carcaça ao sol.
No esplendor dos meus vinte e poucos anos, poderei, com relativa à vontade, reduzir tais comentários a simples inveja - note que, a inveja não é querer o que o outro tem (isso é cobiça), mas sim querer que o outro não tenha. E não me venham com as desculpas da ilusão de óptica e não sei quê, senão vou ter que me armar em carapau de corrida com explicações sobre a reflectância real dos objectos e sobre a instabilidade dos estímulos visuais. Até porque, como estamos fartos de saber, a percepção que temos das coisas é em grande parte auto-produzida. Isto é, o que vemos é sempre, em certa medida, uma ilusão. Mas isso, vão-me desculpar, já são outros quinhentos.
Numa observação menos atenta, e com alguma má vontade, pode-se de facto, passado algum tempo, encontrar na zona dos meus olhos alguns riscos na pele de tom mais claro. Mas daí a confundi-los com rugas vai uma distância como daqui, sei lá, até à Fonte da Telha. O pior é que nem rugas de expressão são. Aliás, parece-me evidente que, sem muito esforço, facilmente se pode concluir que tais riscos na pele só podem resultar de uma disforme exposição solar, consequente do facto de não usar óculos de sol na praia e, por isso, involuntariamente, enrugar a cara aquando a exposição da minha bela carcaça ao sol.
No esplendor dos meus vinte e poucos anos, poderei, com relativa à vontade, reduzir tais comentários a simples inveja - note que, a inveja não é querer o que o outro tem (isso é cobiça), mas sim querer que o outro não tenha. E não me venham com as desculpas da ilusão de óptica e não sei quê, senão vou ter que me armar em carapau de corrida com explicações sobre a reflectância real dos objectos e sobre a instabilidade dos estímulos visuais. Até porque, como estamos fartos de saber, a percepção que temos das coisas é em grande parte auto-produzida. Isto é, o que vemos é sempre, em certa medida, uma ilusão. Mas isso, vão-me desculpar, já são outros quinhentos.
23 Agosto, 2006
Ainda sobre a praia e as suas complexidades
A praia, dizem, é o lugar mais democrático do mundo. Há espaço para ricos, pobres, magros, gordos, crianças, velhos. Para todos. Isto, desde que cada um fique na sua, claro. A verdade é que há muito que a praia deixou de ser um lugar democrático. Os ricos têm as suas próprias praias, assim como os homossexuais, surfistas, velhos e pretos. As praias tornaram-se clubes. Até os guias turísticos, que antes diferenciavam as praias pela paisagem, temperatura da água ou localização, identificam as praias por quem lá vai. E cada um sabe onde ir e qual o clube a que pertence. A sua praia.
Contudo, as coisas não são assim tão simples. De verdade não somos nós que escolhemos a praia para onde queremos ir. Tal qual, surpreenda-se, como não escolhemos o super mercado onde fazemos as nossas compras. Acredite ou não, mas essas escolhas já alguém fez por si. Intencionalmente. Mas, ao mesmo tempo, fazendo-nos acreditar que somos nós que decidimos.
Vejamos, então. Porque raio é que você opta por ir à praia da Fonte da Telha em vez de ir à praia da Morena, sabendo que a Fonte da Telha é uma praia feia, suja, com pouco estacionamento, muita gente e pior ambiente? Porque não vamos todos para a praia da Morena, que tem melhor ambiente, é mais organizada, limpa e sem casas clandestinas nas dunas?
Os bares e restaurantes de apoio a cada uma das praias talvez nos ajudem a responder ás questões anteriores. Por exemplo, sabia que um café na Morena custa cerca de 1,5€ enquanto na Fonte da Telha apenas 0,75€? Porque será? A nossa primeira resposta seria porque, possivelmente, na Morena as rendas são mais elevadas. O que até pode ser verdade, mas não a principal razão. De facto, o café continua a custar 1,5€ porque há clientes que estão dispostos a pagá-lo e não por causa do custo da renda. E porque preferem pagar 1,5€ por café? Não julgue que seja só porque podem fazê-lo. Poder fazê-lo não significa que uma pessoa opte por o fazer. A verdade é que as pessoas optam por fazê-lo porque não há concorrência, nas mesmas condições - por isso é que na Morena só existe um único bar-restaurante adjudicado. Mas se as pessoas sabem disso, porque continuam a ir lá? Talvez, antes de responder a esta questão, faça sentido colocar outras. Porque é que o autocarro não passa na Morena? Ou porque é que, na Morena, o preço dos chapéus, toldos e garrafas de água são tão caros? Ou porque é que a Fonte da telha continua naquela desordem com tantas casas ilegais e tanto lixo no chão? Ou porque parece haver melhores estradas para ir para a Fonte da Telha? Ou porque é que a praia da Morena tem um acesso dificil e entope tão facilmente se houver excesso de carros?
Antes de responder a tudo isto, lembre-se que, onde há dinheiro a ganhar, poucas coisas acontecem por coincidência. Note também que, se todas as praias da zona estivessem nas mesmas condições, possivelmente, o café, por exemplo, teria o preço de 1€, um preço médio, o que não seria suficientemente alto para explorar os clientes mais mãos-largas, nem suficientemente baixo para atrair os mais poupadinhos. Desta forma, talvez agora comece a achar as respostas para as questões anteriores. Talvez agora fique mais claro porque é que a praia da Morena tem condições tão diferentes da Morena. Talvez agora perceba o motivo porque é que a tranquilidade e bom ambiente está confinado à praia da Morena. Talvez agora faça sentido porque é que não interessa ter muita e qualquer gente na Morena. Talvez agora descubra porque a câmara consegue sacar uma renda alta ao proprietário do único bar-restaurante da Morena. Talvez agora compreenda porque vai à Fonte da Telha antes de ir à Morena. Talvez agora entenda porque é que todos vão à praia e não se queixam. Talvez agora aceite que, afinal, a praia não é assim tão democrática.
Contudo, as coisas não são assim tão simples. De verdade não somos nós que escolhemos a praia para onde queremos ir. Tal qual, surpreenda-se, como não escolhemos o super mercado onde fazemos as nossas compras. Acredite ou não, mas essas escolhas já alguém fez por si. Intencionalmente. Mas, ao mesmo tempo, fazendo-nos acreditar que somos nós que decidimos.
Vejamos, então. Porque raio é que você opta por ir à praia da Fonte da Telha em vez de ir à praia da Morena, sabendo que a Fonte da Telha é uma praia feia, suja, com pouco estacionamento, muita gente e pior ambiente? Porque não vamos todos para a praia da Morena, que tem melhor ambiente, é mais organizada, limpa e sem casas clandestinas nas dunas?
Os bares e restaurantes de apoio a cada uma das praias talvez nos ajudem a responder ás questões anteriores. Por exemplo, sabia que um café na Morena custa cerca de 1,5€ enquanto na Fonte da Telha apenas 0,75€? Porque será? A nossa primeira resposta seria porque, possivelmente, na Morena as rendas são mais elevadas. O que até pode ser verdade, mas não a principal razão. De facto, o café continua a custar 1,5€ porque há clientes que estão dispostos a pagá-lo e não por causa do custo da renda. E porque preferem pagar 1,5€ por café? Não julgue que seja só porque podem fazê-lo. Poder fazê-lo não significa que uma pessoa opte por o fazer. A verdade é que as pessoas optam por fazê-lo porque não há concorrência, nas mesmas condições - por isso é que na Morena só existe um único bar-restaurante adjudicado. Mas se as pessoas sabem disso, porque continuam a ir lá? Talvez, antes de responder a esta questão, faça sentido colocar outras. Porque é que o autocarro não passa na Morena? Ou porque é que, na Morena, o preço dos chapéus, toldos e garrafas de água são tão caros? Ou porque é que a Fonte da telha continua naquela desordem com tantas casas ilegais e tanto lixo no chão? Ou porque parece haver melhores estradas para ir para a Fonte da Telha? Ou porque é que a praia da Morena tem um acesso dificil e entope tão facilmente se houver excesso de carros?
Antes de responder a tudo isto, lembre-se que, onde há dinheiro a ganhar, poucas coisas acontecem por coincidência. Note também que, se todas as praias da zona estivessem nas mesmas condições, possivelmente, o café, por exemplo, teria o preço de 1€, um preço médio, o que não seria suficientemente alto para explorar os clientes mais mãos-largas, nem suficientemente baixo para atrair os mais poupadinhos. Desta forma, talvez agora comece a achar as respostas para as questões anteriores. Talvez agora fique mais claro porque é que a praia da Morena tem condições tão diferentes da Morena. Talvez agora perceba o motivo porque é que a tranquilidade e bom ambiente está confinado à praia da Morena. Talvez agora faça sentido porque é que não interessa ter muita e qualquer gente na Morena. Talvez agora descubra porque a câmara consegue sacar uma renda alta ao proprietário do único bar-restaurante da Morena. Talvez agora compreenda porque vai à Fonte da Telha antes de ir à Morena. Talvez agora entenda porque é que todos vão à praia e não se queixam. Talvez agora aceite que, afinal, a praia não é assim tão democrática.
22 Agosto, 2006
Ir à praia
O calor leva-nos involuntariamente à praia. O que, bem vistas as coisas, não deixa de ser curioso e paradoxal. Senão, vejamos. A ideia de ir à praia deveria ser a solução para fugir do calor, o nosso estímulo inicial. Contudo, quando vamos à praia, muito rapidamente sonegamos o incómodo do calor, entregando o nosso corpo ao sol tal qual um espeto de picanha se entrega ao assador. Claro que, de quando em vez, lá vamos à água e refrescamos. Mas, por estranho que pareça, ir à água é muito menos do que isso. Muitas vezes, só se vai à água para que não se pense que se vai à praia sem se ir à água. Ou então para suprir alguma necessidade fisiológica. Sim, porque, como toda a gente sabe, quase todos, senão todos, mictam na água. É um facto. A chatice é que todos pensam que por ser no mar, coisa grande e infindável, que não há grande problema. Afinal, tirando o quentinho do momento, e exceptuando os casos de alguns que quando entram na água se põem de cócoras a fingirem estar a ambientar-se à água, a coisa até passa despercebida. Uma gota no oceano, portanto. O pior, é que todos pensam da mesma forma o que faz com que sejam muitas gotas no mesmo oceano e, inevitavelmente, nos nossos lábios.
No fundo, vamos à praia em dias de calor, porque, em primeiro lugar, sabemos que as outras pessoas também irão lá estar. Não passa disso mesmo. Um acto social, onde a matilha se encontra e representa o seu papel de acordo com as suas expectativas e motivações. E, a grosso modo, todas essas expectativas e motivações podem ser enquadradas em dois grupos distintos de pessoas que vão à praia. Os que vão para se mostrar e os que vão para ver. Os primeiros, estão normalmente o ano inteiro no ginásio, e em frente ao espelho, a prepararem-se para o momento, sabendo que, os segundos, estarão lá a olhar para eles a invejá-los e a fazerem promessas para consigo próprios de dietas e exercício físico esforçado.
No fundo, vamos à praia em dias de calor, porque, em primeiro lugar, sabemos que as outras pessoas também irão lá estar. Não passa disso mesmo. Um acto social, onde a matilha se encontra e representa o seu papel de acordo com as suas expectativas e motivações. E, a grosso modo, todas essas expectativas e motivações podem ser enquadradas em dois grupos distintos de pessoas que vão à praia. Os que vão para se mostrar e os que vão para ver. Os primeiros, estão normalmente o ano inteiro no ginásio, e em frente ao espelho, a prepararem-se para o momento, sabendo que, os segundos, estarão lá a olhar para eles a invejá-los e a fazerem promessas para consigo próprios de dietas e exercício físico esforçado.
21 Agosto, 2006
O Amor é uma coisa a vida é outra
No meio da confusão que permanecem as minhas 2 assoalhadas - e enquanto continuo a procurar um livro para levar para a praia, que seja suficientemente grosso para causar boa impressão e, a espaços, servir de almofada - dei de caras, e com os pés, com uma das crónicas do MEC que mais gosto e que não resisto em colocar aqui, em jeito de compensação pelo meu excesso de preguiça em escrever algo original.
*
Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Por que se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e ao mínimo amuo entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psicosócio-bio-ecológica da camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam "praticamente" apaixonadas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim da tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O amor é uma coisa a vida é outra. A vida que se lixe. A vida dura uma vida inteira, o amor não.
* Texto adaptado, rasurado e emendado a partir de uma crónica de Miguel Esteves Cardoso
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Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Por que se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e ao mínimo amuo entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psicosócio-bio-ecológica da camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade ficam "praticamente" apaixonadas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim da tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O amor é uma coisa a vida é outra. A vida que se lixe. A vida dura uma vida inteira, o amor não.
* Texto adaptado, rasurado e emendado a partir de uma crónica de Miguel Esteves Cardoso
06 Julho, 2006
Abriu a época de incêndios
Em jeito de aquecimento para o que nos espera nos próximos tempos, assistimos esta semana aos primeiros incêndios mediatizados. Depois da época balnear, da época de exames, da época da caça, passámos a ter, também, a época dos incêndios. Todos os anos a mesma coisa. Primeiro vem a seca. Depois as ondas de calor- este ano, vá lá, até tivemos direito a uns mosquitozinhos e tudo. E, finalmente, os incêndios. Inevitável, como o destino*.
Embarcando na moda das teorias da conspiração, tenho para mim que tudo isto é potenciado e orquestrado pelos media, em especial pelas televisões, ávidos de imagens dantescas com chamas alaranjadas a lamber o máximo de árvores e casas possíveis. Não tenho qualquer dúvida que tudo é preparado, com muitos meses de antecedência, ao ínfimo pormenor, como se de uma campanha publicitária se tratasse. Aliás, as televisões preparam-se melhor, com equipamentos sofisticados, montes de jornalistas corajosos, uns quantos helicópteros e não sei mais o quê, do que os próprios bombeiros. E depois, claro que se tem de fazer render todo esse investimento. Por isso, preparem-se para começarem a levar com, pelo menos, 20 minutos de telejornal sobre incêndios (a somar aos 30 minutos sobre o mundial), onde tudo, inevitavelmente, será sobrevalorizado, exagerado e dramático. Até parece que estou a ver: os helicópteros lançando gotas de água sobre as chamas; os bombeiros correndo de um lado para o outro, impotentes e sem camisa; as populações a queixarem-se dos aviões, ou da falta deles; as entrevistas sucessivas a gente corajosa, transpirada e suja de cinzas; os rostos de velhinhas cobertas de lágrimas, lamentando-se de que nunca viram nada assim; hectares e hectares de mato queimado, passando por floresta densa; pontos de situação e alertas coloridos; promessas de reforço de meios, campanhas de solidariedade e blábláblá ... Enfim... É de um gajo ficar farto. Enojado. Dos incêndios, é certo, mas mais ainda dos telejornais que se tornam numa verdadeira seca, e pior, na melhor publicidade para que haja mais incêndios e incendiários. Mas isso não interessa nada. Desde que as audiências estejam garantidas, claro.
*essa história do destino é uma força de expressão, entenda-se
Embarcando na moda das teorias da conspiração, tenho para mim que tudo isto é potenciado e orquestrado pelos media, em especial pelas televisões, ávidos de imagens dantescas com chamas alaranjadas a lamber o máximo de árvores e casas possíveis. Não tenho qualquer dúvida que tudo é preparado, com muitos meses de antecedência, ao ínfimo pormenor, como se de uma campanha publicitária se tratasse. Aliás, as televisões preparam-se melhor, com equipamentos sofisticados, montes de jornalistas corajosos, uns quantos helicópteros e não sei mais o quê, do que os próprios bombeiros. E depois, claro que se tem de fazer render todo esse investimento. Por isso, preparem-se para começarem a levar com, pelo menos, 20 minutos de telejornal sobre incêndios (a somar aos 30 minutos sobre o mundial), onde tudo, inevitavelmente, será sobrevalorizado, exagerado e dramático. Até parece que estou a ver: os helicópteros lançando gotas de água sobre as chamas; os bombeiros correndo de um lado para o outro, impotentes e sem camisa; as populações a queixarem-se dos aviões, ou da falta deles; as entrevistas sucessivas a gente corajosa, transpirada e suja de cinzas; os rostos de velhinhas cobertas de lágrimas, lamentando-se de que nunca viram nada assim; hectares e hectares de mato queimado, passando por floresta densa; pontos de situação e alertas coloridos; promessas de reforço de meios, campanhas de solidariedade e blábláblá ... Enfim... É de um gajo ficar farto. Enojado. Dos incêndios, é certo, mas mais ainda dos telejornais que se tornam numa verdadeira seca, e pior, na melhor publicidade para que haja mais incêndios e incendiários. Mas isso não interessa nada. Desde que as audiências estejam garantidas, claro.
*essa história do destino é uma força de expressão, entenda-se
19 Junho, 2006
Futebol, Futebol e Futebol*
Se há coisa que os portugueses têm a certeza é que, depois dos Descobrimentos, pouco mais podem fazer de grandioso. O problema é que, de quando em vez, nos esquecemos disso. E, por momentos, deixamos de parte a nossa condição miserabilista e armamo-nos em carapaus de corrida, convencidos que é desta que somos capazes de ser melhores que os outros.
Sem hipóteses no festival da canção, as nossas esperanças estão nestes dias centradas na selecção de futebol, o novo desígnio nacional. O parolismo patriótico instalou-se, e vive-se a histeria do mundial. Mesmo aqueles que não gostam ou não percebem nada de futebol renderam-se ao apelo da bandeirinha na janela. O mundial passou a ser pretexto para tudo e transformou-se numa novela insuportável. Todos falam, falam, falam, falam, falam, e não dizem nada. O futebol caiu na unanimidade e corre o risco de se perder nas revistas cor-de-rosa e nos programas da manha do Goucha. Por isso que, a bem do futebol e dos que gostam dele na sua essência, começa a ser desejável que Portugal seja rapidamente eliminado do mundial. Se é que ainda vamos a tempo…
* Versão actual e simplificada de “Deus, Pátria e Família”
Sem hipóteses no festival da canção, as nossas esperanças estão nestes dias centradas na selecção de futebol, o novo desígnio nacional. O parolismo patriótico instalou-se, e vive-se a histeria do mundial. Mesmo aqueles que não gostam ou não percebem nada de futebol renderam-se ao apelo da bandeirinha na janela. O mundial passou a ser pretexto para tudo e transformou-se numa novela insuportável. Todos falam, falam, falam, falam, falam, e não dizem nada. O futebol caiu na unanimidade e corre o risco de se perder nas revistas cor-de-rosa e nos programas da manha do Goucha. Por isso que, a bem do futebol e dos que gostam dele na sua essência, começa a ser desejável que Portugal seja rapidamente eliminado do mundial. Se é que ainda vamos a tempo…
* Versão actual e simplificada de “Deus, Pátria e Família”
10 Junho, 2006
Coisas da Escola
Há muito que queria escrever sobre educação e, especialmente, sobre as polémicas recentes que opõem grande parte dos professores às medidas anunciadas pelo ministério da educação. O assunto é sério e merece uma reflexão honesta, sem a ligeireza e retórica de ocasião que alguns insistem em ter.
Todos sabemos que a escola não vai bem. Os alunos abandonam a escola muito cedo, com níveis muito baixos de escolaridade, não conseguindo adquirir competências mínimas, indispensáveis para um mundo de trabalho globalizado e cada vez mais exigente. A falta de qualificação, quer dos jovens, quer dos adultos, torna a nossa economia menos competitiva e, desta forma, irremediavelmente afastada dos índices de desenvolvimento que ambicionamos. Por outro lado, na última década, Portugal tem feito um enorme investimento público em educação. À conta disso, Portugal é o país da OCDE que maior percentagem da despesa corrente gasta em salários de professores, e onde os rácios de aluno por professor são os mais favoráveis da União Europeia. Por isso, seria de esperar que a escola apresentasse melhores resultados. Se isso não acontece é porque o problema é muito mais do que uma questão de meios. Há muito que o problema deixou de ser o dinheiro. Essa desculpa, usada por sucessivos governos para fugirem à responsabilidade de fazer o que deveria ser feito, já não serve. Pelo contrário, num país onde o estado gasta mais do que tem, seria injusto, numa altura em que o estado tem obrigatoriamente de cortar na despesa pública, que na área de educação se deixasse tudo como está, isto é, que se continuasse a por dinheiro na escola sem dela se exigir resultados e uma melhor gestão, racionalização e optimização de meios e recursos.
Serve tudo o que acima foi dito para enquadrar a proposta do ministério de revisão do Estatuto de Carreira Docente. Porque, como é óbvio, os professores não se podem colocar à parte destes problemas, muito menos fazendo-se de vítimas.
Para além da espuma que tem ressaltado da comunicação social, nomeadamente na questão da avaliação dos professores pelos pais e noutras questões técnicas passíveis de alteração mediante negociação com os sindicatos, interessa-me discutir a questão do princípio de avaliação dos professores. Devem ou não os professores ser avaliados? Devem ou não ser distinguidos os bons dos maus professores? Deve ou não haver consequências de uma avaliação?
Não querendo gastar muitas mais linhas a retratar a situação actual, parece-me evidente que o actual Estatuto de Carreira Docente não serve. Em primeiro lugar porque é injusto para os professores, tornando os bons e os maus todos iguais, ao premiar todos. Em segundo lugar porque não assenta em nenhuma lógica de resultados e de objectivos, não estimula os que mais se empenham, torna o sistema ineficiente. Em terceiro porque é economicamente incompreensível, permitindo que, indiscriminadamente, todos cheguem, de uma forma automática, ao topo da carreira.
Para existir qualidade no ensino tem de haver uma boa avaliação dos seus intervenientes. É assim com os alunos. Deve ser assim com os professores. A qualidade tem de ser premiada e tem de haver uma clara discriminação entre os bons e os maus professores. Actualmente, a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Depois de entrar na carreira é um descanso. Para alguns, a segurança de um emprego para a vida e a certeza de uma promoção automática, são as únicas coisas que os prendem à profissão. Muitos caem na rotina, no comodismo e no facilitismo que a carreira oferece. Até os bons professores se desmotivam e acabam por entrar nesta cultura descentrada do seu objectivo principal: o sucesso dos alunos. Por isso que, para bem dos alunos e dos bons professores, é urgente mudar. A escola precisa de voltar a ser credível e isso só é compatível com uma cultura de qualidade e exigência para todos, inclusive para os professores. Porque a escola pública existe por causa dos alunos, é neles que devemos centrar as nossas atenções, ainda que isso possa resultar na perda de direitos de alguns maus professores. Por muito que custe.
Todos sabemos que a escola não vai bem. Os alunos abandonam a escola muito cedo, com níveis muito baixos de escolaridade, não conseguindo adquirir competências mínimas, indispensáveis para um mundo de trabalho globalizado e cada vez mais exigente. A falta de qualificação, quer dos jovens, quer dos adultos, torna a nossa economia menos competitiva e, desta forma, irremediavelmente afastada dos índices de desenvolvimento que ambicionamos. Por outro lado, na última década, Portugal tem feito um enorme investimento público em educação. À conta disso, Portugal é o país da OCDE que maior percentagem da despesa corrente gasta em salários de professores, e onde os rácios de aluno por professor são os mais favoráveis da União Europeia. Por isso, seria de esperar que a escola apresentasse melhores resultados. Se isso não acontece é porque o problema é muito mais do que uma questão de meios. Há muito que o problema deixou de ser o dinheiro. Essa desculpa, usada por sucessivos governos para fugirem à responsabilidade de fazer o que deveria ser feito, já não serve. Pelo contrário, num país onde o estado gasta mais do que tem, seria injusto, numa altura em que o estado tem obrigatoriamente de cortar na despesa pública, que na área de educação se deixasse tudo como está, isto é, que se continuasse a por dinheiro na escola sem dela se exigir resultados e uma melhor gestão, racionalização e optimização de meios e recursos.
Serve tudo o que acima foi dito para enquadrar a proposta do ministério de revisão do Estatuto de Carreira Docente. Porque, como é óbvio, os professores não se podem colocar à parte destes problemas, muito menos fazendo-se de vítimas.
Para além da espuma que tem ressaltado da comunicação social, nomeadamente na questão da avaliação dos professores pelos pais e noutras questões técnicas passíveis de alteração mediante negociação com os sindicatos, interessa-me discutir a questão do princípio de avaliação dos professores. Devem ou não os professores ser avaliados? Devem ou não ser distinguidos os bons dos maus professores? Deve ou não haver consequências de uma avaliação?
Não querendo gastar muitas mais linhas a retratar a situação actual, parece-me evidente que o actual Estatuto de Carreira Docente não serve. Em primeiro lugar porque é injusto para os professores, tornando os bons e os maus todos iguais, ao premiar todos. Em segundo lugar porque não assenta em nenhuma lógica de resultados e de objectivos, não estimula os que mais se empenham, torna o sistema ineficiente. Em terceiro porque é economicamente incompreensível, permitindo que, indiscriminadamente, todos cheguem, de uma forma automática, ao topo da carreira.
Para existir qualidade no ensino tem de haver uma boa avaliação dos seus intervenientes. É assim com os alunos. Deve ser assim com os professores. A qualidade tem de ser premiada e tem de haver uma clara discriminação entre os bons e os maus professores. Actualmente, a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Depois de entrar na carreira é um descanso. Para alguns, a segurança de um emprego para a vida e a certeza de uma promoção automática, são as únicas coisas que os prendem à profissão. Muitos caem na rotina, no comodismo e no facilitismo que a carreira oferece. Até os bons professores se desmotivam e acabam por entrar nesta cultura descentrada do seu objectivo principal: o sucesso dos alunos. Por isso que, para bem dos alunos e dos bons professores, é urgente mudar. A escola precisa de voltar a ser credível e isso só é compatível com uma cultura de qualidade e exigência para todos, inclusive para os professores. Porque a escola pública existe por causa dos alunos, é neles que devemos centrar as nossas atenções, ainda que isso possa resultar na perda de direitos de alguns maus professores. Por muito que custe.
18 Maio, 2006
Contradições da vida
Dantes vivia-se mal e a vida não era fácil, hoje vive-se bem e a vida é difícil. Dantes as pessoas nasciam em casa e sem apoio médico, hoje até tem de se ir nascer a Badajoz para que não falte nada. Dantes as crianças brincavam com carros de pinhas e ficavam todas satisfeitas, hoje brincam com Playstation’s , Gameboy’s, e sei lá mais o quê, e estão cada vez mais exigentes. Dantes os estudantes levavam reguadas por não saberem a matéria, hoje culpam os professores e têm explicadores privados. Dantes os jovens só se calçavam para ir à missa, hoje só se descalçam para ir à praia. Dantes as pessoas eram feias e casavam-se, hoje somos bonitos e divorciamo-nos. Dantes não havia televisão nem tédio, hoje há Tv cabo, dvd’s, cinema, shopping’s e passamos a vida a assoprar. Dantes não havia tempo para ter depressões, hoje não há tempo para os psicólogos nos atenderem. Dantes as mulheres faziam todo o trabalho doméstico e tinham muitos filhos, hoje, arranjam uma empregada, vêm novelas o dia todo, e, quanto muito, têm um filho. Dantes as pessoas trabalhavam de sol a sol e recebiam uma miséria, hoje não se trabalha e recebe-se um bom dinheiro por isso. Dantes os maridos não faziam nada em casa e as mulheres não se queixavam, hoje fazem quase tudo e as mulheres só reclamam. Dantes só se descansava ao domingo e não havia férias para ninguém, hoje não trabalhamos pelo menos dois dias por semana, fazemos férias no Brasil e nunca descansamos. Dantes as pessoas iam ao médico uma vez na vida, hoje levam os cães ao veterinário uma vez por semana. Dantes morria-se de fome, hoje morre-se porque comemos demais. Dantes lutava-se para sustentar a família, hoje luta-se para pagar ao banco o empréstimo para o telemóvel 3G. Dantes, com a idade, ficávamos velhos e morríamos, hoje fazemos plásticas e lifting’s e morremos na mesma.
16 Maio, 2006
Dizer mal é uma condição indispensável para produzir bem e obrigatória para produzir melhor
Um blogue serve, essencialmente, para dizer mal. Mas, como estamos tão habituados a ouvir falar mal de tudo, torna-se difícil ser original. Dizer mal, não é, infelizmente, uma opção. Ou melhor, é uma opção, mas irrecusável. Por muito que não se queira, há nos portugueses uma sensação de inevitabilidade em dizer mal. É algo genético, dominante, embutido e aperfeiçoado de geração em geração. Aliás, se o povo português, não dissesse mal e não se queixasse de tudo, faltava-lhe assunto. E por isso, engordava. Deixava de ir à missa. Deixava de ver os Reality Shows e de gostar do Castelo Branco. Começava a ler. Perdia a potência sexual. Extinguia-se.
Mas, do que os portugueses gostam mesmo de dizer mal é dos próprios portugueses. Esse é o nosso desporto nacional. Especialmente, apreciam-se as comparações com os estrangeiros, as estatísticas e os ranking’s a nosso desfavor. É a nossa desculpa. O nosso fado, destino, sei lá. A nossa paródia. Contudo, quando ouvimos algum estrangeiro falar mal de Portugal, ou dos portugueses, indignamo-nos, sentimo-nos injustiçados, invocamos os descobrimentos. E, durante uns minutos, vemos Portugal como o melhor país do mundo, sem compreender como alguém pode dizer mal de um país com pessoas tão maravilhosas e acolhedoras, com tão bom futebol, comida, clima e vinho barato.
Mas, do que os portugueses gostam mesmo de dizer mal é dos próprios portugueses. Esse é o nosso desporto nacional. Especialmente, apreciam-se as comparações com os estrangeiros, as estatísticas e os ranking’s a nosso desfavor. É a nossa desculpa. O nosso fado, destino, sei lá. A nossa paródia. Contudo, quando ouvimos algum estrangeiro falar mal de Portugal, ou dos portugueses, indignamo-nos, sentimo-nos injustiçados, invocamos os descobrimentos. E, durante uns minutos, vemos Portugal como o melhor país do mundo, sem compreender como alguém pode dizer mal de um país com pessoas tão maravilhosas e acolhedoras, com tão bom futebol, comida, clima e vinho barato.
13 Maio, 2006
Em estado de maturação
Tenho para mim que o primeiro post é sempre mais difícil que os anteriores. Por isso, não levem a mal que, na tentativa de procurar o tom certo para este post, isto soe mais a um arroto seco. A verdade é que, apesar de me apresentar n’Os Predilectos com um estatuto de bloguista experimentado e maduro, não passo de um inamovível calhau, preguiçoso quanto baste, sem, de momento, nenhum tipo de inspiração que se registe. Só não digo que sou uma pessoa desnutrida de qualquer substância, porque, finalmente, a minha barriga já não o permite. Aliás, foi hoje que, no aconchego do sofá, tomei consciência que começo a ter uma barriga digna de um homem como deve ser. Confesso, que ainda estou meio abalado com tamanho e irrepetível feito. Tanto, tanto, tanto, que em vez de me sentir mais homem, me sinto muito mais compreensível para com as mulheres, e, particularmente, muito mais interessado nas repetidas conversas sobre os benefícios da Herbalife. Contudo, parece-me que é justo exigir de todos algum tipo de respeito e reconhecimento, até porque, não é todos os dias que se atinge a fase mais importante da maturação de um homem adulto – vulgo, barriga - , ainda para mais, sem recurso das facilidades do casamento ou da vida académica em Coimbra.
Ainda sem encontrar o tom certo, resta-me fazer votos para que rapidamente se escrevam muitos outros post’s, de forma que este fique remetido à condição que merece, isto é, bem escondidinho. Note-se, que é a primeira vez que recorro, neste texto, a um diminutivo. Aliás, como ponto prévio, fica já assente que evitarei os diminutivos e, a talhe de foice, os post’s fofinhos, bonitinhos, engraçadinhos e levezinhos. Até porque, agora, já tenho uma barriga de homem-adulto-maduro, ou seja, uma barriguinha de homenzinho.
Ainda sem encontrar o tom certo, resta-me fazer votos para que rapidamente se escrevam muitos outros post’s, de forma que este fique remetido à condição que merece, isto é, bem escondidinho. Note-se, que é a primeira vez que recorro, neste texto, a um diminutivo. Aliás, como ponto prévio, fica já assente que evitarei os diminutivos e, a talhe de foice, os post’s fofinhos, bonitinhos, engraçadinhos e levezinhos. Até porque, agora, já tenho uma barriga de homem-adulto-maduro, ou seja, uma barriguinha de homenzinho.
30 Janeiro, 2006
Conto mais curto, versão
Era uma vez um homem que um dia prometeu ir para a neve com a família. Até que um dia nevou e cumpriu.
29 Janeiro, 2006
Abominável Homem das Neves
Era uma vez um homem que um dia prometeu ir para a neve com a família. A sua mulher, entusiasmada com a ideia, rapidamente tratou de contar a novidade às suas amigas. E, durante um ano, andou todos os dias a fazer as malas de viagem, a vestir os filhos a rigor e a justificar-se perante as amigas na esperança que a promessa se cumprisse. Até que um dia nevou.
05 Dezembro, 2005
O essencial é invisível aos olhos
Se há coisa que nunca parece bem é ter mau aspecto. Contudo, ter mau aspecto não é assim tão mau. Além de ser bastante útil para não se ser assaltado, se pensarmos bem até pode ser um elogio. Afinal, quando alguém diz de outro, que está com mau aspecto é porque no fundo sabe que ele poderia estar muito melhor. Ou seja, há uma esperança de ser algo temporário e de se poder ficar com bom aspecto caso se queira. Ora aí está a grande diferença para quando se é simplesmente feio. Esses não têm esperança. Por muito bom aspecto que tenham serão sempre feios. Não têm cura. Claro que há a ilusão de que com umas roupinhas adequadas a coisa melhore. Ou então, que com uns cremes e umas plásticas a coisa disfarce. Porém, a realidade é cada vez mais exigente e os milagres cada vez mais raros. E, por muito que custe dizer, quem nasceu para feio dificilmente o disfarçará e, mais cedo ou mais tarde, será sempre reconhecida a sua real natureza, tal qual acontece nas primeiras lavagens das camisas Ralph Lauren da feira de Carcavelos. Antigamente, segundo dizem, os homens não se queriam bonitos e as mulheres que eram bonitas tinham fama de serem estúpidas. Hoje, num mundo cada vez mais injusto, tudo mudou. Já nem aquela pertinente questão de escolher entre uma gaja bonita e burra ou uma gaja feia e inteligente faz sentido. A distribuição de beleza, ou falta dela, democratizou-se entre burros e inteligentes. Se antes as coisas estavam mal para os pobres, hoje as coisas estão muito mal para os feios. Nunca como agora foi tão triste ser feio. Por isso que deveria haver uma regra que ditasse que os feios fossem melhores pessoas que os bonitos. Ou que as pessoas bonitas fossem invariavelmente pobres, sujas, desdentadas, sei lá. O que me parece injusto é haver tanta gente bonita, rica, inteligente, cheia de saúde e de bom aspecto. Tudo ao mesmo tempo. E o pior é que com esta história da globalização a ideia romântica de haver gostos para tudo está cada vez mais ultrapassada. Agora todos querem ser bonitos como os outros e já nem os feios gostam dos feios - e quando acham que gostam é porque se conformaram e perderam a esperança. Enfim, a vida não está nada fácil. Valha-me ao menos o mau aspecto.
13 Novembro, 2005
Dilema da semana
Apesar de objectivamente não concordar com os motivos invocados pelos sindicatos para a greve dos professores da próxima sexta-feira, acho que desta vez é inevitável e irrecusável não me mostrar solidário com os meus colegas. Afinal, não são todos os dias que se tem um fim de semana grande.
12 Novembro, 2005
Para além da sinceridade
Se há defeito que não suporto é a sinceridade. Melhor, se há coisa que me chateia ouvir é, alguém dizer de si próprio, que o seu maior defeito é ser sincero. Mesmo aqueles que se dizem muito humildes, não conseguem ser pior que esta espécie de gente que insiste em fazer crer que são o que não são, apenas por vaidade. Aliás, se há coisa que estas pessoas demonstram é falta de humildade e de vergonha. Bastava um pouquinho de cada uma para perceberem que ninguém acredita no que dizem. Nem elas próprias. Pelo contrário, quem profere uma frase destas sabe muito bem que não está a ser sincero. Pensa apenas que desta forma se valoriza perante o seu interlocutor e que o faz acreditar em uma de duas coisas: que não tem defeitos e que é uma óptima pessoa ou que é uma pessoa geneticamente desbocada que diz tudo o que lhe vem à cabeça.
Por outro lado há pessoas que acham que a sua maior qualidade é serem sempre sinceros. E, por muito que me custe dizer, acham mal. Quem tem um mínimo de experiência de vida sabe muito bem que nem sempre ser sincero é o melhor. Obviamente que não quero dizer que mentir é preferível. Há que saber o que se diz e o que se pode e é conveniente dizer. É uma questão de motivo. Afinal, o que deve medir a nossa sinceridade não são as palavras em si, mas sim a intenção com que as dizemos. Até porque, como diz o poeta, quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Por outro lado há pessoas que acham que a sua maior qualidade é serem sempre sinceros. E, por muito que me custe dizer, acham mal. Quem tem um mínimo de experiência de vida sabe muito bem que nem sempre ser sincero é o melhor. Obviamente que não quero dizer que mentir é preferível. Há que saber o que se diz e o que se pode e é conveniente dizer. É uma questão de motivo. Afinal, o que deve medir a nossa sinceridade não são as palavras em si, mas sim a intenção com que as dizemos. Até porque, como diz o poeta, quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
09 Novembro, 2005
A Pandemia do Egoísmo
Cada vez me convenço mais de que a descoberta da vacina contra a Malária só acorrerá quando, por algum meio ou forma, o vírus chegar à Europa ou América. Até porque morrer dessa forma é inadmissível. Pelo menos quando perto de nós, claro.
06 Novembro, 2005
Antigamente é que era bom!
Um dos nossos grandes problemas é sermos muito dramáticos e pessimistas. Independentemente da situação, sentimo-nos sempre em crise. Vivemos em crise. Talvez por isso que recordamos sempre os tempos passados, que na altura também já eram de crise, como os melhores. No entanto vivemos num mundo que, de dia para dia, pula e avança de uma forma extraordinária. E, a verdade é que nunca como hoje as pessoas tiveram tão boas condições de vida. Por outro lado, também, nunca como hoje as pessoas andaram tão deprimidas, o que não deixa de ser um pouco estranho e contraditório. O pior é que nem nos apercebemos desta contradição em que vivemos. Por isso dizemos que estamos em crise. Ou seja, deitamos as culpas em algo abstracto, desculpando-nos da nossa incapacidade para conseguir traduzir em bem estar, e em felicidade, as evoluções que vamos alcançando. O mais interessante é que é essa insatisfação que nos alimenta e nos mantém vivos num ciclo vicioso. Sentimo-nos frustados e por isso ambicionamos mais. E assim, como se de uma função inversamente proporcional se tratasse, lá o mundo vai avançando num ritmo cada vez mais frenético. E por cada pulo que dá, nós afundamo-nos mais um pouco. E de pulo em pulo temos o nosso destino traçado. Enterrado.
24 Outubro, 2005
A Gripe das Aves
A propósito da gripe das aves, não se consegue perceber esta pandemia de histeria que assola a comunicação social. O alarmismo é tal que acaba por ter mais efeitos negativos do que propriamente a gripe das aves poderá alguma vez vir a ter. De facto, não deixa de ser estranho que ande todo o mundo excessivamente preocupado com um vírus que até já existe há alguns anos na Ásia, onde vivem mais de 2 mil milhões de pessoas, e que, até hoje, apenas resultou, em zonas com condições óptimas à propogação do vírus, em residuais casos de contágio. Ainda assim, assistimos, em tempos de aperto financeiro, a um desvario de gastos em vacinas, que não sabemos serem eficazes, para vírus que sabemos ainda não se transmitirem entre humanos e que muito provavelmente nem chegarão perto de nós. E o mais triste é que, enquanto isso, como ouvia hoje na rádio, vão morrendo centenas de pessoas por cada minuto que passa, por doenças como a malária, a tuberculose, paludismo e outras , que não merecem um minuto sequer da nossa atenção e do nosso histerismo. Mas isso já não nos incomoda tanto comos os patos, gaivotas e papagaios, afinal, esses que infelizmente morrem todos os dias, não passam de aves raras com convenientes dificuldades de migração, e por isso, sem hipóteses de nos contagiarem.
23 Outubro, 2005
As iludências aparudem
Os jovens de hoje não são tão feios como eram. Por exemplo as mulheres, especialmente as mulheres, parecem-me ter muito melhor aspecto hoje do que quando comparadas com aquelas das reportagens da RTP memória de há 15 anos atrás. Mas não é só uma questão de aspecto e de bom gosto. É mais do que isso. Basta ir a um qualquer centro comercial, excepto o Fórum Montijo onde as pessoas continuam feias todos os dias, para confirmar que a beleza física se democratizou e generalizou. Os Portugueses estão a ficar mais altos, mais direitos, mais sensuais, mais cuidados, enfim, mais bonitos. Claro que ainda continuamos a vestir muito mal e a ter o cabelo oleoso, mas, como as diferenças para os atarracados dos nossos antepassados são tão grandes, é impossível negar que, pelo menos fisicamente, fomos, estamos a ser, geneticamente apurados. Tal como Charles Darwin o fez, poder-se-ia reduzir tudo isto a uma questão de selecção natural. Talvez assim até se explicasse outro facto indesmentível que é de que, no caso dos homens, além de estarem mais bonitos, estarem, ao mesmo tempo, cada vez mais burros - afinal as mulheres sempre escolheram aqueles homens com um palminho de cara e um dedo de cérebro. Mas, por muito que nos custe, acho que no fundo tudo isto se deve apenas aos efeitos da globalização, sempre a globalização, e, claro, aos hambúrgueres, ao Clearasil e aos conselhos de beleza da Revista Maria.
19 Outubro, 2005
Uma ideia
E de repente, começo a achar que a solução, deste problema a que chamamos Portugal, pode muito bem passar pela produção de energia eléctrica a partir de centrais nucleares nacionais. E porque não? Pelo menos sempre nos traria, além dos óbvios benefícios económicos e ambientais, algum alento, independência e auto-suficiência.
14 Outubro, 2005
Sinto falta de ter tempo para inventar coisas para passar o tempo
Um dos meus passatempos preferidos, enquanto estive em São Nicolau, era sentar-me na única esplanada da terra e pôr-me a olhar para as pessoas que passavam na rua e adivinhar de quem eram irmãos. Pode parecer estranho mas garanto que, além de ser um jogo socialmente relevante, é super divertido. Especialmente porque, apesar de conhecer todas as pessoas da vila onde morava, não conhecia as relações familiares que tinham entre elas. Pois, como sabem, quase todos os cabo-verdianos têm mais do que 10 irmãos e, sublinhe-se, quase nunca dos mesmos dois pais. Ou seja, as combinações possíveis eram imensas, o que para o caso só aumentava a dificuldade e interesse do jogo.
12 Outubro, 2005
Ressaca eleitoral
Todos - enfermeiros, policias, militares, juizes, magistrados, professores, funcionários públicos em geral e sei lá mais quem - protestam contra o governo. E, em muitos casos, legitimamente, pois os seus direitos, adquiridos segundo alguns, foram postos em causa. Porém acontece que, por exemplo, apesar dos professores acharem muito injustas as medidas que o governo tomou a seu respeito a verdade é que já não acham tão mal as medidas tomadas a respeito dos enfermeiros, juizes, magistrados, e.t.c. Ou seja, por muito que não se queira, todos entendem e compreendem a necessidade e a justiça destas medidas. Pelo menos para os outros, claro.
Dizem, alguns, que nunca se viu um governo, com apenas 6 meses de governação, sofrer tanta contestação - e ter, através do partido socialista, um resultado tão fraco numas eleições, como as desta semana. De facto, admito, é verdade. Nunca se viu. Mas, admitem, nunca um governo fez tanto em tão pouco tempo e, ainda por cima, sem ligar a calendários eleitorais. Isso, também, nunca se viu.
Mas o que mais me espanta são os comentadores e os partidos de direita. Há uns meses atrás defendiam reformas e mais reformas. Mais, achavam que eram os únicos capazes de o fazer. E agora, protestam, queixam-se e acham demais. Mas a verdade é que só o fazem por oportunismo e vergonha. Pois, no fundo, o que lhes dói não são as medidas em si, mas sim o facto de não terem sido eles , os de direita, a terem a coragem e a determinação de as fazerem.
Dizem, alguns, que nunca se viu um governo, com apenas 6 meses de governação, sofrer tanta contestação - e ter, através do partido socialista, um resultado tão fraco numas eleições, como as desta semana. De facto, admito, é verdade. Nunca se viu. Mas, admitem, nunca um governo fez tanto em tão pouco tempo e, ainda por cima, sem ligar a calendários eleitorais. Isso, também, nunca se viu.
Mas o que mais me espanta são os comentadores e os partidos de direita. Há uns meses atrás defendiam reformas e mais reformas. Mais, achavam que eram os únicos capazes de o fazer. E agora, protestam, queixam-se e acham demais. Mas a verdade é que só o fazem por oportunismo e vergonha. Pois, no fundo, o que lhes dói não são as medidas em si, mas sim o facto de não terem sido eles , os de direita, a terem a coragem e a determinação de as fazerem.
09 Outubro, 2005
Por acaso
O acaso é o reconhecimento da nossa incapacidade para controlar o conjunto de variáveis que determinam um acontecimento. O acaso define o que não conseguimos prever. Contudo, se conseguirmos repetir exactamente, em todas as suas variáveis, uma determinada situação ou experiência o acaso torna-se previsível. Por isso que, em teoria, o acaso não existe. Ou melhor, por isso que, na prática, o acaso ainda existe.
Da mesma forma, o que é uma emoção senão mais do que uma sequência de reacções químicas do nosso cérebro? Não há emoções irrepetíveis. Basta que controlemos todas as variáveis e a reproduzamos.
Tudo pode ser sintetizado. Afinal, somos pó. Simplesmente pó.
Da mesma forma, o que é uma emoção senão mais do que uma sequência de reacções químicas do nosso cérebro? Não há emoções irrepetíveis. Basta que controlemos todas as variáveis e a reproduzamos.
Tudo pode ser sintetizado. Afinal, somos pó. Simplesmente pó.
08 Outubro, 2005
Macaquices
Durante estes dias tenho passado muito tempo a conduzir. E, de vez em vez, dou comigo a pensar e a pensar. Além de ainda não ter percebido porque é que, em tempo de crise e de queixume generalizado, todos têm um carro melhor que o meu, assaltam-me, quilómetro a quilómetro, outras dúvidas muito mais interessantes. Por exemplo, com esta história de os carros terem ar condicionado, pergunto-me repetidamente para onde é que vão os macacos do nariz do condutor que antigamente eram orgulhosamente deixados em queda livre pela janela do carro? A questão é pertinente, especialmente para quem faz muitos quilómetros diários, visto que a solução de os colar por baixo do assento tem enormes incómodos. Ou não é verdade que na tentativa de descolá-los do dedo, contra o assento em veludo, se fica, invariavelmente, com mais dois ou três colados?
26 Setembro, 2005
O Problema das Mulheres
Faltam-me poucas páginas para acabar de ler o livro Os Meus Problemas do Miguel Esteves Cardoso. Como muitos sabem o Miguel é um dos meus autores favoritos. Por mais que uma vez já senti inveja do que escreve. Aqui fica mais um exemplo. Leve, mas bem pensado e escrito. Espero que apreciem, apesar das minhas truncagens e adaptações.
O problema dos homens são as mulheres. E o problema das mulheres também. Concretamente, são as outras mulheres o problema das mulheres.(...) Por outras palavras, as mulheres são sempre o problema. E o problema, diga-se a verdade, é uma coisa que lhes fica bem. (...) Para cada mulher, a população feminina é um exército de rivais. Não se temem nem coibem, por muito formidável que pareça a adversária. A mulher mais fraquinha, mais tolinha e feinha despreza a mais forte, inteligente e bonita, com a maior das facilidades. Não há experiência mais arrepiante do que ver uma mulher a medir outra com os olhos.(...) As mulheres usam os olhos não tanto para olhar para as outras, mas para revistá-las. Revistam-se e depois catalogam-se.(...) As mulheres, quando arranjam um namorado, dizem-lhe sempre que não têm amigas verdadeiras, e que preferem a companhia das homens à das mulheres. E só quando a coisa corre mal que as amigas (que não havia) aparecem milagrosamente para ajudar à autópsia.(...) A rivalidade entre mulheres é um jogo permanente em que os homens são peças temporárias. A maravilha é conseguirem dar aos homens a ideia de que são eles os jogadores, de que são eles os caçadores. O que as mulheres fazem é conceder licenças de caça aos homens sempre que querem caçá-los. (...) É por estas e por outras que as mulheres portuguesas não acham mal roubar os namorados umas às outras: não acham que os homens possam ser alguém.(...) No fundo os homens são vistos como uns tontos desgraçados, brutos mas puros, que existem para que as mulheres possam medir forças entre elas.(...)
O problema dos homens são as mulheres. E o problema das mulheres também. Concretamente, são as outras mulheres o problema das mulheres.(...) Por outras palavras, as mulheres são sempre o problema. E o problema, diga-se a verdade, é uma coisa que lhes fica bem. (...) Para cada mulher, a população feminina é um exército de rivais. Não se temem nem coibem, por muito formidável que pareça a adversária. A mulher mais fraquinha, mais tolinha e feinha despreza a mais forte, inteligente e bonita, com a maior das facilidades. Não há experiência mais arrepiante do que ver uma mulher a medir outra com os olhos.(...) As mulheres usam os olhos não tanto para olhar para as outras, mas para revistá-las. Revistam-se e depois catalogam-se.(...) As mulheres, quando arranjam um namorado, dizem-lhe sempre que não têm amigas verdadeiras, e que preferem a companhia das homens à das mulheres. E só quando a coisa corre mal que as amigas (que não havia) aparecem milagrosamente para ajudar à autópsia.(...) A rivalidade entre mulheres é um jogo permanente em que os homens são peças temporárias. A maravilha é conseguirem dar aos homens a ideia de que são eles os jogadores, de que são eles os caçadores. O que as mulheres fazem é conceder licenças de caça aos homens sempre que querem caçá-los. (...) É por estas e por outras que as mulheres portuguesas não acham mal roubar os namorados umas às outras: não acham que os homens possam ser alguém.(...) No fundo os homens são vistos como uns tontos desgraçados, brutos mas puros, que existem para que as mulheres possam medir forças entre elas.(...)
23 Setembro, 2005
Reduz as necessidades se queres passar bem...
Como no outro dia ouvi, por muito dinheiro que se tenha, parece que falta sempre mais um pouco para se ser feliz. Somos de facto, por natureza, uns eternos insatisfeitos e, também, infelizes. Talvez por isso que quando conseguimos uma coisa que queremos o sentimento de felicidade seja tão efémero. Temos sempre a ilusão de que o que não temos é que nos fará feliz. Mas, quase sempre, uma necessidade ocupa mais o coração, durante mais tempo, que uma satisfação. Por isso mesmo é que valorizamos mais o que não temos do que o que de facto temos. O nosso problema não está propriamente em ter o que não temos mas sim, em desejar o que não temos. Quem não quer, nada sofre. Até porque, ter o que se quis não é assim tão bom.
21 Setembro, 2005
Anormalidades
Hoje, na sala de professores, uma professora falava sobre um aluno que era assim meio para o indisciplinado. Às páginas das tantas uma outra professora questiona:
- É um rapaz de cor, não é?
Resposta pronta da professora que falava sobre o aluno:
- Não, é um aluno normal.
- É um rapaz de cor, não é?
Resposta pronta da professora que falava sobre o aluno:
- Não, é um aluno normal.
20 Setembro, 2005
Coisas da Escola
Para muitos, a relação entre professor e aluno deve estar assente na amizade. Assim, são colegas, camaradas, amigos e tudo o que é mais fácil encontrar no mundo. O que não são, é o que é mais raro, difícil e ingrato: educadores, disciplinadores, modelos e guias. Não quero se porreiro, nem faço questão que os alunos gostem de mim. Basta que me respeitem e que aprendam. E, já agora, que me deixem jogar à bola com eles. Claro.
19 Setembro, 2005
Expectativas
Hoje terei o primeiro dia de aulas. E o primeiro dia de aulas é sempre especial e difícil. Desta vez, imagino mil cenários diferentes, porque, sinceramente, não faço a mínima ideia do que vou encontrar. Claro que se disser que a escola fica na Bela Vista, em Setúbal, pode-se ter uma ideia... Mas, quase aposto que me vou surpreender. Ou então não.
18 Setembro, 2005
Pelo sim, pelo não
Porque raio é que a maior parte das pessoas se diz católiconãopraticante (assim mesmo, como se de uma só palavra se tratasse)? Não acredito que seja apenas por tradição, cultura ou educação. Ou, simplesmente, por ser mais fácil. Tem de haver uma razão de fundo. Ora, quando alguém se diz católiconãopraticante, o que realmente quer dizer é que, na teoria, até acredita em Deus, mas que, na prática, finge que Ele não existe. O que, no dia a dia, diga-se, dá imenso jeito. De facto, quase todos acreditam que Deus é capaz de ser verdade, mas que, ao mesmo tempo, talvez isso não seja assim tão provável. E é precisamente aqui, no meio desta contradição e dúvida, que está a lógica da coisa. A lógica de pensar que, pelo sim, pelo não o melhor é não arriscar. Que, pelo sim, pelo não mais vale ser católiconãopraticante do que não ser nada. Porque, afinal, se Deus não existir não se perde nada. E caso exista, garante-se uma entrada directa no reino dos céus (porque, como sabemos, Deus protege sempre os seus). É essa a razão de fundo. Por isso mesmo é que se faz questão de baptizar as criancinhas na igreja católica, mesmo quando os pais até nem acreditam muito, ou nada, em Deus. Afinal, pelo sim, pelo não mais vale não arriscar. Ora bem.
15 Setembro, 2005
Só
Por estes dias tenho-me sentido só. Esteja com quem estiver. Talvez a culpa até seja minha, pois, acredito que, só se sente só quem não consegue estar consigo mesmo. E se uma pessoa não se suporta a si mesmo, como não há-de ser insuportável para os outros? Não sei se é esse o meu caso. Porém, reconheço que ando desleixado e desinteressado de mim mesmo. Quem me dera que a minha própria companhia fosse tão boa que forçasse as outras pessoas a competir com ela. Talvez assim as relações fossem mais verdadeiras. E em vez de todos se darem com todos, talvez, todos dariam um pouco mais de si aos outros. Ou não será verdade que só as pessoas que têm o cuidado de estimar as suas próprias companhias, passando tempo com elas, são capazes de ser boa companhia para os outros?
24 Junho, 2005
O que move o homem?
Numa tarde destas juntei-me com uns colegas para uma grelhada. Às páginas das tantas, a conversa descambou para a filosofia e para a questão do que move o homem e o mundo. E, independentemente do que se discutiu, foi interessante notar que cada um tem uma perspectiva própria desta questão. E haviam opiniões para todos os gostos. Alguns, mais freudianos, defendiam que eram as mulheres e, em última análise, o sexo. Outros, mais hedonistas, diziam que era apenas a busca do prazer, nas suas diferentes formas, como vislumbre da felicidade. Havia também alguns, mais liberais, que argumentavam que era o dinheiro ou, de uma forma mais geral, o poder. E outros, mais religiosos, que defendiam que era a vaidade. Mas, apesar da diversidade de ideias, a verdade é que não se chegou a conclusão nenhuma. Nem é isso que me interessa. Pois, tenho para mim, que a questão é demasiado qualquer coisa para concluir o que quer que seja. O mais certo é nem haver uma lei geral. Porém, o que é certo, é que as pessoas, ao contrário dos animais, têm motivações que vão para além das necessidades básicas de sobrevivência. E, nesse sentido, torna-se muito interessante ouvir as opiniões dos amigos quanto a este assunto. Pois é aí que as respostas são quase sempre reveladoras das suas personalidades. Dos seus interesses. Das suas motivações.
22 Junho, 2005
Ainda sobre o arrastão...
Alguns amigos, ainda meio afectados pela psicose gerada pelo, suposto, “arrastão”, têm-me perguntado sobre a criminalidade aqui em Cabo Verde, como que São Nicolau fosse uma espécie de Cova da Moura e a insegurança, os assaltos e a violência fossem situações normais e frequentes. De facto, e infelizmente, existe uma ideia enraizada, na maior parte dos portugueses, que os Cabo-verdianos (como os ciganos, os guineenses e outros) estão fatalmente predestinados para o crime. Pura ignorância. Só para que conste, desde que estou em São Nicolau, nunca ouvi falar de um assalto ou de qualquer acto de violência que por aqui tenha ocorrido. E notem que só temos 6 polícias para a ilha inteira.
Só pessoas muito ignorantes é que podem associar os recentes actos de criminalidade a razões de cor ou nacionalidade. Se existe uma forte associação da pequena criminalidade às comunidades de origem cabo-verdianas, ou outras, tal se deve a um problema puro e duro de integração. Deles e, especialmente, nosso. De facto, em vez de os aceitarmos como portugueses que são, preferimos remete-los para a ilegalidade e os acantonar em autênticos ghuetos, onde, com as maiores taxas de desemprego, consumo de droga, analfabetismo e miséria, só se sobrevive dignamente se se enveredar pelo mundo do crime ou algo semelhante. Por isso, não nos devemos espantar nem surpreender com o que tem vindo a acontecer. Afinal fomos nós, orgulhosamente portugueses*, que criámos a bomba relógio que ao que parece, pelos últimos acontecimentos, está prestes a explodir.
*Já agora aconselho a leitura deste post, no Acidental, que de uma forma muito bem-humorada nos remete, os orgulhosamente portugueses, para as nossas mais fiéis origens.
Só pessoas muito ignorantes é que podem associar os recentes actos de criminalidade a razões de cor ou nacionalidade. Se existe uma forte associação da pequena criminalidade às comunidades de origem cabo-verdianas, ou outras, tal se deve a um problema puro e duro de integração. Deles e, especialmente, nosso. De facto, em vez de os aceitarmos como portugueses que são, preferimos remete-los para a ilegalidade e os acantonar em autênticos ghuetos, onde, com as maiores taxas de desemprego, consumo de droga, analfabetismo e miséria, só se sobrevive dignamente se se enveredar pelo mundo do crime ou algo semelhante. Por isso, não nos devemos espantar nem surpreender com o que tem vindo a acontecer. Afinal fomos nós, orgulhosamente portugueses*, que criámos a bomba relógio que ao que parece, pelos últimos acontecimentos, está prestes a explodir.
*Já agora aconselho a leitura deste post, no Acidental, que de uma forma muito bem-humorada nos remete, os orgulhosamente portugueses, para as nossas mais fiéis origens.
10 Junho, 2005
Álvaro Cunhal
Aos 91 anos, Álvaro Cunhal, o pai do comunismo em Portugal, morreu. Personagem incontornável da vida política portuguesa, Álvaro Cunhal sempre cultivou uma imagem de ser superior, imutável e misterioso. Foi talvez o político português que mais paixões e ódios arrebatou. Claro que, postumamente, como sempre, quase todos são unânimes em elogios. Uns dizem que foi de uma coerência ímpar. Outros, que foi herói na luta que fez pela conquista da democracia e liberdade em Portugal, e não sei mais o quê. Mas, sejamos claros. Álvaro Cunhal não foi coerente. Foi simplesmente pouco atento, para não dizer burro, em não perceber as mudanças radicais que, ao longo do tempo, foram acontecendo no mundo e nos países que eram o seu modelo político. Mais. Por muito que custe a alguns, a verdade é que Álvaro Cunhal nunca foi pela democracia e liberdade. Não eram esses os seus ideais. O seu único ideal era o comunismo. Tudo o resto eram meios para atingir o seu fim: A substituição da ditadura Salazarista de direita por uma ditadura comunista igualzinha à da antiga Albânia. Mas, note-se, tudo em prol dos trabalhadores e da classe operária. Claro.
09 Junho, 2005
Constatação
O meu maior problema nas aulas* é o chulé. Dos alunos. Note-se.
* Já agora, convém que se saiba que as aulas são dadas em salas pequenas, muito quentes e sem ventilação, com cerca de 40 alunos por turma, transpirados e, ainda por cima, calçados de chinelos ou sandálias.
* Já agora, convém que se saiba que as aulas são dadas em salas pequenas, muito quentes e sem ventilação, com cerca de 40 alunos por turma, transpirados e, ainda por cima, calçados de chinelos ou sandálias.
07 Junho, 2005
Não sei se isto faz sentido, mas...
Imagine se a paixão funcionasse ao contrário. Tudo começaria numa discussão. Seguir-se iam algumas traições e mentiras. Depois, alguns ciúmes e quem sabe algum interesse. Claro que, com o tempo, o interesse ia-se intensificando até ficar mais forte que nunca. Cada pequena coisa nos iria surpreender, como se fosse a primeira vez. A paixão tomaria conta de nós, aos poucos, de uma forma cada vez mais intensa e menos madura. Sempre em crescendo. Até que, por milagre, perderíamos da nossa consciência tal pessoa. Como se nunca a conhecêssemos.
06 Junho, 2005
Ainda o défice...
Nestes últimos dias muito se tem falado no défice e nas medidas muito chatas que o governo anunciou. Eu próprio já aqui disse qualquer coisa sobre isso. Porém, deixem-me voltar ao assunto, e em particular, à intenção do Governo de tornar públicas as declarações de rendimentos dos contribuintes. A ideia é simples. Tornar cada pessoa num informador fiscal da fraude do vizinho, conhecido ou amigo. Claro que para isto funcionar, será necessário que todos tenhamos um pouco de curiosidade, inveja, mesquinhez e vaidade. Mas isso não é problema, pois há muito que os nossos antepassados se encarregaram de colocar isso nos nossos genes.
Assim, não tenho dúvidas que muitos, por curiosidade, não deixarão de ir consultar os rendimentos dos amigos e vizinhos e de fazer dessas declarações conversas de supermercado e de maledicência. Claro que isso fará que alguns, por inveja e mesquinhez, denunciem o seu vizinho ou amigo. Ou, pelo menos, que alguns, por vaidade, passem a declarar mais qualquer coisa só para fazerem figura perante os vizinhos.
No entanto, parece-me que esta medida pode-se tormar contra producente. Ora todos sabemos que são poucos aqueles que, podendo, não fogem ao fisco. Desde que seja o estado, o desconhecido ou abstracto a lixar-se, não há culpa que nos faça sentir mal. Pelo contrário. Caso não o façamos ou é porque somos estúpidos ou ignorantes. Afinal, nós somos uns espertalhões, e o que seria trágico era se, podendo, não fugíssemos ao fisco. Está na nossa cultura. Assim, ou muito me engano ou então, as declarações fraudulentas, de acesso público, em vez de serem eventualmente denunciadas vão servir é como manuais de aprendizagem de fuga ao fisco. Até porque se outro ganha com isso porque não hei-de eu ganhar também? E desde que ganhemos todos, não há grande problema. Não é?
Assim, não tenho dúvidas que muitos, por curiosidade, não deixarão de ir consultar os rendimentos dos amigos e vizinhos e de fazer dessas declarações conversas de supermercado e de maledicência. Claro que isso fará que alguns, por inveja e mesquinhez, denunciem o seu vizinho ou amigo. Ou, pelo menos, que alguns, por vaidade, passem a declarar mais qualquer coisa só para fazerem figura perante os vizinhos.
No entanto, parece-me que esta medida pode-se tormar contra producente. Ora todos sabemos que são poucos aqueles que, podendo, não fogem ao fisco. Desde que seja o estado, o desconhecido ou abstracto a lixar-se, não há culpa que nos faça sentir mal. Pelo contrário. Caso não o façamos ou é porque somos estúpidos ou ignorantes. Afinal, nós somos uns espertalhões, e o que seria trágico era se, podendo, não fugíssemos ao fisco. Está na nossa cultura. Assim, ou muito me engano ou então, as declarações fraudulentas, de acesso público, em vez de serem eventualmente denunciadas vão servir é como manuais de aprendizagem de fuga ao fisco. Até porque se outro ganha com isso porque não hei-de eu ganhar também? E desde que ganhemos todos, não há grande problema. Não é?
02 Junho, 2005
Cúmulo da adaptação
Hoje dei conta do quanto estou adaptado a São Nicolau, a Cabo Verde, a África. Então não é que já consigo beber dois ou três golos de água, directamente da torneira, sem ficar com uma crise de diarreia?!
* Por outro lado, andar a beber água de garrafa, durante dois anos, de uma marca com o nome Penacova também não é lá muito animador... Ainda para mais a 1 euro o litro...
* Por outro lado, andar a beber água de garrafa, durante dois anos, de uma marca com o nome Penacova também não é lá muito animador... Ainda para mais a 1 euro o litro...
01 Junho, 2005
Ainda as crianças
Como todos os Dias Internacionais de Qualquer Coisa, Cabo Verde, viveu o Dia Mundial da Criança de uma maneira bastante efusiva e visível. Mas este dia foi bem especial. Tão especial que o governo, ontem, decretou o dia de hoje como feriado nacional, como, ao que parece, já era no tempo de Amílcar Cabral. Mas o que foi realmente bem especial foram as actividades que as crianças realizaram. Teatro, danças, desporto, poesia, música e actividades lúdicas, tudo foi vivido com uma intensidade impressionante. De facto, elas conseguem proporcionar momentos únicos, com uma vivacidade e alegria incomparáveis, convencendo-me, cada vez mais, que, apesar de todas as dificuldades, são imensamente felizes
27 Maio, 2005
Deus dá nozes a quem não tem dentes
Na sexta-feira à tarde parti um dos dentes da frente. À custa disso, passei o fim-de-semana praticamente fechado em casa, com vergonha que alguém me visse naquela triste figura. Pois, é que só hoje, pela tarde, é que consegui restaurar aquele maldito dente. Mas, a verdade é que podia ter sido bem pior, pois, até há bem pouco tempo atrás, o dentista só vinha a São Nicolau uma vez de dois em dois meses. O que vale é que agora temos uma dentista local, acabadinha de concluir o curso no Brasil. E que dentista… Arrisco mesmo a dizer que é do melhor que tenho visto por aí. E ainda por cima até percebe alguma coisa de dentes e coisas assim! Aliás, se eu soubesse que era assim, já tinha partido um dos dentes há muito tempo. Garanto-vos.
Feira de vaidades
Ao que parece, tiveram ontem início as Feiras do Livro de Lisboa e Porto. Apesar da admitir a utilidade e interesse dessas feiras, confesso que a mim me dizem muito pouco ou nada. De facto, parece-me que a maior parte das pessoas que vão lá, vai apenas numa de marcar presença, para parecer bem ou para parecer que até gosta de ler e que é culto. Eu cá, pelo menos, admito que quando vou lá, vou apenas para ver as montras e as gajas. E se comprar um livro, ou dois, acreditem que não é por ser mais barato ou qualquer coisa do género, mas sim, para poder fazer figura, com o saco da Feira do Livro, nos transportes públicos.
26 Maio, 2005
Livros e leituras
Aposto que já devem ter reparado que os meus índices de leitura não são nada famosos. De facto, leio pouco. Ou pelo menos, não leio tanto quanto devia. No máximo, excluindo os científicos, um livro por mês. Quanto muito. Actualmente, na minha mesa de cabeceira, tenho três livros: Os Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez; As Farpas, do Eça e o Apocalipse Nau, do Rui Zink. Porém, destes três, só estou a ler o último (por sinal, bem interessante). Os outros, abandonei-os há uns bons meses atrás. E só não os tiro daqui porque sempre vão impressionando as visitas e decorando o quarto.
A verdade é que não consigo ler só por ler. Por simples prazer. Tenho que gostar. E muito. O pior é que são poucos os livros de que gosto. Que me dão interesse. O que é uma pena, diga-se. Por exemplo, gostava imenso de ler, e perceber, os livros do António Lobo Antunes. Mas, confesso, que após tantas tentativas frustradas tive de desistir e contentar-me com umas crónicas. È demais para mim.
Além disso, tenho um problema grave de concentração. De facto, é frequente me perder, enquanto leio, em outros pensamentos bem longe do texto, ao ponto de não me lembrar de nada do que leio e de, repetidamente, ter que voltar atrás na leitura. No fundo, parece que ainda nem sequer aprendi bem a ler. E se isso é assim, muito se deve ao facto dos meus pais não me terem obrigado, enquanto criança, a ler e a fazer os respectivos resumos. Se o tivessem feito, talvez hoje tivesse níveis de concentração de leitura bem melhores, e até, quem sabe, uma credibilidade bem diferente, nem que fosse, por usar uns óculos fundo de garrafa.
A verdade é que não consigo ler só por ler. Por simples prazer. Tenho que gostar. E muito. O pior é que são poucos os livros de que gosto. Que me dão interesse. O que é uma pena, diga-se. Por exemplo, gostava imenso de ler, e perceber, os livros do António Lobo Antunes. Mas, confesso, que após tantas tentativas frustradas tive de desistir e contentar-me com umas crónicas. È demais para mim.
Além disso, tenho um problema grave de concentração. De facto, é frequente me perder, enquanto leio, em outros pensamentos bem longe do texto, ao ponto de não me lembrar de nada do que leio e de, repetidamente, ter que voltar atrás na leitura. No fundo, parece que ainda nem sequer aprendi bem a ler. E se isso é assim, muito se deve ao facto dos meus pais não me terem obrigado, enquanto criança, a ler e a fazer os respectivos resumos. Se o tivessem feito, talvez hoje tivesse níveis de concentração de leitura bem melhores, e até, quem sabe, uma credibilidade bem diferente, nem que fosse, por usar uns óculos fundo de garrafa.
21 Maio, 2005
Semana fértil
Esta semana soube-se que, na escola, quatro alunas estão grávidas. É o que se chama por aqui uma semana fértil. Aliás, tem sido um ano fértil. Como todos os anos, eu acho. Mas pior do que estes números é saber que as mães têm entre os 15 e os 17 anos e que pelo menos um dos pais é aluno do 7º ano e tem catorze anos. Aliás, ainda esta semana, por causa de uma destas situações, participei numa cachupada dos anjos* em favor de uma destas meninas. Apesar desta situação ser encarada com preocupação por parte das famílias, a verdade é que, por estas bandas, ninguém fica chocado com estas situações. Muito menos se sente algum tipo de descriminação ou gozo pelos alunos em causa. É a vida, diz-se. Infelizmente, e segundo o regulamento da escola, as alunas serão obrigadas a abandonar a escola. De facto, o regulamento é muito rigoroso, e talvez até injusto, nestes aspectos. Porém, e apesar de tudo, é uma das formas que a escola tem de controlar, punir, algumas situações menos desejáveis. Neste sentido, por exemplo, não é permitido que rapazes e raparigas troquem carinhos, abraços, beijos ou quaisquer outros tipos de afectos físicos, no recinto escolar. E a verdade é que os alunos, regra geral, cumprem. Até aqueles que são namorados. Mas o fruto proibido é sempre o mais apetecido, não é verdade?
* Cachupada dos anjos é uma tradição local que consiste em oferecer uma cachupa guisada (comida tradicional cabo –verdiana à base de milho) a todos os amigos, vizinhos e crianças de forma a se pedir protecção para os problemas que se avizinham. De facto, tirando a superstição associada, +e uma tradição bem bonita e bem elucidativa do espírito comunitário e de entreajuda que existe em São Nicolau.
* Cachupada dos anjos é uma tradição local que consiste em oferecer uma cachupa guisada (comida tradicional cabo –verdiana à base de milho) a todos os amigos, vizinhos e crianças de forma a se pedir protecção para os problemas que se avizinham. De facto, tirando a superstição associada, +e uma tradição bem bonita e bem elucidativa do espírito comunitário e de entreajuda que existe em São Nicolau.
20 Maio, 2005
O bom filho à casa torna
Acabo de decidir voltar para Portugal. Em definitivo. Termina assim a minha aventura em Cabo Verde. Pelo menos por agora. De facto, tal como os Xutos dizem, a vida é sempre a perder. E eu, sinto que vou perder com este regresso. No entanto é chegada a hora. A hora de voltar à vidinha comum de que já me esqueci. Ao stress. À azáfama. Às coisas. E, também, à família. Como muitas vezes aqui referi, sinto-me muito bem em São Nicolau. Fui, sou, muito bem tratado. Neste dois anos, não tenho uma razão sequer de queixa. Um sequer problema. Um sequer mal entendido. Por todos sou respeitado e acarinhado. Por todos sinto uma enorme afectividade. Não sei se me tornei uma pessoa melhor. Talvez, apenas, um pouco diferente. Talvez, as coisas tenham deixado de ter demasiada importância para mim. Talvez o tempo seja agora menos importante. Talvez me tenha tornado mais solidário. Mais corajoso. Mais adulto. Mais preguiçoso. Mais velho. Sei lá.
Mas se isto é tão bom porque me vou embora? A resposta não é fácil, nem sei se a entenderão. A verdade é que, apesar de tudo, existe em mim a convicção que estou aqui temporariamente. Que um dia hei-de voltar às minhas raízes. E isso, quer se queira quer não, acaba por condicionar, pois faz com que não me comprometa com nada, e que vá adiando o meu futuro para o dia que hei-de voltar. Talvez seja por isso que isto é tão bom. Talvez seja por isso que eu vivo, o dia a dia, feliz, despreocupado e sem muitos problemas. Mas, no entanto, sempre com a sensação de estar a perder qualquer coisa, noutro lado que não aqui. A adiar o futuro. A desprezar o presente. Confesso, porém, que estive muito na dúvida em voltar. Se não tivesse família talvez ficasse aqui. Definitivamente. Mas a família ainda é mais importante do que eu. A sua felicidade continua a ser a minha felicidade. E por isso, como poderia recusar os insistentes pedidos da minha mãe para voltar?
Mas se isto é tão bom porque me vou embora? A resposta não é fácil, nem sei se a entenderão. A verdade é que, apesar de tudo, existe em mim a convicção que estou aqui temporariamente. Que um dia hei-de voltar às minhas raízes. E isso, quer se queira quer não, acaba por condicionar, pois faz com que não me comprometa com nada, e que vá adiando o meu futuro para o dia que hei-de voltar. Talvez seja por isso que isto é tão bom. Talvez seja por isso que eu vivo, o dia a dia, feliz, despreocupado e sem muitos problemas. Mas, no entanto, sempre com a sensação de estar a perder qualquer coisa, noutro lado que não aqui. A adiar o futuro. A desprezar o presente. Confesso, porém, que estive muito na dúvida em voltar. Se não tivesse família talvez ficasse aqui. Definitivamente. Mas a família ainda é mais importante do que eu. A sua felicidade continua a ser a minha felicidade. E por isso, como poderia recusar os insistentes pedidos da minha mãe para voltar?
06 Maio, 2005
Pequenos prazeres de fim de semana
O bom do sábado é que posso ficar na cama até às 10 horas, ouvir um CD do Palma (CD2/Acto Contínuo/1982), e ainda assim poder comer um prato de Nestum sem medo de perder o apetite para o almoço. O dia tem tudo para correr bem.
04 Maio, 2005
O Passageiro Português
Nestes últimos anos, tenho tido oportunidade de viajar por diversos locais e em diferentes companhias aéreas. Desta forma, já deu para perceber que os passageiros aéreos portugueses são, sem qualquer espécie de dúvida ou apelo, os piores co-passageiros do mundo. De facto, os passageiros portugueses sabem, como nenhum outro povo, embaraçar profundamente o compatriota consciente. Há certas características que automaticamente os destinguem. Mal as nádegas estabelecem contacto com o assento, já está de indicador em riste, empurrando o botão de chamada da hospedeira. Ele quer almofadas, mantas, pantufinhas de longo alcance, copos de água gelada, jornais estrangeiros em língua que desconhece completamente, e, mais que tudo, a total atenção de quem está lá só para servir, a ele, senhor passageiro. São os “reizinhos do ar”. Na terra, são seres tão insignificantes como os outros. Mas deixem levantar o trem de aterragem e vejam-nos transformarem-se em Suas Majestades. Passam cinco minutos a usufruir do jacto de ventilação, dirigindo-o às diversas partes do corpo, para grande irritação do indivíduo (estrangeiro) que está ao lado. Depois, quando já conseguiram moer a rosca ao ponto de já não ser possível parar a baforada constante de ar podre, chamam a hospedeira e exigem ser colocados noutro lugar.
Além de estarem sempre mas sempre de pé nos corredores, confundido-se natural e alegremente com a bicha para as retretes, a qualidade mais notória do passageiro português é a obstinada exigência de desfrutar de todas, mas todas as vantagens e regalias que oferece a viagem. O passageiro português raciocina “Isto vem incluído no preço do bilhete – e raios me partam se eu não hei-de comer aquilo que eu paguei cá com o meu dinheirinho.” E assim, bebem tudo o que há de grátis para beber e, independentemente de gostos e apetites, devoram integralmente o almocinho de plástico que lhes é servido, roendo religiosamente a azeitona e a fatia moribunda de ananás, sem perder uma única passagem de cafeteira.
Mal o avião aterra, levantam-se e ficam horas, dobrados, de pé, à espera que chegue o autocarro para se abrirem as escotilhas. Atropelam-se no corredor para serem os primeiros a sair, apesar de saberem que ainda durará um bom bocado antes da chegada da bagagem. Quando lhe aparecem as malas no carrocel do aeroporto, gritam “Olha a minha! Olha a minha!”, como crianças a presenciar um acto de magia.
Enfim, é por estas e por outras que, na altura de se preencher o cartão de desembarque, quando revelamos publicamente a nossa envergonhada nacionalidade, é avassalador o desejo de escrever “filandês” , “turco” ou “iraquiano que não tem nada a ver com estes gajos”.
* Post inspirado/adaptado de uma crónica, lida numa aula em que estava a dar teste, do livro " A Causa das Coisas", de Miguel Esteves Cardoso
Além de estarem sempre mas sempre de pé nos corredores, confundido-se natural e alegremente com a bicha para as retretes, a qualidade mais notória do passageiro português é a obstinada exigência de desfrutar de todas, mas todas as vantagens e regalias que oferece a viagem. O passageiro português raciocina “Isto vem incluído no preço do bilhete – e raios me partam se eu não hei-de comer aquilo que eu paguei cá com o meu dinheirinho.” E assim, bebem tudo o que há de grátis para beber e, independentemente de gostos e apetites, devoram integralmente o almocinho de plástico que lhes é servido, roendo religiosamente a azeitona e a fatia moribunda de ananás, sem perder uma única passagem de cafeteira.
Mal o avião aterra, levantam-se e ficam horas, dobrados, de pé, à espera que chegue o autocarro para se abrirem as escotilhas. Atropelam-se no corredor para serem os primeiros a sair, apesar de saberem que ainda durará um bom bocado antes da chegada da bagagem. Quando lhe aparecem as malas no carrocel do aeroporto, gritam “Olha a minha! Olha a minha!”, como crianças a presenciar um acto de magia.
Enfim, é por estas e por outras que, na altura de se preencher o cartão de desembarque, quando revelamos publicamente a nossa envergonhada nacionalidade, é avassalador o desejo de escrever “filandês” , “turco” ou “iraquiano que não tem nada a ver com estes gajos”.
* Post inspirado/adaptado de uma crónica, lida numa aula em que estava a dar teste, do livro " A Causa das Coisas", de Miguel Esteves Cardoso
Professorices
É nesta altura de corrigir testes que eu invejo os professores que ainda usam aquele método clássico de os atirar ao ar...
03 Maio, 2005
Desabafo para consumo interno
Como devem imaginar, ao estar a trabalhar fora do meu país, deparo-me com muitas situações merecedoras de um comentário. Porém, sobre Cabo Verde, e por razões contratuais e de respeito pelo país que represento, tenho evitado fazer comentários depreciativos ou de índole político. Tenho também evitado falar sobre os problemas que os professres cooperantes que aqui trabalham enfrentam. Pois, não se pense que tudo é um mar de rosas. A verdade é que a nossa situação profissional, e o próprio Projecto de Cooperação, está muito aquém do desejável. Talvez por isso, fosse normal que os mais interessados nesta situação, ou seja os cooperantes, fizessem algo para a alterar. Mas é precisamente o contrário que acontece. Coisa típica de português, eu acho. Todos têm problemas. Todos têm opiniões. Todos dizem mal. Todos acham que sim. Mas depois, todos são inconsequentes e incapazes de se unirem em redor de um objectivo comum. Muitos dizem-me, que não vale a pena e que já não estão para se chatear. No fundo, acreditam é que haverá sempre alguém a fazer o nosso papel, a lutar pelos nossos direitos. E isso incomoda-me. Aliás, confesso que este sentimento de resignação e desinteresse, mais do que me incomodar, já me começa a chatear. Parece que estão todos conformados com este fatalismo que julgam traçado. Porém, eu ainda acredito que estamos a tempo de fazer algo. Nem que seja apenas a nossa parte. Nem que seja só pelos nossos interesses pessoais...
02 Maio, 2005
Situações embaraçosas
Na escola, tenho uma colega que é estrábica. E como se deve calcular, por muito que se evite, acabamos sempre por cair numa situação embaraçosa. Hoje, pela manhã, ao encontrá-la na rua assim meio ensonada, tivemos o seguinte diálogo:
- Então Manuela que cara é essa?
- Estou com sono.
- Eu logo vi. Com esses olhos não enganas ninguém.
Pois.
- Então Manuela que cara é essa?
- Estou com sono.
- Eu logo vi. Com esses olhos não enganas ninguém.
Pois.
29 Abril, 2005
Pretensões
Ando empenhado em aumentar o meu peso em mais 8 quilos. Um amigo, ao saber desta minha pretensão, disse-me que eu devia inscrever-me no ginásio aqui da vila, para aumentar a massa muscular. Assim, há cerca de 3 meses atrás, inscrevi-me. A verdade é que ainda não ganhei nenhum quilo. Parece que é preciso ir lá.
26 Abril, 2005
A felicidade não está no lugar onde estamos e muito menos naquilo que temos!
Não tenho carro nem bicicleta. Não tenho sala de jantar nem casa de banho privada. Não tenho telemóvel nem mensagens escritas. Não tenho electricidade todos os dias nem água potável na torneira. Não tenho uma TV grande nem um aparelhagem de som. Não tenho máquina de lavar roupa nem de lavar loiça. Não tenho banheira nem piscina. Não tenho cinema nem teatro. Não tenho cão nem gato. Não tenho roupa nova nem ténis de marca. Não tenho playstation nem jogos no computador. Não tenho dinheiro a render juros nem acções. Não tenho centros comerciais nem parques de diversões. Não tenho TV cabo nem rádio. Não tenho Mac Donald’s nem Pizza Hut. Não tenho jornais nem revistas. Não tenho ar condicionado nem ventoínha. Não tenho café nem gelados.
E no entanto, tenho tido os melhores tempos dos últimos anos...
E no entanto, tenho tido os melhores tempos dos últimos anos...
25 Abril, 2005
Exemplos educativos III
Durante o dia de hoje e o dia de amanhã estarei numa formação para professores. O tema do primeiro dia foi sobre a indisciplina na sala de aula. Como já referi muitas vezes neste blogue, a indisciplina por aqui, comparada com a que me deparei em Portugal, é praticamente inexistente, resumindo-se a comportamentos perturbadores próprios e naturais das crianças. Aliás, hoje constatei que os professores foram mais indisciplinados na formação do que os próprios alunos o são nas aulas. De facto, é impressionante como facilmente caímos em comportamentos que nós próprios criticamos e censuramos aos nossos alunos. Mesmo agora, e a título de exemplo, ao folhear o caderno que levei para a formação, reparei que, em vez de sínteses e comentários do que foi apresentado, tinha o caderno cheio de desenhos de borboletas, casas, animais, bolinhas e de riscos que nem eu sei explicar. Agora imagine-se o que é uma criança, cheia de vontade de brincar, saltar, correr, gritar, ter que suportar 5 aulas por dia, cada uma mais chata e menos interessante que a outra, numa sala de aula insuportavelmente quente e sobrelotada?!? Haja paciência.
22 Abril, 2005
No que é que estás a pensar?
Hoje, num filme antigo que passou na TV, uma mulher vira-se para o marido e pergunta: “No que estás a pensar amor?” Ao que o homem, muito carinhosamente, responde: “Oh querida, se eu quisesse que você soubesse, eu estaria a falar e não a pensar, não acha?”. De facto, a pergunta “no que estás a pensar?” é recorrente. Especialmente, se for feita pela nossa mulher, namorada ou seja lá o que for. Muitas vezes, como a resposta “em nada!” não satisfaz, temos que recorrer a uma resposta padronizada. Qualquer coisa como isto: “Desculpa estar pensativo, querida. A verdade é que estava apenas reflectindo em como tu és maravilhosa, carinhosa, prestativa, inteligente e bonita, e como eu sou um sortudo em te ter encontrado”. Obviamente que, na maior parte das vezes, esta resposta nada tem que ver com o que nós estamos a pensar na realidade. De facto, ou muito me engano, ou se não estiver a pensar no jogo que o Benfica não ganhou por culpa do árbitro, ou no carro novo do vizinho, ou naquela mulher bonita com quem se cruzou no elevador, ou no como a sua mulher está gorda, o mais certo é estar a pensar na desculpa que vai dar à sua mulher para ir beber um copo sozinho com os seus amigos e assim não ter que ouvir ninguém fazer tantas perguntas!
21 Abril, 2005
Vidas reais
Na escola, o intervalo grande, na sala de professores, é sempre muito animado. Especialmente quando os professores partilham as estórias que acontecem na sala de aula. Desta vez, a estória aconteceu numa aula, de inglês do 7º ano, de uma Peace Corp americana. Contava ela que pediu a um aluno para ir ao quadro completar umas frases de um diálogo. Mas que o aluno se recusou em ir. O que para ela foi uma surpresa, pois tratava-se de um aluno bastante participativo. A verdade é que ela insistia e o aluno recusava. Até que, depois de ameaçá-lo em colocar-lhe uma falta disciplinar, ele anuiu em ir. Quando, finalmente, o aluno se dirigia para o quadro, reparou que ele levava o caderno nas mãos. Como o exercício era para resolver sem caderno, a professora pediu-lhe para lhe entregar o caderno. Mais uma vez, o aluno recusou em atender ao pedido da professora. Chegando mesmo a fazer birra. O que, segundo a professora, se revelava muito estranho, pois o aluno não era de ter estes comportamentos. O facto é que, nem por nada, queria deixar o caderno, que rigidamente segurava sobre a cintura. Até que, depois de novamente ameaçá-lo em colocar-lhe uma falta disciplinar, o aluno lá, a muito custo, deu o caderno à professora. E foi aí que toda a gente compreendeu o comportamento estranho do rapaz. Pois, no preciso momento em que dá o caderno à professora, todos reparam que afinal o que rapaz tinha, não era medo de não saber fazer o exercício ou algo do género, mas sim, segundo as palavras da professora, uma enorme erecção. Que aulas excitantes, hei!
20 Abril, 2005
Habemus Papam
Quem costuma passar por aqui, sabe que tenho convicções protestantes*. Por isso mesmo, esta euforia à volta do novo papa não me entusiasma. Aliás, esta euforia toda, primeiro com a morte do papa e agora com esta eleição, tem sido, na minha opinião, um autêntico exagero, tornando-se assim numa enorme campanha publicitária, quiçá, a maior que a igreja católica teve em todos os tempos. Talvez por isso, não seja inocente o facto de o novo papa ter 78 anos. Afinal se esta história se repetir daqui a uns 6 ou 7 anos não será assim tão mau...*já agora, de forma a fazer uma breve destrinça entre protestantismo e catolicismo, recordo o teólogo Karl Barth, protestante, que, de uma forma muito sucinta, disse, que a diferença entre o Catolicismo e o Protestantismo se resumia apenas à conjunção e. O Protestantismo diz: "Jesus Cristo"; o Catolicismo acrescenta: "e Maria". O Protestantismo afirma: "a Bíblia"; o Catolicismo junta: "e a Tradição". O Protestantismo declara: "a fé"; o Catolicismo diz: "e as obras".
17 Abril, 2005
Casa da Música
Finalmente a Casa da Música foi inaugurada. Apesar de estar a alguns milhares de quilómetros de distância, confesso que fico sempre orgulhoso quando em Portugal se faz alguma coisa acima da média. Parece-me ser o caso, pois, segundo dizem, a Casa da Música é uma das salas com melhor acústica do mundo. Talvez seja por isso que as críticas do conceituado Rui Veloso têm sido tão ferozes. A sala realça demais a sua voz.
12 Abril, 2005
Há dias assim
Hoje tive saudades dos meus pais. Tive saudades dos seus conselhos. Tive saudades de morder as orelhas da minha mãe. Tive saudades de fazer cócegas no meu pai. Tive saudades de ouvir a minha mãe a dizer-me que tenho de ser humilde. Tive saudades de andar à procura das bananas escondidas entre panelas. Tive saudades de ver, ás escondidas, os filmes com bolinha. Tive saudades de ouvir a minha mãe dizer-me para cortar o cabelo. Tive saudades de jogar à bisca dos nove com o meu pai. Tive saudades de saltar pela janela para ir brincar com os meus amigos de noite. Tive saudades de ouvir o meu pai a falar na igreja. Tive saudades da minha mãe me dar quinhentos paus por eu lavar a loiça. Tive saudades das histórias que o meu pai conta de quando ele era novo. Tive saudades das perguntas da minha mãe acerca das namoradas. Tive saudades de me acordarem quando eu mais sono tinha. Tive saudades dos avisos da minha mãe por causa das más companhias. Tive saudades do meu pai colocar comida no meu prato mesmo contra a minha vontade. Tive saudades da minha mãe se zangar por eu chegar tarde. Tive saudades do meu pai a desligar-me o esquentador por eu demorar muito no banho. Tive saudades dos seus sorrisos. Tive saudades de quando não tinha saudades. Enfim... tenho saudades deles.
11 Abril, 2005
Dúvidas existenciais III
Até à páscoa passada vivia com uma dúvida existencial, que julgo ser a de muitos. Porque raio é que os símbolos da páscoa são o coelhinho e os ovos coloridos? Será que, noutros tempos, os coelhinhos punham ovos? Bem, apesar de esta explicação vir fora de época, com a ajuda do google, vamos lá esclarecer isto de uma vez por todas.
Comecemos pelo ovo. Nas religiões orientais, na mitologia grega, nas tradições populares, o ovo sempre teve significado de principio de vida. O ovo aparentemente morto contém uma vida que surge repentinamente, acreditando-se por isto, que ele seja o símbolo da páscoa da ressurreição. Outro facto é que depois da quaresma e da semana santa, comer ovos era um método conveniente e nutritivo para a preparação da páscoa. Embora haja divergência sobre a origem dos ovos da páscoa sabe-se que, para alguns, os ovos enfeitados era uma tradição na Idade Média. Séculos antes, porém, os chineses já costumavam colorir ovos que eram distribuídos aos amigos na Festa da Primavera, como lembrança da continua renovação da vida. Mais tarde, no século XVIII, e para completar a história, a Igreja Católica adoptou oficialmente o ovo como símbolo da ressurreição de Cristo.
Quanto ao coelhinho a explicação é um pouco mais rebuscada. A tradição do coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães em meados de 1700. Conta-se que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos. Existem ainda outras explicações, especialmente a religiosa, que tem que ver com o facto de os coelhos se reproduzirem com extrema facilidade e em grande quantidade, vindo daí a identificação com uma vida abundante, um processo de restauração, um ciclo que se renova todos os anos.
Comecemos pelo ovo. Nas religiões orientais, na mitologia grega, nas tradições populares, o ovo sempre teve significado de principio de vida. O ovo aparentemente morto contém uma vida que surge repentinamente, acreditando-se por isto, que ele seja o símbolo da páscoa da ressurreição. Outro facto é que depois da quaresma e da semana santa, comer ovos era um método conveniente e nutritivo para a preparação da páscoa. Embora haja divergência sobre a origem dos ovos da páscoa sabe-se que, para alguns, os ovos enfeitados era uma tradição na Idade Média. Séculos antes, porém, os chineses já costumavam colorir ovos que eram distribuídos aos amigos na Festa da Primavera, como lembrança da continua renovação da vida. Mais tarde, no século XVIII, e para completar a história, a Igreja Católica adoptou oficialmente o ovo como símbolo da ressurreição de Cristo.
Quanto ao coelhinho a explicação é um pouco mais rebuscada. A tradição do coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães em meados de 1700. Conta-se que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos. Existem ainda outras explicações, especialmente a religiosa, que tem que ver com o facto de os coelhos se reproduzirem com extrema facilidade e em grande quantidade, vindo daí a identificação com uma vida abundante, um processo de restauração, um ciclo que se renova todos os anos.
06 Abril, 2005
Pimenta no olho do vizinho é refresco
Este governo anda muito discreto. Porém, tem dado alguns sinais quanto às políticas que aí vêm. Primeiro, com a história da venda de medicamentos fora das farmácias. Depois com a redução das férias judiciais para apenas um mês. E por último, a proposta de os professores começarem a ter que preencher os “furos” nas aulas dos alunos. Ora ninguém pode negar que estes sinais têm sido corajosos, pois vão contra interesses corporativos instalados na nossa sociedade. Talvez sejam o impulso necessário às reformas que o país tanto espera e necessita. Por isso, não se compreende as reacções dos farmacêuticos e dos juizes. Até parece que, só porque mexeram com os seus interesses, que já não querem as benditas reformas. As únicas reacções que me parecem justas, curiosamente na parte que toca com os meus interesses, são a dos sindicatos dos professores. De facto, essa história de os professores terem que preencher os “furos” dos seus colegas parece-me um pouco despropositado. Era o que faltava um gajo ter que andar a substituir um colega só para os meninos não ficarem sem nada para fazer. Pior, era o que faltava alguém ter que me substituir quando eu faltasse. Não me digam que agora um gajo já não pode ficar com dores de cabeça ou com indisposições físicas? Pensam que somos o quê? Por este andar, qualquer dia, ainda nos tiram os três meses de férias no verão ou reduzem aquelas, bem merecidas, semanas de descanso no Natal e na Páscoa. Já não bastou nos tirarem aqueles dois dias na semana do Carnaval? O que eu vos digo é que assim, mais vale continuar tudo na mesma. Que se lixem as reformas. Pelo menos aquelas que mexam comigo. Claro
05 Abril, 2005
Convém que Ele cresça e que eu diminua
Aproveitando a tolerância de ponto, concedida pelo governo Cabo-verdiano a propósito da morte de João Paulo II, decidi dar uma vista de olhos nas cerimónias fúnebres que preenchem as televisões há imensos dias. E, ao observar toda aquela ostentação, riqueza e idolatria, não pude deixar de pensar na morte singular de Jesus Cristo na cruz, e lembrar que “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (Actos 4.12).
Tu es Petrus et super hank Petram aedificabo Eclessiam meam!
Vai hoje a enterrar Karol Wojtyla. O Bispo de Roma. O Primaz da Itália. O Patriarca do Ocidente. O Vigário de Jesus Cristo.O Servo dos Servos de Deus. O Sumo-Pontífice da Igreja Universal. O Sucessor do Príncipe dos Apóstolos. O Soberano do Estado da Cidade do Vaticano. O Arcebispo e Metropolita da Província Romana. O Santo Padre. Ou seja, o Papa João Paulo II.Sobre a figura do chefe da Igreja Católica não tenho muito que referir. Até porque as minhas convicções Cristãs são em tudo contrárias ao que o Papa é e representa. De facto, se por um lado, Karol Wojtyla, me merece respeito, pelos seus esforços pela paz no mundo e pela sua preocupação com os mais desfavorecidos, por outro, e por muito chocante que a afirmação possa ser, levanta em mim sérias dúvidas quanto ao facto de ser verdadeiramente um “servo de Deus, quanto mais o substituto de Jesus Cristo na terra. A verdade é que até me arrepio com tamanha heresia.
04 Abril, 2005
Bute?
A vida de qualquer rapaz deve ser, entre outras coisas, correr atrás de raparigas. Hoje em dia, porém, os rapazes não correm atrás das raparigas- andam com elas. Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem, laconicamente, com o ar indiferente que marca o “cool” da contemporaneidade “Vamos curtir?”. Ou simplesmente “Bora aí?”. Nos últimos tempos, esta economia de expressão atingiu o cúmulo de se cingir a um breve e boçal “Bute?”. “Bute?” significa qualquer coisa como “Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete e framboesas”. Mas, como os rapazes só dizem “Bute?”, são as raparigas que têm de fazer todo o esforço de interpretação e de enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas “ Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?”. E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas – foi um “Bute?” terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado?
Adaptado de um texto de Miguel Esteves Cardoso, in causa das coisas
Adaptado de um texto de Miguel Esteves Cardoso, in causa das coisas
03 Abril, 2005
Reflexos da morte do Papa
Ao regressar de férias do Brasil tive ainda de passar 3 dias na ilha do Sal à espera de voo para São Nicolau. Desta forma, além de ter feito um pouco mais de praia, aproveitei a oportunidade para estar com alguns amigos que por ali tenho. Assim, no sábado à noite combinámos sair para bebermos um copo e trocarmos umas ideias. A noite de sábado no Sal é muito animada, ainda para mais cheia de turistas, e por isso a coisa prometia. Apesar da morte do Papa ser o tema do dia nunca pensámos que ele fosse o tema dominante. A verdade é que acabou por ser, pois, para descontentamento e espanto de muitas pessoas, a polícia fechou todos os bares e discotecas da vila. Ordens superiores, diziam (parece que fizeram o mesmo em Cuba). Confesso que ainda fiquei um pouco preocupado, pois pensei que na volta ainda me iriam obrigar a chorar... Mas afinal não chegaram a tanto. O objectivo era apenas fazer cumprir, mesmo que um pouco à força, o dia de luto sem música nem divertimento. Só não compreendo é porque também não fecharam as escolas?!? Assim sim, teriam sido uns dias de luto a sério!
21 Março, 2005
Porque é que os portugueses associam tanto o sexo à alimentação?
Uma das expressões mais curiosas, no nosso bom português, é aquela que se diz de uma pessoa que é atraente: “É boa como o milho!”. Mais que curiosa esta expressão é intrigante, pois o milho, temos de o reconhecer, não é assim tão bom como isso. Outra coisa irritante que se faz muito em Portugal é chamar “figos” às pessoas e esperar que as pessoas se sintam envaidecidas com isso. “Chamava-lhe um figo”, como se o figo fosse uma coisa fabulosa para estar assim a chamar às pessoas... Também só em português é que quase todos os nomes de frutos ou peixes são, por si só e por contexto, potenciais obscenidades. Os exemplos são muitos e nem vale a pena os mencionar. De facto, seja milho ou seja figo, a lição é clara: o povo português tem um tal amor à alimentação, sacralizando tanto aquilo que come, que sobrevaloriza certos alimentos, ao ponto de os confundir com objectos de paixão bastantes mais elevados, como sejam a título de exemplo, as pessoas. A pedra de toque desta inefável associação portuguesa do sexo e da alimentação, é o uso que se faz dos verbos que mais comummente se usam para designar a acção de quem se alimenta. O comer (e os seu congénere papar) não acabam nos confins da mesa do almoço ou do jantar... Ora bem, as conotações sexuais que há muito se deram a estas simples palavras fariam que um marciano, ao ouvir dois portugueses acerca de uma recente conquista, julgasse a nação portuguesa como um povo orgulhosamente canibal. A verdade é que deve haver uma explicação bem lógica para isto tudo. Talvez se deva à falta generalizada de ambas as coisas, não sei. O que vos parece?
19 Março, 2005
Outros futebóis
Só agora, que recomecei a jogar futebol, é que me apercebi do contexto futebolístico no qual estou envolvido. Por aqui, os jogadores são, de uma forma geral, tecnicamente evoluídos mas muito fracos tacticamente. Até a jogar na brincadeira se nota. Além disso, têm um hábito terrível de passarem todo o jogo a discutir com os elementos da própria equipa. Outra particularidade é que ninguém gosta de ir à baliza. Por isso, os jogos que fazemos jogam-se com balizas minúsculas de um passo. Mais interessante ainda é perceber, e falo destes jogos entre amigos, que existem estratificações futebolísticas, que de alguma forma, consoante a qualidade dos jogadores, constituem autênticas divisões por categorias. Assim, pelo que me apercebi existem, pelo menos, quatro classes distintas. A primeira constituída pelos jogadores das equipas federadas de futebol 11 e que, por norma, só jogam entre eles pois julgam-se a elite futebolística da ilha. A segunda, composta também pelos jogadores das equipas de futebol 11 federado mas que não são convocados, e que são, mesmo assim, considerados bons jogadores e aqueles que melhor forma física têm. A terceira, composta por jogadores, que embora não joguem numa equipa federada de futebol 11, são considerados, por um ou outro motivo, jogadores com um certo jeito. Nesta categoria, entram várias classes de futebolistas. Desde os demasiados lentos para o futebol 11, os com mais de 30 anos, os jogadores mais ou menos bons e as jovens promessas. Por último, a quarta categoria. que é formada por aqueles jogadores que não conseguiram entrar na terceira. Ou seja, os tipos que não têm muito jeito mas que pensam que sabem jogar futebol. E a verdade é que, apesar de esforçados e dedicados, são uns autênticos cepos, lentos, sem garra e sem habilidade nenhuma. Ora bem, eu actualmente estou a jogar nesta categoria. Mas, sem falsas modéstias, já me começo a destacar. Pelo menos é o que dizem os olheiros. Até há quem diga, à boca aberta, que devo começar a treinar na terceira categoria, pois nesta já começo a atrapalhar o futebol dos meus companheiros. Por isso, quando a condição física melhorar, é possível que ocorra um salto na minha mais recente carreira futebolística. Mas muito sinceramente a ambição já começa a subir-me à cabeça... e por isso, o céu é o meu limite.
17 Março, 2005
O tempo tudo cura...
Durante estes dias recomecei a jogar futebol. Talvez tenha sido uma das melhores coisas que me aconteceram ultimamente. E não estou a exagerar, pois há dois anos que não o fazia. E não porque não quisesse, mas sim porque não podia, pois tinha um joelho que me o impedia. Bastava correr apenas 5 minutos para ter que parar com dores. Os médicos especialistas nunca conseguiram detectar qualquer problema que fosse e, por isso, remeteram-me sempre para mais exames. Entretanto vim para Cabo Verde e não pude completar todos exames. No início ainda pensei que isso passasse, mas cada vez que tentava jogar, e foram muitas vezes ao longo destes dois anos, o joelho não me o permitia fazer por mais do que 5 minutos. E assim, resignei-me a esta condição de lesionado permanente qual Mantorras. E acreditem que não foi nada fácil, pois o futebol sempre foi uma grande paixão e o meu hobby favorito. Ainda para mais aqui, em Cabo Verde, onde o maior passatempo dos homens é o futebol (claro que também há as mulheres, mas adiante...). Pois bem, há uma semana atrás já tinha tido a impressão que o meu joelho estava melhor, pois, num passeio que fiz, pus-me a jogar futebol com o pessoal e a coisa aguentou-se sem dores para além dos 5 minutos da praxe. Por isso, esta semana, decidi fazer um teste para verificar o estado do meu joelho tal qual um jogador da bola a sério. Corri durante 40 minutos sem uma única queixa. Fiquei radiante. Mal podia acreditar que, assim do nada, o meu joelho se tinha curado. Para tirar as teimas, hoje decidi ir novamente correr. Mas, a convite de uns amigos, acabei por ir jogar futebol. E não é que, durante os 40 minutos que joguei, o fiz sem nenhum problema?! Ou melhor sem nenhum problema no joelho, porque quanto à condição física e à habilidade a coisa está uma lástima. Mas hei-de voltar aos velhos tempos. Ou então não.
09 Março, 2005
Seca? Catástrofe?
Hoje, no telejornal da tarde da SIC, passou uma reportagem sobre a situação de seca que Portugal, em especial o Alentejo, está a viver. Alguns dos entrevistados queixavam-se nunca ter visto nada assim nos últimos 40 nos e que o que estava a acontecer era uma catástrofe, pois as colheitas já se tinham perdido, os animais já não tinham pasto para comer e que até o consumo de água teria de ser racionado.
E eu pus-me a pensar... e a lembrar que, em Cabo Verde, raramente chove, havendo locais onde não cai uma gota de água há mais de 7 anos. Mas que mesmo assim as pessoas vão vivendo. Sobrevivendo. Sem ajudas, sem subsídios, sem agricultura, sem gado, sem água... e claro, sem telejornais, sem entrevistas...
Mas com o mal dos outros podemos nós bem, não é verdade? Venham mas é os subsídios que o pessoal precisa de comprar jeeps novos.
E eu pus-me a pensar... e a lembrar que, em Cabo Verde, raramente chove, havendo locais onde não cai uma gota de água há mais de 7 anos. Mas que mesmo assim as pessoas vão vivendo. Sobrevivendo. Sem ajudas, sem subsídios, sem agricultura, sem gado, sem água... e claro, sem telejornais, sem entrevistas...
Mas com o mal dos outros podemos nós bem, não é verdade? Venham mas é os subsídios que o pessoal precisa de comprar jeeps novos.
08 Março, 2005
Dia Internacional da Mulher
A forma mais digna de mostrar alguma consideração pelas mulheres seria não ter escrito nada sobre o assunto, tal é a alarvidade que, para mim, este dia internacional das mulheres representa. Mas não resisti. Não pretendo, porém, fazer nenhuma homenagem nem nada do género. Até porque este dia serve precisamente para me lembrar que a mulher ainda recebe um tratamento diferenciado da sociedade. Assim como acontece com os idosos, as crianças, os gays, os deficientes, os analfabetos, os negros,...
01 Março, 2005
Conselho
Não seja redundante. Evite repetir a mesma coisa várias vezes seguidas uma depois da outra e usar mais palavras do que o necessário para expressar as suas idéias de uma forma simples e sintética, sem grandes rodeios.
28 Fevereiro, 2005
Meu querido diário
Acabo de ver o jogo Porto-Benfica. O local escolhido foi a esplanada do Armindo, o despachante. O único local da Vila com ecrã gigante. Fomos para lá, eu e umas colegas, meia hora antes do jogo começar, para conseguirmos uma boa mesa. Aliás, fomos os primeiros a chegar. Mas com o aproximar da hora do jogo as pessoas foram chegando. Chegando... Até não caber mais ninguém. Pelas minhas contas deveriam estar dentro do estabelecimento umas 120 pessoas. Como existem pouco mais do que 30 cadeiras, imagine como estava o local. Não havia, nem sequer no chão, um espaço em aberto. Mais apertado do que no estádio, acho. Além disso, fora do estabelecimento, e aproveitando uns espaços abertos nas paredes, estavam aí umas 30 crianças. A maioria dos espectadores eram homens, apesar de haver 4 ou 5 mulheres. Havia mais camisolas e cachecóis do Porto do que do Benfica. Curioso é que as camisolas do Porto eram todas recentes, enquanto as do Benfica eram quase todas do século passado. Enfim, efeitos dos tempos... Por problemas na parabólica ninguém viu os primeiros 10 minutos de jogo. MAs quando a imagem veio o barulho tormou-se ensurdecedor. Os lances mais perigosos foram os mais comentados e aplaudidos. Mas os lances polémicos, de faltas ou supostas faltas, são os que levantam mais discussões. Em gritos. Mas tudo dentro da paz, claro. Chegado o intervalo aproveitei para beber mais um mazza (néctar de manga) e comer uns espetos (espetadas de porco). Interessante que das cento e muitas pessoas que estiveram a assistir ao jogo só umas 10 consumiram alguma coisa. Ilucidativo da realidade local... Segunda parte e finalmente os golos. O golo do Porto foi o mais festejado e deu para perceber que havia mais portistas presentes do que benfiquistas. Acho que era porque estavam mais confiantes. Quando o jogo terminou todos ficaram contentes e bateram palmas. Ainda se ouviram uns gritos pelo Sporting, o que por aqui é coisa rara. Claro que depois, como sempre, todos acharam que a sua equipa merecia ter ganho. Até eu.
26 Fevereiro, 2005
O problema do lixo
Além da matemática, uma das minhas grandes lutas em Cabo Verde tem sido a consciencialização dos meus alunos para a questão do lixo. De facto, nenhum deles manifesta estar sensibilizado para tal. Exemplo disso são as salas de aula que, pelo último tempo, têm mais papéis e plásticos no chão do que todos os caixotes do lixo da escola. Aliás, para os alunos é perfeitamente natural e normal, mesmo dentro da sala de aula, mandar o lixo para o chão ou mesmo pela janela. Como se nada fosse. Poderia-se pensar que se trata apenas de uma questão de educação. Mas é bem mais que isso. É, acima de tudo, um problema cultural, enraizado em toda a sociedade, do mais novo ao mais velho. pois, ninguém se importa. Ninguém repreende ninguém. As pessoas têm outras preocupações. Outras prioridades, porventura, muito mais importantes e decisivas na sua vida. Aliás a existência de contentores e a recolha de lixo é algo muito recente em Cabo Verde. Pois, até há bem pouco tempo, cada família se desfazia do seu lixo como podia. Talvez por isso não exista essa consciência cívica, esse hábito, de colocar o lixo no lixo. Desta forma, só as novas gerações poderão modificar e alterar esta situação. Mas não é fácil alterar mentalidades e hábitos tão enraizados. Por isso batalho tanto com os meus alunos. Pois para eles, e para a sociedade, um papel no chão não tem importância nenhuma. Até porque a empregada limpa, dizem-me.
24 Fevereiro, 2005
Preciso de dormir para parar de sonhar
Nestes últimos tempos raramente tenho sonhado. Só mesmo de olhos abertos. O que, convenhamos, não tem a mesma graça. Mas nem sempre foi assim. Quando era mais novo sonhava imenso. Muito mesmo. Talvez porque tinha mais tempo, mais disponibilidade e menos preocupações. Não sei. O que sei é que era muito bom. Especialmente naquela altura do sono, entre as 8 horas e o meio-dia, em que já se está meio consciente e que se consegue controlar o sonho a nosso belo prazer. E sonhar, meio consciente, é do melhor que há. Muito melhor do que qualquer filme. E bem mais real e interessante. Nem que seja porque o actor principal, realizador e argumentista somos nós próprios, tal como num bom filme do woody Allen. Ainda por cima, desta forma, tem-se a possibilidade de sonhar com as coisas mais fantásticas e impossíveis que se possa imaginar. E sempre com a garantia de um final feliz. Para o nosso lado, claro. Pelo menos se conseguirmos levar o sonho até ao fim. O que muitas vezes, por causa da hora de almoço, se torna impossível. E acordar a meio de um sonho destes é do mais bárbaro que existe. Porque, por muito que se tente, não se consegue voltar a ele. É de ficar amuado para o resto do dia. De tão bom que era.
Ora bem, hoje em dia, por muitas tentativas que faça, já não consigo sonhar desta forma. O que é uma enorme frustração, ainda para mais quando nem cinema tenho por aqui. O que quer dizer que os meus níveis de ficção, imaginação e auto-estima andam muito por baixo. E para piorar as coisas, como não consigo sonhar, perdi a motivação para dormir. O que faz com que ande com umas olheiras de todo o tamanho, mal humorado e a bocejar todo o dia. O que é muito chato. Especialmente quando o director está a falar para nós de coisas importantes. Por isso, apesar de não saber a quem me devo dirigir, quero reivindicar aqui os meus sonhos de volta, assim como, as minhas dez horas de sono por dia. Para o meu bem. E do meu próximo.
Ora bem, hoje em dia, por muitas tentativas que faça, já não consigo sonhar desta forma. O que é uma enorme frustração, ainda para mais quando nem cinema tenho por aqui. O que quer dizer que os meus níveis de ficção, imaginação e auto-estima andam muito por baixo. E para piorar as coisas, como não consigo sonhar, perdi a motivação para dormir. O que faz com que ande com umas olheiras de todo o tamanho, mal humorado e a bocejar todo o dia. O que é muito chato. Especialmente quando o director está a falar para nós de coisas importantes. Por isso, apesar de não saber a quem me devo dirigir, quero reivindicar aqui os meus sonhos de volta, assim como, as minhas dez horas de sono por dia. Para o meu bem. E do meu próximo.
21 Fevereiro, 2005
Ressaca eleitoral
Apesar de estar a meio oceano de distância de Portugal, não pude deixar de viver as emoções eleitorais da noite passada. E, obviamente, fiquei contente pelos resultados das eleições. Essencialmente porque, como sempre defendi, penso terem sido a melhor solução para Portugal. Porém, não se pense, que estou, ou que fiquei, eufórico. Pelo contrário. A hora não é de festas. É hora de governar. Seriamente.
Não pretendo fazer nenhuma análise política. As que ontem ouvimos são mais que suficientes. Deixem-me apenas dizer três coisas. A primeira vai para Paulo Portas, que pela primeira vez, teve uma atitude política honesta. Subiu na minha consideração, que, diga-se, era quase nenhuma. A segunda, é constatar que Santana Lopes não tem emenda mesmo. Ele é assim mesmo. A gente já o conhece e já não espera muito mais dele. Por isso, nem levamos muito a mal que, aquela triste figura, ainda queira, depois de ter levado Portugal e o partido a uma situação lastimável, continuar a ser líder de um partido como PSD. Certamente que o PSD, e Portugal, merecem muito melhor, pois todos já perceberam que o lugar deste senhor não é na política, mas sim numa Quinta das Celebridades qualquer. A título permanente. Claro. A terceira e última coisa que quero dizer é sobre o Bloco de Esquerda. De facto, vejo com algum, para não dizer muito, desagrado a subida eleitoral do Bloco de Esquerda. Como já referi muitas vezes, para mim, o Bloco não passa de um embuste político. Assim, só posso ficar contente pelo próximo governo não depender deles para nada.
Apesar de não ter, infelizmente, podido votar, sei que com a vitória do PS, e do Eng. Sócrates, a minha responsabilidade também aumenta, na medida que sempre fui seu apoiante. Contudo, não se pense que silenciarei a minha crítica. Muito pelo contrário. Acima de tudo sou por Portugal e nunca prescindirei dos meus princípios, o que, em alguns pontos, colidirá com as políticas que se avizinham.
Ao que parece em Portugal, hoje, começou a chover. Não chovia há 4 meses. Um bom pronuncio, eu acho.
Não pretendo fazer nenhuma análise política. As que ontem ouvimos são mais que suficientes. Deixem-me apenas dizer três coisas. A primeira vai para Paulo Portas, que pela primeira vez, teve uma atitude política honesta. Subiu na minha consideração, que, diga-se, era quase nenhuma. A segunda, é constatar que Santana Lopes não tem emenda mesmo. Ele é assim mesmo. A gente já o conhece e já não espera muito mais dele. Por isso, nem levamos muito a mal que, aquela triste figura, ainda queira, depois de ter levado Portugal e o partido a uma situação lastimável, continuar a ser líder de um partido como PSD. Certamente que o PSD, e Portugal, merecem muito melhor, pois todos já perceberam que o lugar deste senhor não é na política, mas sim numa Quinta das Celebridades qualquer. A título permanente. Claro. A terceira e última coisa que quero dizer é sobre o Bloco de Esquerda. De facto, vejo com algum, para não dizer muito, desagrado a subida eleitoral do Bloco de Esquerda. Como já referi muitas vezes, para mim, o Bloco não passa de um embuste político. Assim, só posso ficar contente pelo próximo governo não depender deles para nada.
Apesar de não ter, infelizmente, podido votar, sei que com a vitória do PS, e do Eng. Sócrates, a minha responsabilidade também aumenta, na medida que sempre fui seu apoiante. Contudo, não se pense que silenciarei a minha crítica. Muito pelo contrário. Acima de tudo sou por Portugal e nunca prescindirei dos meus princípios, o que, em alguns pontos, colidirá com as políticas que se avizinham.
Ao que parece em Portugal, hoje, começou a chover. Não chovia há 4 meses. Um bom pronuncio, eu acho.
15 Fevereiro, 2005
A coisa mais estranha e absurda que escrevi. Em 5 minutos. Diga-se.
Estou sem assunto. Mas apetece-me escrever. Sem emendas. Sem correcções. Sem pensar. Apetece-me falar de alguém. Mas não posso. Apetece-me falar de mim. Mas não quero. Só me resta ir escrevendo. Começar por qualquer lado. Aguentem-se.
Gosto de pessoas com objectivos. Com capacidade de sofrimento. Perseverantes. Lutadoras. E no entanto, conheço tão poucas assim. Mas as que conheço fascinam-me. Prendem-me. Cativam-me. Uma em particular. Talvez por eu não ser assim. Talvez porque gostasse de ser assim. Não quer isso dizer que não goste de ser como sou. Gosto. Mas às vezes não chega. Parece-me faltar qualquer coisa. Que faça a diferença. A diferença entre o que faço e o que penso fazer. Entre o que sou e aquilo que podia ser. Possivelmente, se fosse aquilo que podia ser, pensaria da mesma forma. Nem daria conta da diferença. Porque nós nunca somos aquilo que podíamos ser. Há um conflito que se agudiza. Nunca estamos satisfeitos. Adaptados, talvez. Conformados. Sei lá. Parece que pertencemos a outro lado. A outras circunstâncias. Ou então não. Somos mesmo isto. Seres, por natureza, insatisfeitos. Inadaptados. Diferentes. Com características. Com gostos. Conscientes do nosso estado. Do nosso fim. E até, imagine-se, da nossa falta de jeito para escrever.
Gosto de pessoas com objectivos. Com capacidade de sofrimento. Perseverantes. Lutadoras. E no entanto, conheço tão poucas assim. Mas as que conheço fascinam-me. Prendem-me. Cativam-me. Uma em particular. Talvez por eu não ser assim. Talvez porque gostasse de ser assim. Não quer isso dizer que não goste de ser como sou. Gosto. Mas às vezes não chega. Parece-me faltar qualquer coisa. Que faça a diferença. A diferença entre o que faço e o que penso fazer. Entre o que sou e aquilo que podia ser. Possivelmente, se fosse aquilo que podia ser, pensaria da mesma forma. Nem daria conta da diferença. Porque nós nunca somos aquilo que podíamos ser. Há um conflito que se agudiza. Nunca estamos satisfeitos. Adaptados, talvez. Conformados. Sei lá. Parece que pertencemos a outro lado. A outras circunstâncias. Ou então não. Somos mesmo isto. Seres, por natureza, insatisfeitos. Inadaptados. Diferentes. Com características. Com gostos. Conscientes do nosso estado. Do nosso fim. E até, imagine-se, da nossa falta de jeito para escrever.
13 Fevereiro, 2005
As eleições
Este é o último post político antes do dia das eleições, pois quero também fazer do dia de amanhã um dia de reflexão. Não quero fazer campanha. Todos sabem o que penso. Confesso, porém, que estou ansioso pelas eleições. Por mim bem podiam ser já hoje. As sondagens destes últimos dias parecem revelar duas coisas. Primeiro, a vitória do PS é indiscutível. Segundo, que a maioria absoluta, apesar de ser bastante provável, ainda não está garantida. Aliás, só estará garantida com todos os votos contados. Com os votos daqueles que acreditam num país melhor e mais justo. Com os votos daqueles que querem devolver Portugal à normalidade política. Com os votos daqueles que acreditam que a estabilidade política é uma alavanca essencial para se poder ter um bom governo.
Sei, contudo, que nem todos se enquadram nestes votos. Muitos votarão por outras convicções. Outros por fanatismo e seguidismo partidário. Outros por conveniência ou conivência. Outros por orgulho. Outros, até, por gosto. Como se fosse uma coisa sem importância. E isso deixa-me triste. Porque votar não pode ser uma questão de gosto e de orgulho. Porque as eleições não são um jogo de futebol. Porque os partidos não são clubes. Porque os votos não são golos. A democracia é muito mais do que isso. Tem de estar muito acima disso, pois o que está em jogo é, simplesmente, o futuro de Portugal. E quer queiramos quer não, isso está nas nossas mãos. De todos. Sem excepção.
Sei, contudo, que nem todos se enquadram nestes votos. Muitos votarão por outras convicções. Outros por fanatismo e seguidismo partidário. Outros por conveniência ou conivência. Outros por orgulho. Outros, até, por gosto. Como se fosse uma coisa sem importância. E isso deixa-me triste. Porque votar não pode ser uma questão de gosto e de orgulho. Porque as eleições não são um jogo de futebol. Porque os partidos não são clubes. Porque os votos não são golos. A democracia é muito mais do que isso. Tem de estar muito acima disso, pois o que está em jogo é, simplesmente, o futuro de Portugal. E quer queiramos quer não, isso está nas nossas mãos. De todos. Sem excepção.
12 Fevereiro, 2005
Diário de um professor V
Anteontem, numa aula, um aluno chamou-me de maluco. Espontaneamente e, ao que me pareceu, sem me querer ofender. Contudo, e apesar de ter falado em crioulo, teve azar, pois ouvi e percebi exactamente o que disse. Como é óbvio, não tive outra alternativa senão a de colocar o aluno fora da sala de aula, com a respectiva falta disciplinar e participação ao director de turma. Inevitável. Hoje, num intervalo, apareceu-me a mãe do dito aluno para falar comigo. Depois de se apresentar, explicou que o seu filho lhe tinha contado o que se passou, e que, por isso, vinha pedir desculpa pelo seu comportamento. Apesar de o filho lhe ter dito que aquela palavra saiu sem ele querer, dizia-me que sentia-se envergonhada, e garantiu-me que o rapaz nunca mais iria ter uma atitude como aquela, pois tinha sido repreendido com uma “grande sova”. Repetiu-me isto três vezes. Como devem calcular, e apesar de compreender e aceitar as diferenças culturais, não pude deixar de ficar com a consciência um pouco pesada. Contudo, aqui, as regras são bem rígidas, e mesmo na própria escola, qualquer comportamento inadequado é punido muito severamente. Como castigo. Como exemplo. E essencialmente, como forma de preservar a autoridade da escola. Do professor. E o certo é que, quase sempre, a coisa funciona...
10 Fevereiro, 2005
Vamos a banhos?
Esta semana deixei morrer um dos muitos mitos que me inculcaram desde criança. Falo, neste caso, do mito, que muitos aceitam como verdade absoluta, de não se poder tomar banho, frio ou quente, depois das refeições, pois pode parar a digestão ou, como se diz, ter-se uma congestão. Confesso, que sempre fui muito cumpridor das 3 horas de digestão antes de tomar qualquer banho, mesmo quente. Por esse facto, a minha colega Helga, que vive comigo, chamou-me à razão e lá me explicou a digestão tim-tim por tim-tim.
Ora bem é verdade que, a paragem de digestão pode ocorrer após uma refeição copiosa ou com alimentos de difícil digestão, a quem desenvolve exercício físico intenso, ingere alimentos gelados ou toma banho de água fria. E ocorre porque como o nosso corpo tem prioridades, ou melhor, funções prioritárias, o sangue é redireccionado para os órgãos e funções onde está a ser mais preciso. Ou seja, quando acabamos de comer, e mesmo quando ainda estamos na santa refeição, o sangue é redireccionado para o aparelho digestivo, que é o sítio onde ele é mais preciso. Ora, se tomarmos banho em água fria, há um choque térmico com a nossa pele, e quando isso acontece, o sangue de imediato acorre à pele para moderar a temperatura e anular esse choque térmico, e nesse caso, pode dar-se a congestão (congestão= paragem da digestão) porque o sangue sumiu-se para outro órgão do corpo, para outra função.
Explicada a parte científica vamos ás conclusões. Primeiro, na teoria, não se deve tomar banho depois das refeições com água fria. Contudo, com água quente ou à temperatura ambiente não há risco nenhum (há especialistas que dizem que, mesmo com água fria, o risco é insignificante ou nulo). Segundo, essa história de se poder tomar banho meia hora depois das refeições porque a digestão ainda não começou é uma grande treta, visto a digestão começar logo imediatamente quando colocamos a comida na boca.
Ora bem é verdade que, a paragem de digestão pode ocorrer após uma refeição copiosa ou com alimentos de difícil digestão, a quem desenvolve exercício físico intenso, ingere alimentos gelados ou toma banho de água fria. E ocorre porque como o nosso corpo tem prioridades, ou melhor, funções prioritárias, o sangue é redireccionado para os órgãos e funções onde está a ser mais preciso. Ou seja, quando acabamos de comer, e mesmo quando ainda estamos na santa refeição, o sangue é redireccionado para o aparelho digestivo, que é o sítio onde ele é mais preciso. Ora, se tomarmos banho em água fria, há um choque térmico com a nossa pele, e quando isso acontece, o sangue de imediato acorre à pele para moderar a temperatura e anular esse choque térmico, e nesse caso, pode dar-se a congestão (congestão= paragem da digestão) porque o sangue sumiu-se para outro órgão do corpo, para outra função.
Explicada a parte científica vamos ás conclusões. Primeiro, na teoria, não se deve tomar banho depois das refeições com água fria. Contudo, com água quente ou à temperatura ambiente não há risco nenhum (há especialistas que dizem que, mesmo com água fria, o risco é insignificante ou nulo). Segundo, essa história de se poder tomar banho meia hora depois das refeições porque a digestão ainda não começou é uma grande treta, visto a digestão começar logo imediatamente quando colocamos a comida na boca.
07 Fevereiro, 2005
Música Vs Notícias
A maior parte dos meus amigos sabe que eu não percebo nada de música. Não sei os nomes das músicas, nem sequer reconhecer quem é o seu autor. Excepção feita ao Jorge Palma. Claro. O motivo de ser assim, tão inculto musicalmente, tem que ver com o facto de desde adolescente, e ainda sem ter leitor de CDs nem gira-discos, só ligar o rádio para ouvir as notícias e programas da TSF – Rádio Jornal. A verdade é que nunca tive a paranóia de ouvir música na rádio, nem a de andar de walkman, nem de estudar a ouvir música. Muito menos de ficar horas sentado a ver a MTV ou qualquer canal do género. Preferia as notícias, os debates políticos, as entrevistas ... Não se pense, porém, que não gosto de música. Pelo contrário. Há uns anos até tentei resolver esta minha falha. Comecei a ouvir música compulsivamente para recuperar o tempo perdido. Ainda consegui recuperar algumas coisas, especialmente musica portuguesa e brasileira, mas não consegui absorver tudo, muito menos grupos como o Linkin Park, Limp Bizkit, ou coisas do género.
Vem isto a propósito pelo facto de, mesmo a partir de Cabo Verde, ter redescoberto o meu velho prazer de adolescente. Ou seja, voltei a ouvir a TSF- Rádio Jornal, diariamente, graças à internet e à ADSL. Voltei ao meu velho vício. Lá vai a música ficar novamente para trás. Mas com o que por aí anda, também não vou perder nada de mais.
Vem isto a propósito pelo facto de, mesmo a partir de Cabo Verde, ter redescoberto o meu velho prazer de adolescente. Ou seja, voltei a ouvir a TSF- Rádio Jornal, diariamente, graças à internet e à ADSL. Voltei ao meu velho vício. Lá vai a música ficar novamente para trás. Mas com o que por aí anda, também não vou perder nada de mais.
06 Fevereiro, 2005
Confessionário
Por crescer numa família protestante, nunca festejei o carnaval. Mesmo em criança. Até me recordo de sentir alguma inveja dos trajes carnavalescos dos meus colegas. Porém, a partir de certa idade, quando já estava firme nas minhas convicções, sentia um certo orgulho em não dar nenhuma importância ao carnaval em si. Ainda hoje, quando penso em carnaval só penso numa coisa. Nas férias. Claro.
Este ano, estando em Cabo Verde, vivi o dilema de participar ou não no carnaval local. O contexto é outro. A cultura também. É certo que carnaval é carnaval. A origem está lá. Ainda assim, este carnaval parece-me um pouco diferente dos outros. Nem que seja porque assume tradições diferentes das que estamos habituados a associar ao carnaval dos nossos dias. Não sei se isso é uma boa desculpa, mas adiante... O facto é que acabei por participar, ainda que de uma forma passiva. É certo que não me mascarei, nem sequer desfilei. Mas cantei, pulei, dancei e bati muitas palmas. Foram quatro dias de festa onde na verdade, juntamente com os meus amigos, me diverti muito.
Bem, mas arrumado que está o carnaval, voltemos à rotina. Às coisas sérias. E às coisas breves. Até já.
Este ano, estando em Cabo Verde, vivi o dilema de participar ou não no carnaval local. O contexto é outro. A cultura também. É certo que carnaval é carnaval. A origem está lá. Ainda assim, este carnaval parece-me um pouco diferente dos outros. Nem que seja porque assume tradições diferentes das que estamos habituados a associar ao carnaval dos nossos dias. Não sei se isso é uma boa desculpa, mas adiante... O facto é que acabei por participar, ainda que de uma forma passiva. É certo que não me mascarei, nem sequer desfilei. Mas cantei, pulei, dancei e bati muitas palmas. Foram quatro dias de festa onde na verdade, juntamente com os meus amigos, me diverti muito.
Bem, mas arrumado que está o carnaval, voltemos à rotina. Às coisas sérias. E às coisas breves. Até já.
04 Fevereiro, 2005
Carta de amor de uma aluna II
Já aqui publiquei uma carta de amor que recebi de uma aluna. Depois dessa carta tenho recebido muitas outras. Ao ritmo de uma por cada quinze dias. Sempre da mesma aluna, que, por acaso, já deixou de ser. Tenho sido indiferente a tudo isto e já transmiti à colega, que serve de correio, para dizer à aluna em questão que pare de mandar cartas, porque, além de isso já me andar a incomodar, eu nunca irei responder ou dar importância. Numa espécie de resposta a este meu pedido, recebi mais uma carta esta semana, a qual reproduzo aqui, palavra por palavra:
“ João Narciso em primeiro de tudo desejo-te um bom carnaval 2005. João eu já te escrevi muitas cartas, e tu já deves estar farto delas, mas eu só vou deixar de te escrever quando tu mandares-me um foto seu. Eu prometo que não te vou escrever mais, mas se tu não me mandares até dia 11 deste mês, eu não vou parar e se tu não me mandares é porque gostas das minhas cartas. Eu desejaria de ter mais do que um foto seu mas isto é impossível porque tu nunca irias querer nada comigo, por isso peço-te um foto como um amiga. Está muito difícil te esquecer tirar do meu coração, os meus olhos dá para ver. Para ti um beijo bem grande.”
E esta hein?
“ João Narciso em primeiro de tudo desejo-te um bom carnaval 2005. João eu já te escrevi muitas cartas, e tu já deves estar farto delas, mas eu só vou deixar de te escrever quando tu mandares-me um foto seu. Eu prometo que não te vou escrever mais, mas se tu não me mandares até dia 11 deste mês, eu não vou parar e se tu não me mandares é porque gostas das minhas cartas. Eu desejaria de ter mais do que um foto seu mas isto é impossível porque tu nunca irias querer nada comigo, por isso peço-te um foto como um amiga. Está muito difícil te esquecer tirar do meu coração, os meus olhos dá para ver. Para ti um beijo bem grande.”
E esta hein?
01 Fevereiro, 2005
Outras estatísticas
No outro dia, numa das aulas sobre estatística, resolvi fazer um exercício tipo, muito comum, para praticar a elaboração de uma tabela de frequências. O exercício consistia em contar o número de alunos consoante o número de irmãos que têm. Em Portugal, recordo-me que, no máximo, tinha um ou dois alunos com 4 irmãos. Pois bem, para perceberem que a realidade em Cabo Verde é bastante diferente, digo-vos que não tive espaço suficiente no quadro para fazer a tabela de frequências, pois havia alunos com 19 irmãos. Numa das turmas, a média rondava os 6,5 irmãos por aluno. Aliás, em 150 alunos, só encontrei 5 filhos únicos. Houve até uma aluna que não soube dizer exactamente quantos irmãos tinha. Ela bem que tentou contar pelos dedos, mas perdeu-se com a falta de tanto dedo para tanto irmão. Por fim, lá acabou por dizer que seriam, 19 ou 20. Parece-me, no entanto, que a realidade está a mudar. Não só pelo uso, mais ou menos generalizado, de contraceptivos mas, essencialmente, pela chegada da televisão, e em especial das novelas e do futebol. É caso para dizer que há males que vêm por bem. Ou não. Ou não.
28 Janeiro, 2005
Constatações pedagógicas
Já repararam que um gajo para pedir aos outros para deixarem de gritar tem de o fazer aos gritos?
Já repararam que quando duas crianças se envolvem numa briga a forma de as repreender, antes de dizer que bater é feio, é mandar um estalo a cada uma?
Já repararam que quando duas crianças se envolvem numa briga a forma de as repreender, antes de dizer que bater é feio, é mandar um estalo a cada uma?
27 Janeiro, 2005
Na falta de assunto melhor, hoje, escrevo sobre o amor. Entre um homem e uma mulher, entenda-se. Não é que eu seja um especialista na matéria. Muito pelo contrário. Mas, mesmo assim, vou arriscar em dizer umas coisas. Comuns. Sem sentido. E breves. Claro.Todos sabemos que amar não tem nada que ver com a ideia que é transmitida nos filmes. Porém, de alguma forma, os filmes, consciente ou inconscientemente, estão contribuindo para que nunca amemos ou amemos mal. Por um lado, fazem-nos confundir amor com paixão, banalizando-o, por outro, colocam o amor num estado tão idílico e perfeito que, com tanta desilusão e frustração, julgamos ser utópico, impossível de alcançar.
Mas afinal o que é amar? A resposta a esta pergunta é, obviamente, pessoal. Cada um pode falar por si. Por isso, e infelizmente, não tenho resposta. No entanto, estou cada vez mais consciente que amar é muito mais que uma paixão e muito mais do que um simples "amo-te". De facto, não posso dizer que amo só porque alguém preenche o meu vazio, satisfaz as minhas necessidades ou me faz sentir bem. Redutor e passageiro. Digo eu.
Lembro-me de uma conversa que tive há uns tempos, em que alguém me explicava o porquê dos casamentos por conveniência, especialmente os judaicos dos tempos bíblicos. Explicavam-me então que a concepção de amor era diferente, pois acreditava-se que amar dependia de uma decisão, de uma atitude. Assim como perdoar depende. Explicando melhor. Se você acredita que pode perdoar alguém, de coração sincero, então também poderá amar. Depende de si, da sua cultura, das suas expectativas. Claro, que isso hoje é muito difícil de aceitar e até compreender. Se ninguém perdoa de coração, muito menos ama. Contudo, apesar de isto me parecer algo de radical, e até polémico, acredito que tenha um pouco de verdade. E é por esse pouco que pretendo chegar ao meu ponto.
Estou certo que o amor verdadeiro é fruto, também, de uma decisão e um compromisso. Claro que terá que haver um sentimento forte, possivelmente até de paixão, não sei. Mas o que quero dizer, este é o ponto, é que muitas vezes, não estamos dispostos a amar e desejamos muito amar. Vivemos à espera da princesa encantada, como que um milagre, tal como nos filmes, acontecesse. E depois desiludimo-nos. Antes de amar é necessário decidirmos fazê-lo. Não quer isso dizer que devemos amar pela razão. Pelo contrário. No entanto, tem de haver uma atitude em nós, intencional, racional, de preservar e construir o amor, isto é, temos de comprometer-nos racionalmente com o amor e não entregar tudo à emoção, que como sabemos, é, muitas vezes, inconstante e enganadora. E p(r)onto. Tenho dito.
Nota: Após alguns protestos, decidi alterar um pouco o último parágrafo, pois concluí que acabei por transmitir uma ideia diferente da que queria. Não sei se melhorou. Mas agora vai ficar assim mesmo.
Mas afinal o que é amar? A resposta a esta pergunta é, obviamente, pessoal. Cada um pode falar por si. Por isso, e infelizmente, não tenho resposta. No entanto, estou cada vez mais consciente que amar é muito mais que uma paixão e muito mais do que um simples "amo-te". De facto, não posso dizer que amo só porque alguém preenche o meu vazio, satisfaz as minhas necessidades ou me faz sentir bem. Redutor e passageiro. Digo eu.
Lembro-me de uma conversa que tive há uns tempos, em que alguém me explicava o porquê dos casamentos por conveniência, especialmente os judaicos dos tempos bíblicos. Explicavam-me então que a concepção de amor era diferente, pois acreditava-se que amar dependia de uma decisão, de uma atitude. Assim como perdoar depende. Explicando melhor. Se você acredita que pode perdoar alguém, de coração sincero, então também poderá amar. Depende de si, da sua cultura, das suas expectativas. Claro, que isso hoje é muito difícil de aceitar e até compreender. Se ninguém perdoa de coração, muito menos ama. Contudo, apesar de isto me parecer algo de radical, e até polémico, acredito que tenha um pouco de verdade. E é por esse pouco que pretendo chegar ao meu ponto.
Estou certo que o amor verdadeiro é fruto, também, de uma decisão e um compromisso. Claro que terá que haver um sentimento forte, possivelmente até de paixão, não sei. Mas o que quero dizer, este é o ponto, é que muitas vezes, não estamos dispostos a amar e desejamos muito amar. Vivemos à espera da princesa encantada, como que um milagre, tal como nos filmes, acontecesse. E depois desiludimo-nos. Antes de amar é necessário decidirmos fazê-lo. Não quer isso dizer que devemos amar pela razão. Pelo contrário. No entanto, tem de haver uma atitude em nós, intencional, racional, de preservar e construir o amor, isto é, temos de comprometer-nos racionalmente com o amor e não entregar tudo à emoção, que como sabemos, é, muitas vezes, inconstante e enganadora. E p(r)onto. Tenho dito.
Nota: Após alguns protestos, decidi alterar um pouco o último parágrafo, pois concluí que acabei por transmitir uma ideia diferente da que queria. Não sei se melhorou. Mas agora vai ficar assim mesmo.
24 Janeiro, 2005
As minhas modas
Apesar de ainda ser um jovem, na flor da idade, já passaram por mim algumas modas, especialmente quanto ao vestir. A primeira que me recordo, devia ter uns 10 anos, foi a de usar as calças arregaçadas, com duas ou três dobras na bainha, de forma a se poder ver bem os ténis, quase sempre comprados nas feiras, que por sua vez tinham a pala puxada ao máximo e os atacadores atados à volta da canela em duas ou três voltas. Lembro-me , também, de a minha irmã dizer que aquilo ficava horrível e de eu não ligar nada por achar qu estava o máximo.
Depois, com 13 ou 14 anos, recordo-me da mania de usar ténis de marca. Sem contar os famosos Sanjo tipo bota, que o meu pai insistia em comprar-me, os primeiros ténis a sério que tive foram uns Le coq Sportif vermelhos, que, por acaso, já estavam completamente fora da moda. Mas, mais tarde, quando quase todos já tinham uns, lá tive os meus adidas Stan Smith. Tive dois ou três pares consecutivos e, devo dizer, que foi a altura que fiz mais sucesso com as raparigas.
Com 15 ou 16 anos, ainda nos ténis, a moda foi os All Star, vermelhos, brancos e azuis. Toda a gente os usava, por muito sujos que estivessem. Aindaandei uns anos nisso. Por essa altura, usei também as minhas primeiras calças de marca. Uniform. Quem tinha umas calças destas era logo considerado de outra forma. Além de cuatarem 10 contos, andei a trabalhar nas obras para as poder comprar, eram associadas aos meninos mais cool's e populares da escola. Por gostar tanto delas, chegava as usar de dia e lavá-las e secá-las durante a noite. Por causa disso, por duas vezes, roubaram-me as calças do estendal. Confesso, que foram as calças que gostei mais de ter, pelo menos, até começarem a aparecer as imitações nas feiras.
Dos18 até aos 20 anos, foram as calças de ganga Levis. 501, claro. Depois os sapatos de vela. Hoje não sei bem, mas certamente que daqui a uns anos me irei lembrar...e rir, tal como me rio ao recordar tudo isto, da minha linda figura actual.
Depois, com 13 ou 14 anos, recordo-me da mania de usar ténis de marca. Sem contar os famosos Sanjo tipo bota, que o meu pai insistia em comprar-me, os primeiros ténis a sério que tive foram uns Le coq Sportif vermelhos, que, por acaso, já estavam completamente fora da moda. Mas, mais tarde, quando quase todos já tinham uns, lá tive os meus adidas Stan Smith. Tive dois ou três pares consecutivos e, devo dizer, que foi a altura que fiz mais sucesso com as raparigas.
Com 15 ou 16 anos, ainda nos ténis, a moda foi os All Star, vermelhos, brancos e azuis. Toda a gente os usava, por muito sujos que estivessem. Aindaandei uns anos nisso. Por essa altura, usei também as minhas primeiras calças de marca. Uniform. Quem tinha umas calças destas era logo considerado de outra forma. Além de cuatarem 10 contos, andei a trabalhar nas obras para as poder comprar, eram associadas aos meninos mais cool's e populares da escola. Por gostar tanto delas, chegava as usar de dia e lavá-las e secá-las durante a noite. Por causa disso, por duas vezes, roubaram-me as calças do estendal. Confesso, que foram as calças que gostei mais de ter, pelo menos, até começarem a aparecer as imitações nas feiras.
Dos18 até aos 20 anos, foram as calças de ganga Levis. 501, claro. Depois os sapatos de vela. Hoje não sei bem, mas certamente que daqui a uns anos me irei lembrar...e rir, tal como me rio ao recordar tudo isto, da minha linda figura actual.
23 Janeiro, 2005
Os domingos da Vila
O dia mais animado, na vila da Ribeira Brava, é o domingo. Cumprindo a tradição, toda a gente sai de casa para se reunir na praça, o local mais carismática da vila. Desde as 17 horas até à uma da manhã, a praça fica cheia de pessoas, que se reúnem em pequenos grupos, para conversar, beber e comer, tudo ao som de uma música bem alta que sai de um dos bares próximos. Quem não souber que isto se trata de uma tradição semanal, certamente que julgará que ali está a decorrer uma festa ou qualquer coisa do género. O que me tem intrigado é o facto deste acontecimento semanal ser ao domingo e não ao sábado. E a verdade é que ninguém me sabe explicar.
Ir à praça ao domingo é acima de tudo um acto social. Das crianças aos mais velhos todos têm o seu espaço. As crianças brincam à volta da praça num corrupio constante. Os mais velhos, especialmente homens, juntam-se num canto específico da praça ou então junto a algum dos bares ali existentes. Os Jovens ficam encostados ao muro, de frente para a estrada, que limita a praça. Os rapazes, obviamente, aproveitam o dia para irem mandando uns piropos às meninas, que, quase sempre, passam o dia de um lado para outro, como de um desfile se tratasse. Porém, os mais conservadores, descem ao piso inferior da praça, e aos pares, de mão dada, ficam a noite a fazer grogue, isto é, ficam horas a fazer voltas contínuas à praça num ritual de cortejamento único. Afinal, para alguns, a tradição ainda é o que era. Ou não.
Ir à praça ao domingo é acima de tudo um acto social. Das crianças aos mais velhos todos têm o seu espaço. As crianças brincam à volta da praça num corrupio constante. Os mais velhos, especialmente homens, juntam-se num canto específico da praça ou então junto a algum dos bares ali existentes. Os Jovens ficam encostados ao muro, de frente para a estrada, que limita a praça. Os rapazes, obviamente, aproveitam o dia para irem mandando uns piropos às meninas, que, quase sempre, passam o dia de um lado para outro, como de um desfile se tratasse. Porém, os mais conservadores, descem ao piso inferior da praça, e aos pares, de mão dada, ficam a noite a fazer grogue, isto é, ficam horas a fazer voltas contínuas à praça num ritual de cortejamento único. Afinal, para alguns, a tradição ainda é o que era. Ou não.
22 Janeiro, 2005
Diário de um professor IV
Hoje, ser professor é muito mais do que transmitir matéria. Porém, muitos professores só pensam na tranquilidade para dar as suas aulas. Parece que todos temem as crianças e as suas turbulências próprias da idade. Fazer-se temer, impor a distância, não se deixar levar pelos alunos. Mas ensinar só se reduz a isso? Receamos a tal ponto as crianças e as suas turbulências? É realmente a tranquilidade que nos leva a ensinar? Então é para isso que queremos ser professores? No fundo o que muitos deixam transparecer é o desejo de que as suas aulas sejam como há trinta anos atrás. Será que não dá para perceber que as crianças mudaram, que tudo mudou?
21 Janeiro, 2005
Procuro sócio para negócio de futuro
Ando com uma ideia para montar um negócio. Inovador, revolucionário. A ideia é simples, mas brilhante. Apesar do segredo ser a alma do negócio, aqui vai : formar uma empresa que resolva tudo, isto é, uma empresa de prestação de serviços, que lhe proporcine uma espécie de secretária particular, assistente pessoal ou acessor da sua inteira confiança, que resolva tudo por si. Quando digo tudo é tudo mesmo. A ideia é muito forte, não acha? Acompanhe o raciocínio. Quem tem uma vida ocupada, sabe que o que custa mais é ter que perder muito do, pouco, tempo livre a resolver problemas do dia a dia. Consomem muito tempo e são uma chatice. Muito bem. Agora imagine, se tivesse uma secretária particular ou um acessor. Certamente, que essa pessoa resolveria esses assuntos por você. Ficava apenas com a missão de decidir, de escolher. O trabalho sujo alguém faria por você. Então porque é que não tem uma secretária particular? Pergunto eu. Ora, dir-me-à que isso é para os ricos e que não tem dinheiro para isso. E se não for tão caro assim? Eu insisto. Para quê ser você a fazer, se outros podem fazer por si. Ainda por cima, melhor. Imagine: quer viajar, mudar de casa, arranjar o carro, comprar um presente, fazer uma festa de aniversário, fazer uma operação, fazer o avio mensal, pintar a casa, deixar o animal nas férias, fazer um discurso, impressionar a mulher ou resolver algum assunto inesperado, telefona ao seu acessor particular, e ele faz por você. Basta um telefonema para o seu acessor e ele resolve, ainda por cima, com a garantia de confidencialidade, competência, rapidez e eficiência. Claro que você pagaria este serviço. Mas tempo é dinheiro. E você apenas estaria a pagar o seu tempo livre, mas com a vantagem de lhe evitar preocupações, estresses e assim, talvez, lhe poupar mais uns anos de vida. Sejam sinceros, quem é que não gostaria de ter a sua secretária particular?
20 Janeiro, 2005
Uma conversa de nada
Pois é... Pois é, pá. Se não fosse isso, não sei, pá. Ouve lá ... tu sabes como é. Há alturas em que uma pessoa tem de ser ela própria . Tem de decidir, pá. E depois não é só isso, ainda tem montes de outras coisas... um gajo fica às aranhas. Não dá, meu. Não dá mesmo. É que eu não tou pra isso. Tás a ver? Tu sabes que eu sou asim mesmo. Quanda tenho a dizer, digo na cara. è ou não é? Que culpa tenho eu, pá? È pá, isto é assim mesmo, ou um gajo assume ou não. Não me venham cá com histórias da carochinha, que não sei quê e não sei que mais. Ainda por cima não havia avião. A chuva é do caraças. A chuva, pá. Olha lá pró outro, pá. Ele é que fez bem... Também te digo, a vida é mesmo assim, pá. Uma linha recta, meu. Não sei tás a ver? Um gajo não se pode desviar, pá. Isto é mesmo assim. Tou-te a dizer, pá. Independência, meu. Como é que achas que o Bill Gates chegou onde chegou? Linha recta, meu. Fixa isso.
19 Janeiro, 2005
Notícias que me fazem sorrir
A primeira encontrei no diário digital e diz que Cientistas britânicos concluíram que deixar a cama por fazer é melhor e mais higiénico. Ora, como sempre, o tempo vem-me dar razão. Estás a ver mãe?
A segunda no Público, dando conta de que um estudo revela que, duas em cada cem mulheres, se consideram bonitas. Será que não têm espelho em casa? Convencidas.
A terceira, e melhor, encontrei também no Diário Digital. Ao que parece, a próxima segunda-feira vai ser o dia mais infeliz e deprimente deste inverno, a acreditar nos investigadores da Universidade de Cardiff. O cálculo é feito a partir de uma fórmula de infelicidade, 1/8W+(D-d) 3/8xTQ MxNA, onde W é o tempo, D é a quantia em dívida, menos o ordenado de Janeiro (d) e T é o tempo que passou desde o Natal. Há ainda que ter em conta Q, o período desde que se falhou numa tentativa de deixar um vício e M, níveis de motivação, assim como NA, a necessidade de agir e fazer alguma coisa quanto à situação. Bem, com isto tudo só me ocorre perguntar, se este pessoal não tem nada que fazer? Ou será que a próxima segunda-feira vai ser pior que hoje? Duvido.
A segunda no Público, dando conta de que um estudo revela que, duas em cada cem mulheres, se consideram bonitas. Será que não têm espelho em casa? Convencidas.
A terceira, e melhor, encontrei também no Diário Digital. Ao que parece, a próxima segunda-feira vai ser o dia mais infeliz e deprimente deste inverno, a acreditar nos investigadores da Universidade de Cardiff. O cálculo é feito a partir de uma fórmula de infelicidade, 1/8W+(D-d) 3/8xTQ MxNA, onde W é o tempo, D é a quantia em dívida, menos o ordenado de Janeiro (d) e T é o tempo que passou desde o Natal. Há ainda que ter em conta Q, o período desde que se falhou numa tentativa de deixar um vício e M, níveis de motivação, assim como NA, a necessidade de agir e fazer alguma coisa quanto à situação. Bem, com isto tudo só me ocorre perguntar, se este pessoal não tem nada que fazer? Ou será que a próxima segunda-feira vai ser pior que hoje? Duvido.
18 Janeiro, 2005
Diário de um professor III
Não existem alunos iguais e o que pode resultar com um pode ter o efeito completamente contrário com outro. Essa é a grande dificuldade de ensinar mas também o grande desafio que temos pela frente. Não há fórmulas infalíveis e haverá sempre dificuldades. Como lidamos com elas, como as resolvemos, como as evitamos são respostas que nós próprios vamos encontrando e apreendendo.
17 Janeiro, 2005
Até amanhã
Hoje, estou sem paciência para escrever alguma coisa de jeito. Aliás, tenho a sensação que não escrevo nada de interessante há algum tempo. Também depois de escrever tanto post é difícil ser, todos os dias, original, engraçado, interessante, entusiasmante. Ainda para mais, aqui não se passa nada. Que dizer, hoje, até choveu. Motivo suficiente para um bom post. Mas não me apeteceu. Ou melhor, não me apetece. De qualquer maneira, ainda não é desta que vou desistir. Mais, vou continuar a postar diariamente. Mas confesso que, por vezes, perco o entusiasmo, especialmente porque tenho a sensação que ninguém me lê, e assim não vale a pena. Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade. Com toda a certeza. O que vale é que, por vezes, aparecem uns comentários que me animam e que me renovam o entusiasmo. É o caso destes e deste. Obrigado
16 Janeiro, 2005
As crianças
Uma das coisas que mais me tem impressionado, em Cabo Verde, é a alegria das crianças. Ainda para mais porque sei que nem sempre levam uma vida fácil. Muitos, não vivem com os pais, não têm brinquedos comprados, ténis ou televisão. Alguns, nem sequer electricidade, água ou comida. Contudo, apesar de enigmático, conservam um sorriso natural, espontâneo e contagiante. Não sei explicar bem porquê, mas talvez seja porque são mais livres, no sentido em que ninguém os condiciona nas brincadeiras o que, talvez, possibilite que sejam mais naturais e ,por isso, mais alegres.
Além de me parecerem felizes, estas crianças conservam um grande espírito de solidariedade. Deixem-me dar um exemplo, para perceberem do que falo. Perto da escola, existe um campo de futebol de salão em cimento. Nesse campo, por mais do que uma vez, já assisti a 3 jogos de futebol em simultâneo, com 6 equipas, 3 bolas distintas e apenas 2 balizas. Os jogos decorrem normalmente, mas ao mesmo tempo, com os guarda redes a revezarem-se nas balizas, conforme a proximidade da bola do seu respectivo jogo. O mais incrível é que os jogos ocorrem sem problemas, onde ninguém interfere, intencionalmente, no jogo que não é o seu. Claro que, de vez em quando, uns levam umas boladas, mas ninguém se queixa, pois isso também faz parte do jogo. Parece impossível imaginar, mas de facto, é algo lindíssimo, porque tudo parece estar, de alguma forma, coordenado, como num bailado.
Além de me parecerem felizes, estas crianças conservam um grande espírito de solidariedade. Deixem-me dar um exemplo, para perceberem do que falo. Perto da escola, existe um campo de futebol de salão em cimento. Nesse campo, por mais do que uma vez, já assisti a 3 jogos de futebol em simultâneo, com 6 equipas, 3 bolas distintas e apenas 2 balizas. Os jogos decorrem normalmente, mas ao mesmo tempo, com os guarda redes a revezarem-se nas balizas, conforme a proximidade da bola do seu respectivo jogo. O mais incrível é que os jogos ocorrem sem problemas, onde ninguém interfere, intencionalmente, no jogo que não é o seu. Claro que, de vez em quando, uns levam umas boladas, mas ninguém se queixa, pois isso também faz parte do jogo. Parece impossível imaginar, mas de facto, é algo lindíssimo, porque tudo parece estar, de alguma forma, coordenado, como num bailado.
12 Janeiro, 2005
Um dia na América
Ontem, regressado de férias da América, chegou a São Nicolau o meu amigo Jack, Peace Corp Americano. Dizia-me ele que quando chegou à América sentiu-se um pouco estranho e incomodado, especialmente porque os amigos, que ele não via há dois anos, desde o fim da universidade e vinda para Cabo Verde, só lhe falavam do emprego, do carro, da casa, do cão, do plasma,... quando ele só tinha roupa e uma guitarra...
Contudo, parece que as suas férias foram muito animadas, cheias de jantares, festas e ... mulheres. Diz ele que descobriu uma táctica infalível para cair nas boas graças das americanas. Ao que parece, por lá, basta dizer que se faz trabalho voluntário em África, para elas ficarem logo derretidas. E eu, fiquei a pensar para mim, porque não me lembrei disso?!
Contudo, parece que as suas férias foram muito animadas, cheias de jantares, festas e ... mulheres. Diz ele que descobriu uma táctica infalível para cair nas boas graças das americanas. Ao que parece, por lá, basta dizer que se faz trabalho voluntário em África, para elas ficarem logo derretidas. E eu, fiquei a pensar para mim, porque não me lembrei disso?!
10ºA / Emídio Navarro /2001-02
Quando recordo o meu ano de estágio, como professor de Matemática, na Escola Sec. Emídio Navarro, fico sempre com um sorriso nos lábios. Recordo-me do primeiro dia, ao entrar pelo portão da escola, o caminho ser-me barrado por um contínuo, pensando que eu era um aluno. Foi, de facto, um ano marcante, inesquecível, em que tive experiências muito gratificantes e enriquecedoras mas onde também, pela primeira vez, me confrontei com medos, incertezas, dificuldades e dilemas que até então eram-me totalmente desconhecidos.
Vem isto a propósito porque, recentemente, tenho tido oportunidade de falar com alguns dos meus alunos de então. Foram alunos extraordinários. Tenho para mim que só daqui a muitos anos terei uma turma tão boa como aquela. Não sei se fui bom professor ou não. Eles o dirão. Mas, não deixa de ser engraçado e recompensador revê-los. Apesar de nem sempre me conseguirem tratar por tu a diferença deles para mim é, hoje, nula. Deixaram de ser alunos, para se tornarem amigos, colegas, o que quiserem. Agora, quase todos, estão na universidade o que me deixa com um enorme orgulho. Afinal, por pequena que fosse, também fiz parte da sua formação, como alunos e, espero, como pessoas.
Vem isto a propósito porque, recentemente, tenho tido oportunidade de falar com alguns dos meus alunos de então. Foram alunos extraordinários. Tenho para mim que só daqui a muitos anos terei uma turma tão boa como aquela. Não sei se fui bom professor ou não. Eles o dirão. Mas, não deixa de ser engraçado e recompensador revê-los. Apesar de nem sempre me conseguirem tratar por tu a diferença deles para mim é, hoje, nula. Deixaram de ser alunos, para se tornarem amigos, colegas, o que quiserem. Agora, quase todos, estão na universidade o que me deixa com um enorme orgulho. Afinal, por pequena que fosse, também fiz parte da sua formação, como alunos e, espero, como pessoas.
11 Janeiro, 2005
Hora crioula
De facto, Cabo Verde é o local indicado para desenvolver a paciência. Se existe a pontualidade britânica, aqui, em oposto, existe a hora crioula. A hora crioula é mais ou menos 45 minutos depois da hora marcada. Toda a gente rege-se pela hora crioula. Até eu, que sou o ser mais pontual que conheço. Mas, a verdade é que cansei de esperar continuamente. Pior, cansei que achassem graça de eu chegar a horas.
A hora crioula está tão enraizada nas pessoas que acaba por ter efeitos muito perversos na sociedade, especialmente na produtividade e na qualidade dos serviços. Por exemplo, estou há 6 dias à espera que me instalem a ADSL em casa. Estou farto de telefonar a reclamar e ninguém se incomoda. Haja paciência.
A hora crioula está tão enraizada nas pessoas que acaba por ter efeitos muito perversos na sociedade, especialmente na produtividade e na qualidade dos serviços. Por exemplo, estou há 6 dias à espera que me instalem a ADSL em casa. Estou farto de telefonar a reclamar e ninguém se incomoda. Haja paciência.
10 Janeiro, 2005
Vamos aos saldos?
Muita gente tem a ideia que com 5 euros, em Cabo Verde são reis e senhores. Desenganem-se. Hoje, por exemplo, fui às compras, essencialmente comida, e gastei 100 euros, sem, no entanto, trazer nada de significativo para casa. As coisas, em Cabo Verde, têm pelo menos o dobro do preço do que em Portugal. De facto, muitos dos produtos vendidos acabam por ser os mesmos, acrescidos dos custos de viagem e dos ganhos dos, pelo menos, dez intermediários.
Esta realidade acaba por ser chocante, pois a maior parte da população não trabalha e os que têm trabalho, têm um ordenado médio a rondar os 100 euros. Ainda para mais, com a enorme carência de água, já são poucos os que conseguem ter a sua própria horta ou animais. Assim, devem estar a perguntar-se, como consegue a população sobreviver? A questão é para mim recorrente. Dizem-me que é á custa do dinheiro vindo da emigração e de uma vida de sacrifício, restringida ao essencial, isenta de luxos e de custos supérfluos.
Pergunta-se o Jorge, no Africanidades, “como podemos nós, ocidentais, lidar com a nossa condição, sem nos sentirmos culpados por isso? Será que nos devemos sentir culpados? Porque temos nós tudo e outros tão pouco ou nada mesmo? O que podemos fazer para diminuir esse fosso? E como fazer para não tornar esse fosso cada vez maior?”
Esta realidade acaba por ser chocante, pois a maior parte da população não trabalha e os que têm trabalho, têm um ordenado médio a rondar os 100 euros. Ainda para mais, com a enorme carência de água, já são poucos os que conseguem ter a sua própria horta ou animais. Assim, devem estar a perguntar-se, como consegue a população sobreviver? A questão é para mim recorrente. Dizem-me que é á custa do dinheiro vindo da emigração e de uma vida de sacrifício, restringida ao essencial, isenta de luxos e de custos supérfluos.
Pergunta-se o Jorge, no Africanidades, “como podemos nós, ocidentais, lidar com a nossa condição, sem nos sentirmos culpados por isso? Será que nos devemos sentir culpados? Porque temos nós tudo e outros tão pouco ou nada mesmo? O que podemos fazer para diminuir esse fosso? E como fazer para não tornar esse fosso cada vez maior?”
09 Janeiro, 2005
Efeito borboleta
Ontem revi um dos filmes que gostei mais de ver nos últimos tempos. Efeito Borboleta. Este é um daqueles filmes que põe um gajo a pensar. A história, em traços simples, é a de um rapaz (Evan) que descobre uma forma de alterar algumas coisas do seu passado. Para isso ele decide realizar uma regressão, onde volta também fisicamente ao seu corpo de criança, revivendo e alterando determinadas situações. Ele altera atitudes e muda completamente o seu destino, de sua namorada e amigos. Porém ao tentar corrigir alguns dos seus antigos problemas ele termina por criar novos, já que toda mudança que realiza gera consequências em seu futuro. Mas Evan rapidamente descobre que ter o dom de manipular o passado, não significa controlar o futuro.
Quantos de nós já não pensámos que se tivéssemos tomado, num determinado momento, uma decisão em vez de outra que hoje a nossa vida seria completamente diferente? Pois bem, o filme explora essa ideia ao limite, e faz-me pensar que, mesmo em momentos chaves da minha vida, se tivesse decidido de outra forma, não significaria que hoje estaria melhor. Nós somos o nosso passado e se o nosso passado fosse outro seríamos talvez também outros, não necessariamente melhores ou piores, simplesmente diferentes. Por outro lado, relembra-me que as decisões que tomo hoje podem ter uma grande importância no meu futuro, destino, sei lá. Mesmo as mais insignificantes.
Nota: O título deste filme tem origem na Teoria do Caos, segundo a qual pequenas diferenças nas condições iniciais de um sistema podem conduzir a diferenças bastante significativas no resultado final. Em 1961, Edward Lorenz trabalhava num modelo computacional de previsão meteorológica. Num procedimento, em vez de colocar o número inicial 0,506127, arredondou-o para 0,506. A diferença de apenas milésimos provocou resultados finais totalmente distintos e com erros catastróficos. Daí aquela frase “um bater de asas de uma borboleta em Portugal poderá provocar um tornado na Austrália”. Isto é o Efeito Borboleta.
Quantos de nós já não pensámos que se tivéssemos tomado, num determinado momento, uma decisão em vez de outra que hoje a nossa vida seria completamente diferente? Pois bem, o filme explora essa ideia ao limite, e faz-me pensar que, mesmo em momentos chaves da minha vida, se tivesse decidido de outra forma, não significaria que hoje estaria melhor. Nós somos o nosso passado e se o nosso passado fosse outro seríamos talvez também outros, não necessariamente melhores ou piores, simplesmente diferentes. Por outro lado, relembra-me que as decisões que tomo hoje podem ter uma grande importância no meu futuro, destino, sei lá. Mesmo as mais insignificantes.
Nota: O título deste filme tem origem na Teoria do Caos, segundo a qual pequenas diferenças nas condições iniciais de um sistema podem conduzir a diferenças bastante significativas no resultado final. Em 1961, Edward Lorenz trabalhava num modelo computacional de previsão meteorológica. Num procedimento, em vez de colocar o número inicial 0,506127, arredondou-o para 0,506. A diferença de apenas milésimos provocou resultados finais totalmente distintos e com erros catastróficos. Daí aquela frase “um bater de asas de uma borboleta em Portugal poderá provocar um tornado na Austrália”. Isto é o Efeito Borboleta.
08 Janeiro, 2005
Fazer o que tem de ser feito
Estou farto de ver o país refém de acordos de conveniência e de interesses partidários, quase sempre castradores de algum laivo reformador. Todos exigem mudanças profundas e reformas nas políticas governativas. Mas fazer reformas não é fácil. Os resultados de uma reforma não aparecem no imediato. È impopular, faz perder votos, mexe com interesses instalados e por vezes dói. Assim, para “fazer o que tem de ser feito” é necessário coragem e acima de tudo condições políticas. Ou seja, é necessário um governo de gente competente, sem medo de ser criticado ou de não ser reeleito, apoiado por uma maioria. Absoluta, para não haver desculpas. Infelizmente ainda existe um trauma pós-cavaquista quanto às maiorias absolutas. Para gáudio de alguns, pena minha e desgraça do país.
07 Janeiro, 2005
Dia do Professor
Sei como é importante transmitir alegria e segurança aos meus alunos. Se mostro não gostar de uma matéria eles também não gostarão; Se mostro estar aborrecido na aula eles ficarão aborrecidos; Se não mostro prazer em ensinar, eles não terão prazer em aprender.
Contudo, há certas aulas que me deixam frustrado, desanimado, chateado. Em especial, aquelas aulas em que o empenho por mim manifestado, tanto na sua preparação como na sua execução, não é devidamente recompensado pelos alunos. Preocupo-me em explicar bem e eles nem sequer ouvem.
Sei, porém, que vou ter muitas aulas destas e só espero que continue a ficar chateado, pois é sinal de que eles ainda não me são indiferentes. De facto, se ignorarmos os nossos alunos não nos vamos preocupar com a nossa maneira de dar aulas e aí começaremos a ficar negligentes. E ficando negligentes tornamo-nos, inevitavelmente, maus professores.
Contudo, há certas aulas que me deixam frustrado, desanimado, chateado. Em especial, aquelas aulas em que o empenho por mim manifestado, tanto na sua preparação como na sua execução, não é devidamente recompensado pelos alunos. Preocupo-me em explicar bem e eles nem sequer ouvem.
Sei, porém, que vou ter muitas aulas destas e só espero que continue a ficar chateado, pois é sinal de que eles ainda não me são indiferentes. De facto, se ignorarmos os nossos alunos não nos vamos preocupar com a nossa maneira de dar aulas e aí começaremos a ficar negligentes. E ficando negligentes tornamo-nos, inevitavelmente, maus professores.
15 Dezembro, 2004
Os testes
Ontem dei os testes no 8º ano. Quatro horas seguidas a vigiar os alunos. O que é uma grande seca. O relógio parece que não avança. Pelo menos para mim. Mas, o mais chato vem agora. A correcção. 4 turmas. 160 testes. Vai ser um fim de semana em cheio.
Contudo, enquanto vigio os testes, acabo por observar coisas muito interessantes. Uma delas é o uso do corrector. Os alunos adoram usá-lo. Acho que até se enganam de propósito. Quem fica a perder são os, dois ou três, donos dos correctores. Porém, nunca vi um aluno recusar emprestar, o que quer que fosse, a um colega.
A este propósito dos testes, recordo-me da primeira vez que usei cábulas na minha vida. 8º ano, teste de biologia. As cábulas eram daquelas pequeninas que se colocam na palma da mão. A verdade é que nem as consegui usar de tão nervoso que estava. O pior foi quando o professor foi recolher o meu teste, fui um dos últimos a sair, e me pediu para abrir a mão e mostrar o que estava a esconder. Recordo-me perfeitamente de ele olhar para mim e dizer – Fecha a mão e não digas nada a ninguém.
Contudo, enquanto vigio os testes, acabo por observar coisas muito interessantes. Uma delas é o uso do corrector. Os alunos adoram usá-lo. Acho que até se enganam de propósito. Quem fica a perder são os, dois ou três, donos dos correctores. Porém, nunca vi um aluno recusar emprestar, o que quer que fosse, a um colega.
A este propósito dos testes, recordo-me da primeira vez que usei cábulas na minha vida. 8º ano, teste de biologia. As cábulas eram daquelas pequeninas que se colocam na palma da mão. A verdade é que nem as consegui usar de tão nervoso que estava. O pior foi quando o professor foi recolher o meu teste, fui um dos últimos a sair, e me pediu para abrir a mão e mostrar o que estava a esconder. Recordo-me perfeitamente de ele olhar para mim e dizer – Fecha a mão e não digas nada a ninguém.
14 Dezembro, 2004
Talvez o meu amigo esteja certo
No outro dia, dizia-me um amigo americano que as mulheres só querem homens com poder e/ou com dinheiro e/ou com fama. Argumentei contra. Disse-lhe que possivelmente ele tinha tido más experiências e que nem todas as mulheres são assim.No entanto, não posso deixar de concordar com ele em parte. De facto, o que faz mover os homens é a ambição de ter poder. Nem que seja um poder relativo, sobre qualquer coisa ou grupo. Sob diversas formas. Através de dinheiro, de um emprego, de bom ou mau aspecto, de humor ou charme, de simpatia ou autoridade, de luxo ou bens materiais, de uma posição social ou um estilo de vida,... Esta procura de poder talvez tenha que ver com a necessidade de satisfazer o nosso eu, através de mulheres ou de elogios (vaidade, talvez), na procura desesperada da felicidade. Talvez seja por isso que existem tantos frustrados e tantas infidelidades. Não sei. Talvez.
Desabafos (II)
Lembro-me de, quando era criança, pensar que não tinha problemas. Melhor, os meus problemas eram, apenas, os problemas outros. Pensava então que se os outros não tivessem problemas eu também não teria. Hoje, além dos problemas dos outros, já tenho os meus. E, estes, chegam. Possivelmente, agora os meus problemas serão também os problemas de alguém. Porém, faço por isso não acontecer, porque sinceramente sei que os problemas de cada um são mais do que suficientes. Chego mesmo à conclusão que, por vezes, a ignorância, de certas coisas, faz de nós pessoas mais felizes. Não quero dizer que não se deva partilhar problemas e pedir ajuda. Claro que se deve. Mas só no caso de daí advir algum beneficio, para nós ou para o outro. Se não, num acto altruísta, mais vale ser egoísta e ficar com os problemas só para nós. Tenho dito.
13 Dezembro, 2004
As propinas
Acabo de sair de uma reunião de directores de turma, com o fim de esclarecer algumas questões relativas ao pagamento de propinas. Sim, porque aqui, apesar (ou por isso) de Cabo Verde ser um país pobre os alunos que querem estudar pagam propinas. Desde o 7º ano até ao 12º ano. As propinas variam entre os 12 e 180 Euros anuais. O critério é o rendimento do agregado familiar. Ou melhor, deveria ser, mas, de facto não é. À escola interessa ganhar dinheiro, pois é deste dinheiro que a escola faz o seu orçamento. Assim, considera-se como agregado familiar os que estão a viver em casa e os, eventuais, pais emigrantes (mesmo que vivam com outra família e/ou que não enviem dinheiro). A Situação é de facto muito complexa, e na maior parte dos casos injusta. Ainda para mais, não é considerado nem o número de irmãos (que, aqui, varia entre os 10 e os 15!), nem sequer o números de irmãos estudantes, nem outras variáveis importantes.
Como deve calcular, este esquema de propinas gera muitas injustiças. Pior, condiciona o ensino a apenas aqueles que têm posses. Para muitas famílias 5 Euros por mês é muito dinheiro. Ainda para mais, como só existe um liceu na ilha, muitos alunos têm de pagar transporte para se deslocarem até à escola (cerca de 2 Euros diários). Assim, muitos alunos, alguns com enormes capacidades, ficam de fora do sistema de ensino (apesar de haver um sistema de apoio social).
Neste aspecto, Cabo Verde faz-me lembrar o Portugal que o meu pai me falava existir à 50 anos atrás. Um Portugal discriminatório dos mais carenciados, incapaz de fazer justiça social. Talvez seja esta uma das diferenças entre países sub-desenvolvidos e países desenvolvidos. Em países ricos e países pobres. Ou então não.
Como deve calcular, este esquema de propinas gera muitas injustiças. Pior, condiciona o ensino a apenas aqueles que têm posses. Para muitas famílias 5 Euros por mês é muito dinheiro. Ainda para mais, como só existe um liceu na ilha, muitos alunos têm de pagar transporte para se deslocarem até à escola (cerca de 2 Euros diários). Assim, muitos alunos, alguns com enormes capacidades, ficam de fora do sistema de ensino (apesar de haver um sistema de apoio social).
Neste aspecto, Cabo Verde faz-me lembrar o Portugal que o meu pai me falava existir à 50 anos atrás. Um Portugal discriminatório dos mais carenciados, incapaz de fazer justiça social. Talvez seja esta uma das diferenças entre países sub-desenvolvidos e países desenvolvidos. Em países ricos e países pobres. Ou então não.
11 Dezembro, 2004
Desabafos (I)
Gostava de ter o talento dos grandes escritores para poder traduzir em palavras tudo o que me passa pela minha cabeça. Ideias. Sensações. Sentimentos. Opiniões. Dizem que tenho outros talentos. Desaproveitados. Subaproveitados. De facto, não passo de um daqueles gajos que se desenrasca em quase tudo, mas que não se consegue destacar numa só coisa. Até podia. Bastava, talvez, me dedicar a uma coisa que gostasse a sério. Mas para isso é preciso perseverança. E eu sou pouco perseverante. Sempre me bastou saber que era capaz de lá chegar. Sem nunca lá chegar. Se eu provar, para mim mesmo, que sou capaz de uma coisa, isso me chega. Não preciso fazê-la. Não sou gabarolas. Talvez seja convencido. Ou então, talvez não tenha coragem de perder. Por uma vez.
08 Dezembro, 2004
Um dos poucos exemplos tristes de São Nicolau
Por viver na vila, local mais importante da ilha de São Nicolau, nem sempre me apercebo das carências e das dificuldades que as pessoas passam. Mas a vila não é um exemplo do modo de vida da maior parte dos Cabo verdianos. De facto, a realidade é muito diferente. A maior parte da população vive com enormes dificuldades, colocando muitas famílias, e até localidades, em situações de pobreza extrema.
Apesar de muitas situações estarem escondidas, há sempre algumas que se vêm a saber. Em São Nicolau, descobriu-se agora um caso de abusos sexuais com menores. Ao que parece, três meninas, de idades compreendidas entre 10 e 14 anos, actuais, foram aliciadas para terem relações sexuais com um conjunto de homens, inclusive um professor primário, de uma determinada localidade da ilha. A situação permaneceu escondida durante anos, tendo vindo a ser descoberta agora.
Esta situação agora descoberta, apesar de não ser frequente, não me espanta. Penso, no entanto, que as coisas mais graves ocorrem dentro das próprias famílias, no interior das suas casas e que só não se sabem por cumplicidades familiares, vergonha e pelo facto de a mulher ainda ter um papel menor perante a sociedade. Aliado ao problema do alcoolismo existem muitos outros factores que favorecem estas situações. Existem famílias inteiras a compartilharem apenas uma divisão ou mesmo uma só cama. Ainda para mais, aqui é muito normal uma mãe ter filhos de outros relacionamentos a viver consigo. Além disso, existe uma cultura de promiscuidade entre homens e mulheres completamente aceite e enraizada na sociedade. A vida sexual começa muito cedo, sendo a gravidez precoce uma realidade. Aqui a palavra pedofilia também tem um significado diferente, pois não está associada à idade mas sim ao corpo.
Estou certo que esta realidade não é exclusiva de África. Muito menos de Cabo Verde. Infelizmente, esta realidade está em todo a lado. No entanto, a cultura de um país, por muito diferente que seja, não pode ser desculpa, nem escape, para situações completamente reprováveis e contrárias aos direitos dos homens e das crianças.
Apesar de muitas situações estarem escondidas, há sempre algumas que se vêm a saber. Em São Nicolau, descobriu-se agora um caso de abusos sexuais com menores. Ao que parece, três meninas, de idades compreendidas entre 10 e 14 anos, actuais, foram aliciadas para terem relações sexuais com um conjunto de homens, inclusive um professor primário, de uma determinada localidade da ilha. A situação permaneceu escondida durante anos, tendo vindo a ser descoberta agora.
Esta situação agora descoberta, apesar de não ser frequente, não me espanta. Penso, no entanto, que as coisas mais graves ocorrem dentro das próprias famílias, no interior das suas casas e que só não se sabem por cumplicidades familiares, vergonha e pelo facto de a mulher ainda ter um papel menor perante a sociedade. Aliado ao problema do alcoolismo existem muitos outros factores que favorecem estas situações. Existem famílias inteiras a compartilharem apenas uma divisão ou mesmo uma só cama. Ainda para mais, aqui é muito normal uma mãe ter filhos de outros relacionamentos a viver consigo. Além disso, existe uma cultura de promiscuidade entre homens e mulheres completamente aceite e enraizada na sociedade. A vida sexual começa muito cedo, sendo a gravidez precoce uma realidade. Aqui a palavra pedofilia também tem um significado diferente, pois não está associada à idade mas sim ao corpo.
Estou certo que esta realidade não é exclusiva de África. Muito menos de Cabo Verde. Infelizmente, esta realidade está em todo a lado. No entanto, a cultura de um país, por muito diferente que seja, não pode ser desculpa, nem escape, para situações completamente reprováveis e contrárias aos direitos dos homens e das crianças.
07 Dezembro, 2004
Alunos portugueses são dos piores na Matemática
O relatório do PISA coloca, novamente, Portugal nos últimos lugares do "ranking" da OCDE. Segundo o Público, mais de metade dos alunos portugueses com 15 anos têm níveis de literacia matemática baixos, ou seja, não conseguem mais do que fazer tarefas simples.
Contudo, desconfio da forma como foram feitos estes testes. Sei muito bem como é que em Portugal funciona a escolha dos alunos que vão fazer as provas. Normalmente, são voluntários, muitos deles desinteressados, que procuram apenas uma dispensa justificada das aulas. Não sei como é nos outros países, mas tenho quase a certeza que os alunos não são seleccionados com esta leviandade.
Contudo, desconfio da forma como foram feitos estes testes. Sei muito bem como é que em Portugal funciona a escolha dos alunos que vão fazer as provas. Normalmente, são voluntários, muitos deles desinteressados, que procuram apenas uma dispensa justificada das aulas. Não sei como é nos outros países, mas tenho quase a certeza que os alunos não são seleccionados com esta leviandade.
06 Dezembro, 2004
Página de um diário - 6/12/2003
Estou deitado na cama. Estou super cansado. Procuro a palavra certa para descrever o que sinto mas não encontro. A noite anterior foi muito mal dormida. A ansiedade e o medo de perder a hora do avião fizeram com que apenas dormisse 3 horas. Os meus pais, a Fernanda, a Marta, o Pedro e o meu irmão Cláudio acompanharam-me até ao aeroporto. A Helga chegou depois, e pela sua expressão, acredito que chorou muito. Na hora de embarque não consegui evitar uma lágrima, ao sentir o abraço apertado da minha mãe. Carregado de malas nas mãos, parti sem olhar para trás.
Nunca tinha andado de avião. Confesso que fiquei com medo. O avião era velho e inseguro (pelo menos para mim). A hora de descolar foi a mais difícil. Depois tudo bem. Pelo menos até á aterragem ... mas as palmas foram merecidas. Quando chegámos à Ilha do Sal, a minha primeira impressão foi a de ter entrado num filme de cowboys e de estar no western. Tudo muito calmo, um sol quente mas suportável. Um deserto. No entanto fiquei com uma boa impressão. A receber-nos estava o representante da embaixada, o Dr. Mário. Fomos com ele, de táxi, até a uma esplanada no centro, onde estava marcada uma reunião com os cooperantes do Sal. Após comermos qualquer coisa os nossos colegas chegaram. Só uma rapariga é que nos fala, os outros parecem ignorar-nos. No final já todos pareciam mais simpáticos. Senti, em quase todos, uma expressão de solidão. Será que é isso que me espera?
A hora da ligação do voo para São Nicolau aproximou-se rapidamente. Apanhámos um táxi e embarcámos num avião que ainda parecia mais velho. São Nicolau vista de cima parece um deserto montanhoso. Tudo é castanho e não parece haver vegetação. Chegados em terra rapidamente nos apercebemos que estamos numa zona pobre muito carenciada de infraestruturas. Durante alguns momentos ficámos suspensos sem saber para onde ir e o que fazer. Todos nos perguntavam se queríamos um táxi. Até que o director da escola, Luis Morais, nos aborda. Acho que é porreiro. Deve ter uns 30 anos e parece ser uma pessoa muito calma e acessível. Do aeroporto até à Vila de Ribeira Brava são 4 km de distância que são percorridos em 15 minutos. Viémos de Hiace, que são os autocarros daqui. A Ilha é muito acidentada e tem imensas montanhas. Avista-se alguma vegetação. A estrada é de calçada e com muitas curvas. Curvas que evitam enormes precipícios. Talvez seja por isso que numa dessas curvas avistei um cemitério...
Ribeira Brava comemora hoje o seu feriado municipal. De longe reparei numa bancada, de um jogo de futebol, cheia de gente. As ruas da vila são estreitas rodeadas de casas humildes quase todas inacabadas. As pessoas pareciam que nos ignoravam. Até que ficámos parados no trânsito. O jogo de futebol tinha terminado e as pessoas, essencialmente homens, ao sair do campo provocaram um caos no trânsito. Muita gente passou por nós. Confesso que foi muito intimidatório ao ponto de a Helga me pedir para a abraçar.
Chegámos à pensão onde está o nosso apartamento. Pensão Jardim, tal qual a Helga tinha apostado. Deve-lho uma lagosta. O apartamento tem as condições mínimas e tem tudo o que é necessário, excepto uma barata ... O jantar foi aqui mesmo na pensão. Peixe, claro. Eu comi garoupa grelhada e acompanhada por batatas fritas e arroz. Estava bom. Hoje, decidi dormir cedo, pois estou cansados. Continua-se a ouvir a festa e a música, mas não me parece que a oiça por muito mais tempo ...
Nunca tinha andado de avião. Confesso que fiquei com medo. O avião era velho e inseguro (pelo menos para mim). A hora de descolar foi a mais difícil. Depois tudo bem. Pelo menos até á aterragem ... mas as palmas foram merecidas. Quando chegámos à Ilha do Sal, a minha primeira impressão foi a de ter entrado num filme de cowboys e de estar no western. Tudo muito calmo, um sol quente mas suportável. Um deserto. No entanto fiquei com uma boa impressão. A receber-nos estava o representante da embaixada, o Dr. Mário. Fomos com ele, de táxi, até a uma esplanada no centro, onde estava marcada uma reunião com os cooperantes do Sal. Após comermos qualquer coisa os nossos colegas chegaram. Só uma rapariga é que nos fala, os outros parecem ignorar-nos. No final já todos pareciam mais simpáticos. Senti, em quase todos, uma expressão de solidão. Será que é isso que me espera?
A hora da ligação do voo para São Nicolau aproximou-se rapidamente. Apanhámos um táxi e embarcámos num avião que ainda parecia mais velho. São Nicolau vista de cima parece um deserto montanhoso. Tudo é castanho e não parece haver vegetação. Chegados em terra rapidamente nos apercebemos que estamos numa zona pobre muito carenciada de infraestruturas. Durante alguns momentos ficámos suspensos sem saber para onde ir e o que fazer. Todos nos perguntavam se queríamos um táxi. Até que o director da escola, Luis Morais, nos aborda. Acho que é porreiro. Deve ter uns 30 anos e parece ser uma pessoa muito calma e acessível. Do aeroporto até à Vila de Ribeira Brava são 4 km de distância que são percorridos em 15 minutos. Viémos de Hiace, que são os autocarros daqui. A Ilha é muito acidentada e tem imensas montanhas. Avista-se alguma vegetação. A estrada é de calçada e com muitas curvas. Curvas que evitam enormes precipícios. Talvez seja por isso que numa dessas curvas avistei um cemitério...
Ribeira Brava comemora hoje o seu feriado municipal. De longe reparei numa bancada, de um jogo de futebol, cheia de gente. As ruas da vila são estreitas rodeadas de casas humildes quase todas inacabadas. As pessoas pareciam que nos ignoravam. Até que ficámos parados no trânsito. O jogo de futebol tinha terminado e as pessoas, essencialmente homens, ao sair do campo provocaram um caos no trânsito. Muita gente passou por nós. Confesso que foi muito intimidatório ao ponto de a Helga me pedir para a abraçar.
Chegámos à pensão onde está o nosso apartamento. Pensão Jardim, tal qual a Helga tinha apostado. Deve-lho uma lagosta. O apartamento tem as condições mínimas e tem tudo o que é necessário, excepto uma barata ... O jantar foi aqui mesmo na pensão. Peixe, claro. Eu comi garoupa grelhada e acompanhada por batatas fritas e arroz. Estava bom. Hoje, decidi dormir cedo, pois estou cansados. Continua-se a ouvir a festa e a música, mas não me parece que a oiça por muito mais tempo ...
02 Dezembro, 2004
A Sexta-feira
Adoro os fins de tarde de sexta feira. Parece que o cansaço, acumulado ao longo da semana, se esvai com o toque do sino da última aula. A sensação de não ter nada para fazer me invade e me devolve a liberdade. Confesso, que gosto não ter nada para fazer, para poder fazer o que me apetece. E neste momento, apetece-me deitar, e ficar a olhar para o tecto até os meus olhos fecharem de vontade. Até logo.
01 Dezembro, 2004
A Sida na escola
Em Cabo verde, o dia mundial de luta contra a sida é vivido de uma maneira especial. Este ano não fugia à regra. Na escola fizeram-se algumas actividades significativas sobre a sida e a sua prevenção. Além de os alunos terem oportunidade de participar num colóquio sobre sida, com a presença de uma médica e um seropositivo, puderam, na escola, realizar o teste da Sida. A maior parte dos alunos aderiu, sem preconceitos, sem medo. Note que em Cabo Verde a vida sexual começa muito cedo (tenho alguns alunos do 8º ano que já são pais!), sendo a gravidez precoce muito frequente. Além disso, culturalmente, o povo Cabo-verdiano é muito promíscuo quanto aos relacionamentos sexuais, pois a maior parte dos homens têm várias mulheres (e as mulheres vários homens).
Na ilha de São Nicolau, são do conhecimento da delegação de saúde apenas 3 casos de pessoas infectadas com o vírus da sida. Contudo, só 1% da população se sujeitou ao teste de controlo. Aqui os preservativos são gratuitos e, pelo menos, os estudante estão bem informados quanto aos riscos que correm ao terem relações sexuais sem protecção. No entanto, isso não garante nada por si mesmo.
A este propósito, recordo-me de ter assistido ao testemunho de um homem, com cerca de 50 anos, que contava que nunca tinha usado camisinha. Dizia ele que não precisava. A razão era simples. Vivia uma vida de fidelidade com a sua esposa. Um exemplo.
Na ilha de São Nicolau, são do conhecimento da delegação de saúde apenas 3 casos de pessoas infectadas com o vírus da sida. Contudo, só 1% da população se sujeitou ao teste de controlo. Aqui os preservativos são gratuitos e, pelo menos, os estudante estão bem informados quanto aos riscos que correm ao terem relações sexuais sem protecção. No entanto, isso não garante nada por si mesmo.
A este propósito, recordo-me de ter assistido ao testemunho de um homem, com cerca de 50 anos, que contava que nunca tinha usado camisinha. Dizia ele que não precisava. A razão era simples. Vivia uma vida de fidelidade com a sua esposa. Um exemplo.
Perguntas retóricas
Como devem calcular, um professor, tem a tendência para fazer perguntas retóricas enquanto explica a matéria. Pois bem, em Cabo Verde é escusado. Nenhuma pergunta que faço fica sem resposta. Seja retórica ou não. Pior, as retóricas, normalmente, são respondidas em coro. Já tentei explicar que algumas perguntas que faço não são para responderem. São perguntas para ficarem no ar. Para eles pensarem para si. Mas acho que eles não perceberam a lógica da coisa. Se é que há lógica nisso!
30 Novembro, 2004
Educai-os ou suportai-os!
Quando eu fui aluno do ensino básico e secundário era um pouco indisciplinado. O palhaço da turma. Quase todos os dias vinha para a rua. Porém, nunca fui mal educado e até sentia uma certa simpatia dos professores por mim. Além disso, conseguia tirar boas notas nos testes o que aliviava a pressão em casa. Contudo os professores teimavam em baixar-me a nota por causa do comportamento. Recordo-me de nessas alturas discutir com os professores e defender que os comportamentos não deviam ser avaliados. A minha tese era esta: Se aprendo, mesmo não estando com atenção, o professor não tem nada a ver com isso. Imagine que é essa a minha maneira de aprender!
Agora que estou no papel de professor vejo-me confrontado com a situação de avaliar comportamentos. Se a início tinha dificuldade em compreender tal avaliação, agora compreendo e aceito-a perfeitamente. Ora se queremos que os nossos alunos aprendam mais que a simples matéria, então temos que avaliar mais do que os conhecimentos científicos. Se exigimos que os alunos tenham um comportamento adequado então também teremos que o avaliar.
Existe muitas vezes a ideia de que a disciplina não deve ser imposta aos alunos, devendo ser instaurada de uma forma que eles entendam o sentido e a razão para o qual é necessária. Contudo, se este princípio é válido para alunos mais velhos, para alunos mais novos, as coisas tornam-se mais complicadas... De facto não cabe às crianças definir as regras da disciplina. É demasiado para elas. Ao professor é que cabe enunciá-las e impô-las. Pretendo deixar marcas positivas nos meus alunos, que têm que ir muito mais além do que os simples conhecimentos matemáticos...
Agora que estou no papel de professor vejo-me confrontado com a situação de avaliar comportamentos. Se a início tinha dificuldade em compreender tal avaliação, agora compreendo e aceito-a perfeitamente. Ora se queremos que os nossos alunos aprendam mais que a simples matéria, então temos que avaliar mais do que os conhecimentos científicos. Se exigimos que os alunos tenham um comportamento adequado então também teremos que o avaliar.
Existe muitas vezes a ideia de que a disciplina não deve ser imposta aos alunos, devendo ser instaurada de uma forma que eles entendam o sentido e a razão para o qual é necessária. Contudo, se este princípio é válido para alunos mais velhos, para alunos mais novos, as coisas tornam-se mais complicadas... De facto não cabe às crianças definir as regras da disciplina. É demasiado para elas. Ao professor é que cabe enunciá-las e impô-las. Pretendo deixar marcas positivas nos meus alunos, que têm que ir muito mais além do que os simples conhecimentos matemáticos...
29 Novembro, 2004
A diferença entre os gajos e as gajas
Durante os 6 anos que passei em Lisboa a estudar fui a muitas festas universitárias. Como vivia numa residência universitária, quando saíamos, íamos em grandes grupos. Foi nessas festas que me apercebi da real diferença entre homens e mulheres.
Os homens quando estão juntos e reparam num grupo de raparigas, normalmente, combinam entre si quem fica com quem. Normalmente, não há grandes problemas em chegar a acordo. Utiliza-se a técnica do mais feio, para a mais feia e assim sucessivamente. Sempre no maior espírito de solidariedade.
Já as mulheres quando estão em grupo e reparam num grupo de rapazes, quase sempre, escolhem o mesmo rapaz como o seu alvo. O espiríto de competição apodera-se delas. E a partir daí é um desfile de exibicionismo e atrevimento. Quase sempre a mais atrevida fica com o rapaz em causa. As outras com quem aparecer.
Os homens quando estão juntos e reparam num grupo de raparigas, normalmente, combinam entre si quem fica com quem. Normalmente, não há grandes problemas em chegar a acordo. Utiliza-se a técnica do mais feio, para a mais feia e assim sucessivamente. Sempre no maior espírito de solidariedade.
Já as mulheres quando estão em grupo e reparam num grupo de rapazes, quase sempre, escolhem o mesmo rapaz como o seu alvo. O espiríto de competição apodera-se delas. E a partir daí é um desfile de exibicionismo e atrevimento. Quase sempre a mais atrevida fica com o rapaz em causa. As outras com quem aparecer.
27 Novembro, 2004
Também não se pode ter tudo: as férias e ordenado!
Hoje, ser professor é mais do que um desafio é um acto de coragem. As condições de vida dos professores degradaram-se, ninguém duvide. Aliás, toda a gente reconhece que o ensino está em crise. Parece-me óbvio: se quisermos um melhor ensino, temos que ter melhores professores. Ter melhores professores implica dar à profissão condições mais atractivas.
O único critério para a colocação de professores é a média. Um número. O computador trata do resto. Desta forma, a colocação de professores faz-se sem o mínimo de subjectividade. Mas isto acontece em mais alguma profissão? Mas há alguma empresa que recruta alguém sem fazer uma entrevista, sem conhecer os candidatos, sem saber das suas motivações? Todas essas coisas que levam a sentir afinidades ou repulsas, prazer ou mal estar, tudo o que mostra que somos um ser humano, tudo o que traduz essa estranha vocação de professor, tudo isso é pura e simplesmente ignorado.
Defendo que se premei a qualidade. Por isso não me choca que os professores sejam avaliados, aliás, é o que acontece em qualquer empresa. Como sabemos a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Aliás, muitos professores gostam desta profissão por isso mesmo. O receio de ser despedido ou de não ser promovido de forma automática é que parece justificar esse apego desesperado à segurança por parte de tantos professores. Constato que é muito fácil cair na rotina, no comodismo, no facilitismo. Mas será isso benéfico para o ensino? Pessoalmente, para ser feliz, eu preciso que reconheçam o valor ou a ausência de valor do meu trabalho. Embora não seja isso que me faz funcionar. Embora eu não procure agradar, preciso que os outros me digam sinceramente o que pensam do que eu faço.
O único critério para a colocação de professores é a média. Um número. O computador trata do resto. Desta forma, a colocação de professores faz-se sem o mínimo de subjectividade. Mas isto acontece em mais alguma profissão? Mas há alguma empresa que recruta alguém sem fazer uma entrevista, sem conhecer os candidatos, sem saber das suas motivações? Todas essas coisas que levam a sentir afinidades ou repulsas, prazer ou mal estar, tudo o que mostra que somos um ser humano, tudo o que traduz essa estranha vocação de professor, tudo isso é pura e simplesmente ignorado.
Defendo que se premei a qualidade. Por isso não me choca que os professores sejam avaliados, aliás, é o que acontece em qualquer empresa. Como sabemos a profissão de professor proporciona inúmeras situações de não ser exercida. Aliás, muitos professores gostam desta profissão por isso mesmo. O receio de ser despedido ou de não ser promovido de forma automática é que parece justificar esse apego desesperado à segurança por parte de tantos professores. Constato que é muito fácil cair na rotina, no comodismo, no facilitismo. Mas será isso benéfico para o ensino? Pessoalmente, para ser feliz, eu preciso que reconheçam o valor ou a ausência de valor do meu trabalho. Embora não seja isso que me faz funcionar. Embora eu não procure agradar, preciso que os outros me digam sinceramente o que pensam do que eu faço.
26 Novembro, 2004
Português versus Crioulo
A língua oficial de Cabo Verde é o português. Contudo, é uma língua que só é usada em actos oficiais ou formais. Quase ninguém fala português informalmente. Pode-se dizer que a língua materna seja o Crioulo. As crianças só aprendem a falar português quando entram para a escola primária. Por isso, o português funciona como uma segunda língua língua. De facto, nem chegam a ser bilíngues.
Apesar de já estar em Cabo verde há um ano ainda não sei falar crioulo. Entendo algumas coisas. Mas falar, ainda não. Talvez porque não tenho necessidade de aprender, visto toda a gente me entender perfeitamente. Além disso, as pessoas são simpáticas e, normalmente, esforçam-se em falar português comigo.
O crioulo é uma linguagem simples, cheia de palavras em português ligeiramente modificadas. Não existe uma gramática. Não existem muitas regras. Porém tem um senão. O crioulo não é uniforme em todas as ilhas de Cabo verde. Há diferenças substanciais. Outra dificuldade é a escrita, pois cada um escreve como fala.
Apesar de já estar em Cabo verde há um ano ainda não sei falar crioulo. Entendo algumas coisas. Mas falar, ainda não. Talvez porque não tenho necessidade de aprender, visto toda a gente me entender perfeitamente. Além disso, as pessoas são simpáticas e, normalmente, esforçam-se em falar português comigo.
O crioulo é uma linguagem simples, cheia de palavras em português ligeiramente modificadas. Não existe uma gramática. Não existem muitas regras. Porém tem um senão. O crioulo não é uniforme em todas as ilhas de Cabo verde. Há diferenças substanciais. Outra dificuldade é a escrita, pois cada um escreve como fala.
25 Novembro, 2004
Avaliação
Ontem recebi uma encarregada de educação de uma aluna, da minha direcção de turma, muito interessada no acompanhamento escolar da filha. A aluna em questão é uma óptima aluna a matemática. Tirou 18 no teste. Tem uma boa participação na aula. Faz os T.P.C.s. Tem um comportamento exemplar. Por isto tudo foi com enorme surpresa que recebi a notícia que ela tinha tirado um 5 no teste da disciplina de Estudo Científico. Chamei a aluna e tentei perceber o porquê dessa nota. A sua timidez não permitiu tirar grandes conclusões. No entanto, a mãe dela, fez-me algumas queixas do professor. Além disso, confirmou-me que a filha tem graves problemas de audição o que não permitem captar tudo o que se passa na aula. Pelo menos naquela. Mais tarde, reparei que havia outros alunos na mesma situação. Por exemplo, o meu melhor aluno a matemática também teve um 5 no teste de Estudo científico.Como se permite que bons alunos tenham estas notas? Como não se detecta nas aulas que o aluno está com dificuldades? Porque se resume tudo a um teste?
Esta disparidade de notas fez-me reflectir sobre a avaliação. De facto, umas vezes, cometemos erros de avaliação porque não conhecemos bem os nossos alunos, outras vezes porque não usamos os critérios mais adequados. Para os alunos, tudo passa pela avaliação. Mas avaliação não deve apenas traduzir um número, uma nota. É necessário que se faça uma avaliação aula a aula, capaz de recolher informações sobre os alunos, mas também capaz de fornecer informações aos alunos de modo a poderem auto-regularem as suas aprendizagens. Por isso a tarefa de avaliar é tão importante e difícil. O acto de avaliar não se resume apenas à recolha de informações sobre os alunos é necessário também saber interpretá-los.
Esta disparidade de notas fez-me reflectir sobre a avaliação. De facto, umas vezes, cometemos erros de avaliação porque não conhecemos bem os nossos alunos, outras vezes porque não usamos os critérios mais adequados. Para os alunos, tudo passa pela avaliação. Mas avaliação não deve apenas traduzir um número, uma nota. É necessário que se faça uma avaliação aula a aula, capaz de recolher informações sobre os alunos, mas também capaz de fornecer informações aos alunos de modo a poderem auto-regularem as suas aprendizagens. Por isso a tarefa de avaliar é tão importante e difícil. O acto de avaliar não se resume apenas à recolha de informações sobre os alunos é necessário também saber interpretá-los.
24 Novembro, 2004
Apenas por amor
A minha sobrinha acaba-me de me perguntar se pretendo casar, ter filhos, constituir família. A pergunta é recorrente. Até percebo porquê. De facto, não é só a minha sobrinha. A minha mãe diz que acha que já não caso. Que ninguém me quer. Que passei da idade. Será mesmo assim? Espero que não. Espero casar e ter filhos. No entanto, o casamento não me diz nada se não for com a mulher que eu ame. Por isso, por muito que pressionem, não me conseguirão empurrar para nenhuma situação que não queira. Nem que não tenho de casar ou constituir família. Isso não me assusta. O que me assusta é não ser feliz. Casado ou não. Não tenho medo em ficar sozinho. Mas claro que penso nisso. Claro que penso. Não vivo obcecado. Talvez preocupado. Não me tornei menos exigente, muito menos prescindi de algum dos meus princípios. Nunca. No entanto, confesso que mudei de atitude em algumas coisas. Estou mais maduro. Já não fico no pedestal à espera que alguém me ganhe. Quero lutar por alguém. Quero ganhar alguém. Estou disposto a amar. A me entregar. A me expor sem medo de perder. A conquistar. A cativar.Tudo por amor. Claro.
23 Novembro, 2004
Parágrafo solto
Dou a aula a todos os alunos, porque eles são todos da mesma turma. Mas cada aluno compreende/aprende de maneira diferente de outro aluno. Cada um tem a sua maneira de aprender e dar aulas é tão simples como falar vinte e tal línguas ao mesmo tempo. O ideal seria dar tratamento diferente para alunos diferentes. Atingir os alunos nos seus diferentes modos de funcionamento é um dos maiores desafios de um professor. Não se pode desinteressar-se daquele que achou a aula fraca e pautar a aula por aquele que achou a aula muito boa senão arrisca-se apenas a que os bons alunos se tornem melhores e que os mais fracos se tornem piores. Não posso esquecer que sou responsável pelo progresso de cada um, tanto do fraco como do brilhante.
21 Novembro, 2004
Treuze
Tudo o que faço na aula está a ser observado pelos meus alunos. Estou em directo. Actuo sem rede. As minhas mínimas reacções são observadas, os meus erros são imediatamente apontados.
Por uma vez, disse numa aula, “treuze” em vez de treze. Valeu-me uma alcunha que me persegue por todo o São Nicolau. O “treuze”. Todos os alunos, fora da sala de aula, me chamam “treuze”. Apesar de ter origem numa gaff minha, confesso que até acho alguma piada a este nominho (alcunha em crioulo). Até ver.
Sinto que os alunos têm um grande carinho por mim. Talvez porque a minha relação com eles, fora da aula, seja também diferente. Jogo futebol com eles nos intervalos. Falo com eles de outras coisas que não a escola. Meto-me com eles quando o Porto perde. Contudo, há uma coisa que já me começa a irritar. A obsessão deles pelo meu cabelo. No percurso até à sala de aula o meu cabelo é completamente estropiado. Especialmente quando estou a abrir a porta da sala de aula com a chave. Nesse momento estou de costas para os alunos que me rodeiam, e eles, anonimamente, são incapazes de resistirem ao meu cabelo. Chego até a chatear-me e a pedir um metro de distância enquanto abro a porta. Enfim...
Por uma vez, disse numa aula, “treuze” em vez de treze. Valeu-me uma alcunha que me persegue por todo o São Nicolau. O “treuze”. Todos os alunos, fora da sala de aula, me chamam “treuze”. Apesar de ter origem numa gaff minha, confesso que até acho alguma piada a este nominho (alcunha em crioulo). Até ver.
Sinto que os alunos têm um grande carinho por mim. Talvez porque a minha relação com eles, fora da aula, seja também diferente. Jogo futebol com eles nos intervalos. Falo com eles de outras coisas que não a escola. Meto-me com eles quando o Porto perde. Contudo, há uma coisa que já me começa a irritar. A obsessão deles pelo meu cabelo. No percurso até à sala de aula o meu cabelo é completamente estropiado. Especialmente quando estou a abrir a porta da sala de aula com a chave. Nesse momento estou de costas para os alunos que me rodeiam, e eles, anonimamente, são incapazes de resistirem ao meu cabelo. Chego até a chatear-me e a pedir um metro de distância enquanto abro a porta. Enfim...
20 Novembro, 2004
Escrever sem pensar
Tinha pensado escrever um post sobre Cabo Verde e as suas particularidades. Gostaria de estar a escrever sobre as promiscuidades existentes. A cultura de relacionamentos. A dissertar sobre as suas causas e consequências. Iria dar exemplos. Alguns muito engraçados. Tenho a certeza que seria muito interessante e que todos gostariam de ler. Mas, hoje não me apetece ordenar tantas ideias. Escrever frases pensadas. Aliás, devia ser sempre assim. Escrever sem pensar. De uma vez. Sem correcções.
Proibido fumar
O governo tem intenção de fazer uma lei que visa proibir o tabaco em locais públicos fechados e locais de trabalho. Ora aí está uma boa notícia. Porque raio é que eu, sendo não fumador, tenho de fumar o fumo dos outros? Porque tenho de me sujeitar ao incómodo de ficar com a roupa e cabelo a cheirar a fumo? Porque tenho de ser eu a mudar de lugar quando o fumo de um cigarro está a incomodar-me? Será que os fumadores não sabem que a sua liberdade termina quando interfere com a liberdade dos outros? Será que os fumadores não sabem que quem está mal deve-se mudar? Ou eles não sabem que estão mal?
19 Novembro, 2004
Jorge Palma
Já devem ter-se apercebido que gosto muito do Jorge Palma. Descobri Jorge Palma aos 17 anos. Primeiro estranhei, depois entranhei. Vi mais do que 20 concertos ao vivo e tenho quase todos os seus discos. Não consigo explicar tanto devoção. A verdade é que há muita gente a cantar, mas só o Palma me consegue falar pela música.
Ao que parece vai sair um novo disco. Já ouvi dizer que não está grande coisa. Mas, como fã incondicional, não acredito. Para mim é e continuará a ser o melhor. "O Palma é o último de uma classe de artistas que não volta mais, o último dos poetas que tocam na alma de quem quer pensar, o último dos músicos que tocam por prazer de tocar, tocando em cada um de nós de uma forma diferente".
Ao que parece vai sair um novo disco. Já ouvi dizer que não está grande coisa. Mas, como fã incondicional, não acredito. Para mim é e continuará a ser o melhor. "O Palma é o último de uma classe de artistas que não volta mais, o último dos poetas que tocam na alma de quem quer pensar, o último dos músicos que tocam por prazer de tocar, tocando em cada um de nós de uma forma diferente".
18 Novembro, 2004
As minhas manhãs
Diz o meu pai que é de manhã que se faz o dia. Não concordo nada. No meu caso as manhãs continuam muito curtas. Repare. Acordo por volta das 8 horas com o barulho das obras aqui no andar de baixo. Às vezes também acordo com o barulho das mulheres a falar ou com o som do pilão a "cochir" milho. Ligo a internet e, ao som do Jorge Palma ou de alguma música brasileira, fico até às 9 horas e meia a ler os jornais e os meus blogues favoritos . Depois vou tomar banho. Visto-me e como um iogurte com uma banana. Muitas vezes não como nada. Ligo a TV, mas como não dá um programa de jeito de manhã, desligo-a novamente. Com isto tudo já são 10h45. Vou à rua deixar o lixo e aproveito para apreciar a vista e ver as pessoas nas ruas. Volto ao quarto. Vejo que aulas vou dar e preparo as aulas. São 11horas e meia. Volto para a cozinha. Ligo a TV. Preparo o almoço e, ao mesmo tempo, oiço o horrível SIC 10 horas. Enquanto a comida está no lume, lavo a loiça do jantar do dia passado. Entretanto já é meio dia e enquanto ponho a mesa e vigio a comida, assisto ao Jornal da tarde da SIC. Por volta do meio dia e meia a Helga chega e nós almoçamos. Ela conta-me as novidades da escola e eu não lhe conto nada porque não tenho nada para contar. Levanto-me da mesa por volta das 12h45, ficando com 12 minutos para me arranjar, lavar os dentes e ver se tenho algum e-mail. São 12h57 e vou para a escola. Chego à escola. Toca o sino das 13 horas, e acaba a minha manhã e fico com a sensação que o dia ainda nem começou.
12 Novembro, 2004
Confissões de um professor
Um dos problemas com que me confronto muitas vezes é explicar o simples. Acho que tenho mais dificuldades em explicar o simples do que o mais complexo. Há coisas que para mim são tão simples que nem me preocupo em saber explicar, porém são as que exigem maior preparação. Confesso que a situação que mais me incomoda numa aula é quando o aluno, apesar de se esforçar, não percebe. Fico completamente frustrado pois não consigo achar a forma mais adequada para ele perceber. Explico duas, três vezes e o aluno não consegue compreender. Nestas situações sinto-me incompetente.
Muitas vezes a solução passa por pedir a outro aluno que já percebeu, que explique a este aluno. E, não é que funciona! Parece que estava a falar uma linguagem diferente e que alguém a traduziu. Será que já me esqueci de falar a linguagem das crianças?
Contudo, também há alunos que não conseguem, não querem aprender. Parece que os estudos não são para eles. Muitas vezes estes alunos estão fisicamente na aula mas tenho duvidas se realmente estão lá. Quando os alunos não têm sucesso escolar diz-se que os alunos têm dificuldades de aprendizagem. Mas não serão os professores e a escola que estão em dificuldades?
Muitas vezes a solução passa por pedir a outro aluno que já percebeu, que explique a este aluno. E, não é que funciona! Parece que estava a falar uma linguagem diferente e que alguém a traduziu. Será que já me esqueci de falar a linguagem das crianças?
Contudo, também há alunos que não conseguem, não querem aprender. Parece que os estudos não são para eles. Muitas vezes estes alunos estão fisicamente na aula mas tenho duvidas se realmente estão lá. Quando os alunos não têm sucesso escolar diz-se que os alunos têm dificuldades de aprendizagem. Mas não serão os professores e a escola que estão em dificuldades?
11 Novembro, 2004
Yasser Arafat
Yasser Arafat , finalmente, morreu. Apesar de ter sido Nobel da paz,não tenho nenhuma simpatia especial por ele. Foi um terrorista assumido durante 20 anos da sua vida. Nos últimos tempo apoiava e mantinha grupos terroristas como o Hamas e a Al Aqusa. Mais, foi um ditador corrupto que acumulou uma fortuna enorme (por exemplo, pagava uma mesada de 150 mil euros mensais à sua mulher, em Paris), ao mesmo tempo ia levando o seu povo a viver na miséria, em Gaza e na Cisjordânia. Sempre fingiu querer a paz para a rejeitar repetidamente cada vez que ela se aproximava.
Com a sua morte, dizem que se abre uma janela de oportunidade para a resolução do conflito do médio oriente. Mas, ao que me parece, ainda não vai ser desta, a não ser que Jesus volte.
Com a sua morte, dizem que se abre uma janela de oportunidade para a resolução do conflito do médio oriente. Mas, ao que me parece, ainda não vai ser desta, a não ser que Jesus volte.
Carta de uma aluna
O prometido é devido. Por isso, em baixo, está reproduzida a carta que uma aluna me enviou num destes dias. Não posso deixar de partilhar este momento, porque me causou um enorme sorriso. A menina que escreveu foi minha aluna o ano passado. Este ano não dou aulas à turma dela. Desde o ano passado que percebo que ela tem um um fraquinho por mim, pois estava sempre no meu caminho por onde quer que eu fosse. Esta carta foi-me entregue por uma outra colega dentro de um envelope fechado. Não li a carta à frente de ninguém respeitando o pedido expresso na carta. E, como é óbvio, também não lhe respondi. Mas já a encontrei na rua e disse-lhe que tinha gostado de ler a carta que me tinha enviado. Ela ficou super envergonhada e muito embaraçada. O que é certo é que agora poucas as vezes a encontro no meu caminho. Acho que me abandonou...
“João Narciso eu estou a te escrever estas duas linhas de carta para pedir-te desculpas pelas cartas que eu andei a te escrever. Eu sou muito sonhadeira e pensei muito alto, tu nuncas ias, gostar de mim, para ti ainda sou uma criança, mas prometo que vou tentar te esquecer por mais duro que seja. Espero que me perdoas e que continua a ser meu amigo. Me responde essa carta se tu continua a gostar como a tua amiga e por favor não lê essa carta à frente de ninguem. Me desculpa por favor João Narciso. Não esqueças de responder-me, essa carta é muito importante para mim.
O verdadeiro amigo não é aquele que nos alegra com mentiras mas sim aquele que nos alegra com verdades.
Sou a xxxxxx turma 9ºD"
“João Narciso eu estou a te escrever estas duas linhas de carta para pedir-te desculpas pelas cartas que eu andei a te escrever. Eu sou muito sonhadeira e pensei muito alto, tu nuncas ias, gostar de mim, para ti ainda sou uma criança, mas prometo que vou tentar te esquecer por mais duro que seja. Espero que me perdoas e que continua a ser meu amigo. Me responde essa carta se tu continua a gostar como a tua amiga e por favor não lê essa carta à frente de ninguem. Me desculpa por favor João Narciso. Não esqueças de responder-me, essa carta é muito importante para mim.
O verdadeiro amigo não é aquele que nos alegra com mentiras mas sim aquele que nos alegra com verdades.
Sou a xxxxxx turma 9ºD"
08 Novembro, 2004
O problema da água em São Nicolau
Confesso que já tinha saudades da chuva. Continua a chover em São Nicolau. Parece um dia de inverno de Portugal. Faz um pouco mais frio e está um vento que sacode as árvores de uma forma violenta. Sente-se o cheiro da terra molhada. Apesar da terra estar sedenta de água existem algumas poças na rua que servem de brincadeira entre os miúdos.
Imagine o que é viver sem água na torneira. De facto, a água só é distribuída na rede uma vez por mês. No entanto, quase todas as pessoas têm um depósito de água nas suas casas, que dá pelo menos para uma semana. Assim, as pessoas têm de ir buscar água à fonte todos os dias de manhã. As mulheres e crianças desempenham essa tarefa. Desde muito novas que as pessoas estão habituadas a isto, e de alguma forma, esta tarefa é também um acto social. De manhã é normal haver uma grande fila de pessoas para tirar água da fonte e ver as mulheres carregando bidões de 20 litros ou mais á cabeça. Aqui o banho toma-se com um balde, e toda a água é aproveitada sem desperdício. Eu tenho a sorte de viver numa pensão, o que me permite ter água sempre e de até ter água quente no chuveiro. Devo ser dos poucos com esse privilégio pois o dono da pensão nunca deixa a água acabar nos depósitos, comprando por mês alguns milhares de litros de água.
Além do problema da água nas casa das pessoas, existe o problema da água para a agricultura. Aqui a coisa assume dimensões ainda mais preocupantes. São Nicolau é uma ilha rural. Sem água não há agricultura, não há trabalho e, em última análise, não há comida. Quando chove as pessoas ficam todos entusiasmadas e semeiam milho e outras culturas. Tudo nasce e fica verde. Contudo, como as chuvas são esporádicas e muito raras, passadas umas semanas tudo seca, causando uma enorme frustração nas pessoas. Não é fácil.
Ao que parece amanhã também vai chover. Boa notícia , não acha?
Imagine o que é viver sem água na torneira. De facto, a água só é distribuída na rede uma vez por mês. No entanto, quase todas as pessoas têm um depósito de água nas suas casas, que dá pelo menos para uma semana. Assim, as pessoas têm de ir buscar água à fonte todos os dias de manhã. As mulheres e crianças desempenham essa tarefa. Desde muito novas que as pessoas estão habituadas a isto, e de alguma forma, esta tarefa é também um acto social. De manhã é normal haver uma grande fila de pessoas para tirar água da fonte e ver as mulheres carregando bidões de 20 litros ou mais á cabeça. Aqui o banho toma-se com um balde, e toda a água é aproveitada sem desperdício. Eu tenho a sorte de viver numa pensão, o que me permite ter água sempre e de até ter água quente no chuveiro. Devo ser dos poucos com esse privilégio pois o dono da pensão nunca deixa a água acabar nos depósitos, comprando por mês alguns milhares de litros de água.
Além do problema da água nas casa das pessoas, existe o problema da água para a agricultura. Aqui a coisa assume dimensões ainda mais preocupantes. São Nicolau é uma ilha rural. Sem água não há agricultura, não há trabalho e, em última análise, não há comida. Quando chove as pessoas ficam todos entusiasmadas e semeiam milho e outras culturas. Tudo nasce e fica verde. Contudo, como as chuvas são esporádicas e muito raras, passadas umas semanas tudo seca, causando uma enorme frustração nas pessoas. Não é fácil.
Ao que parece amanhã também vai chover. Boa notícia , não acha?
07 Novembro, 2004
Todo o mundo quer ir para o céu...mas não agora!
Hoje de manhã fui à igreja Nazareno. Apesar da igreja ser pequena, com cerca de 30 pessoas, tem uma grande vida e transmite uma enorme alegria. O louvor é o espaço privilegiado e não se consegue ficar indiferente às poderosas vozes que entoam lindos cânticos. A mensagem de hoje foi sobre a segunda vinda de Jesus Cristo. A este propósito lembrei-me de uma frase, politicamente incorrecta mas verdadeira na maioria dos casos, que diz “todo o mundo quer ir para o céu...mas não agora”. Talvez seja esse o nosso problema. E nesse caso, acho que é um problema sério.
06 Novembro, 2004
Experiências da minha vida
As histórias do meu pai preenchem o meu imaginário. Talvez mais do que isso. Hoje, recordava uma história que o meu pai me contou dezenas de vezes sempre como fosse a primeira vez. A história, como sempre, tem um ensinamento, que hoje quero, assumidamente, por em causa.
O meu pai fez a tropa à cerca de 50 anos atrás. Apesar do meu pai não ter ido para nenhuma guerra, foi sujeito, enquanto militar, a manobras militares, que segundo ele, eram treinos muito parecidos com uma guerra real.
Após estar três dias fora do quartel, numa dessas manobras, conta o meu pai, que, quando ia na caminhada a pé de regresso para o quartel, sentiu uma fome imensa. Por sorte, encontrou uma cebola perdida no chão de um dos campos que percorrera até chegar ao quartel. Apesar da fome ser muita, o meu pai conta que guardou a cebola dentro da mochila, pois lembrou-se que tinha um bocado de pão duro dentro do cacifo no quartel.
Assim, conta ele que, quando chegou ao quartel, foi logo buscar o pão duro e bolorento que tinha guardado e que, juntamente com a cebola, fez a melhor refeição da sua vida. Pode pensar que estou a exagerar, mas o meu pai afirma, que nunca na vida comeu algo que lhe soubesse tão bem. Pão duro e bolorento com cebola e muita fome. Mais, já experimentou, por variadas vezes, repetir a ementa, mas nunca mais conseguiu ter semelhante sensação. Pelo contrário.
A história tem alguma lógica. Podemos até generalizá-la a muitas outras coisas. Eu por exemplo, sempre com esta história em mente, tento sempre obter o máximo prazer das coisas. Por exemplo, espero ter fome para poder comer. Ou aguento o máximo sem fazer chichi para depois sentir um maior prazer quando fizer. (...) Pode achar estranho, mas são experiências interessantes que valem a pena fazer.
No entanto, nesta minha busca do prazer tive, e continuo a ter, uma grande decepção. Beber água. De facto, por muita sede que tenha, beber água não me satisfaz. Pelo contrário, fico cheio mas não tiro daí nenhum prazer. Não sei se já passou pela mesma situação, mas a mim acontece-me sempre que tento saciar a minha sede. Uma sede imensa nunca é correspondido, enquanto bebemos água, por um prazer imenso. Uma desilusão. Chego sempre à conclusão que não vale a pena ter sede para beber água. Não compensa. Experimente e vai ver que tenho razão.
O meu pai fez a tropa à cerca de 50 anos atrás. Apesar do meu pai não ter ido para nenhuma guerra, foi sujeito, enquanto militar, a manobras militares, que segundo ele, eram treinos muito parecidos com uma guerra real.
Após estar três dias fora do quartel, numa dessas manobras, conta o meu pai, que, quando ia na caminhada a pé de regresso para o quartel, sentiu uma fome imensa. Por sorte, encontrou uma cebola perdida no chão de um dos campos que percorrera até chegar ao quartel. Apesar da fome ser muita, o meu pai conta que guardou a cebola dentro da mochila, pois lembrou-se que tinha um bocado de pão duro dentro do cacifo no quartel.
Assim, conta ele que, quando chegou ao quartel, foi logo buscar o pão duro e bolorento que tinha guardado e que, juntamente com a cebola, fez a melhor refeição da sua vida. Pode pensar que estou a exagerar, mas o meu pai afirma, que nunca na vida comeu algo que lhe soubesse tão bem. Pão duro e bolorento com cebola e muita fome. Mais, já experimentou, por variadas vezes, repetir a ementa, mas nunca mais conseguiu ter semelhante sensação. Pelo contrário.
A história tem alguma lógica. Podemos até generalizá-la a muitas outras coisas. Eu por exemplo, sempre com esta história em mente, tento sempre obter o máximo prazer das coisas. Por exemplo, espero ter fome para poder comer. Ou aguento o máximo sem fazer chichi para depois sentir um maior prazer quando fizer. (...) Pode achar estranho, mas são experiências interessantes que valem a pena fazer.
No entanto, nesta minha busca do prazer tive, e continuo a ter, uma grande decepção. Beber água. De facto, por muita sede que tenha, beber água não me satisfaz. Pelo contrário, fico cheio mas não tiro daí nenhum prazer. Não sei se já passou pela mesma situação, mas a mim acontece-me sempre que tento saciar a minha sede. Uma sede imensa nunca é correspondido, enquanto bebemos água, por um prazer imenso. Uma desilusão. Chego sempre à conclusão que não vale a pena ter sede para beber água. Não compensa. Experimente e vai ver que tenho razão.
05 Novembro, 2004
O que gosto
Gosto de sonhar quando já estou meio acordado. Gosto de acordar sem sono. Gosto que me digam bom dia. Gosto de sentir a brisa da manhã. Gosto de ver as pessoas a passar na rua. Gosto de ver crianças a brincar. Gosto de brincar com os meus sobrinhos. Gosto de ser criança. Gosto de rir sem motivo. Gosto de pessoas bem humoradas. Gosto de pessoas sinceras. Gosto de pessoas com personalidade. Gosto das letras do Jorge Palma. Gosto das entrevistas do Lobo Antunes. Gosto de ler C.S.Lewis. Gosto de reler o principezinho. Gosto de filmes com histórias de mafiosos. Gosto de pessoas corajosas. Gosto de pessoas perseverantes. Gosto que me cativem. Gosto de mulheres que lutem por mim. Gosto de mulheres decididas. Gosto de mulheres misteriosas. Gosto de olhar nos olhos de uma mulher. Gosto de cabelos compridos. Gosto dos meus pés. Gosto de passear. Gosto de ouvir o mar de noite. Gosto do Brasil. Gosto de música brasileira. Gosto de São Nicolau. Gosto das pessoas de São Nicolau. Gosto dos meus alunos. Gosto de ajudar os outros. Gosto de resolver problemas. Gosto de me sentir de dever cumprido. Gosto de ter ideias que ninguém teve. Gosto de ter razão. Gosto que me compreendam. Gosto de conhecer pessoas interessantes. Gosto de pessoas inteligentes. Gosto de uma boa conversa. Gosto de ser diferente. Gosto de por limão em todo o tipo de comida. Gosto de beber café acompanhado de um copo de água. Gosto de ler o jornal na cama. Gosto de internet. Gosto de estar em casa quando está frio. Gosto de ver a minha família junta. Gosto de ver a minha mãe rir. Gosto de me sentir confortável. Gosto de cozinhar. Gosto de comer marisco no verão. Gosto de gatos. Gosto de correr com os meus cães. Gosto de não ter nada para fazer. Gosto de me sentir livre. Gosto de muitas coisas que não me consigo lembrar. Gosto de ti.
31 Outubro, 2004
Não gosto
Não gosto de muito calor. Não gosto de ventoinhas. Não gosto de Ovas. Não gosto de pudim. Não gosto de whisky. Não gosto de coca-cola. Não gosto de Manga. Não gosto de Papaia. Não gosto de pessoas falsas. Não gosto de falsas humildades. Não gosto de pessoas sem objectivos. Não gosto de mulheres sem sal. Não gosto de mulheres vulgares. Não gosto de mulheres feministas. Não gosto de mulheres machistas. Não gosto de mulheres que se queixam muito. Não gosto que se façam de vitimas. Não gosto que me acusem do que não fiz. Não gosto de falar mal dos outros. Não gosto que me enganem. Não gosto que me façam de parvo. Não gosto que me ignorem. Não gosto de sofrer. Não gosto de ver sofrer ninguém. Não gosto de injustiças. Não gosto de populismos. Não gosto de pessoas sem opiniões. Não gosto que se deixam de influenciar. Não gosto de pessoas obcecadas. Não gosto de pseudo intelectuais. Não gosto do Paulo Portas. Não gosto da Celeste Cardona. Não gosto do Luís Delgado. Não gosto dos programas de Tv da manhã. Não gosto do Herman Sic. Não gosto do Fernando Rocha. Não gosto de viajar com crianças a chorar por perto. Não gosto de andar de mota. Não gosta de cenas radicais. Não gosto do Porto. Não gosto de Pinto da Costa. Não gosto de usar tanga. Não gosto de usar sapatos engraxados. Não gosto que me julguem pela aparência. Não gosto de cabelo curto. Não gosto de pessoas certinhas. Não gosto de pessoas mesquinhas. Não gosto de pessoas incompetentes. Não gosto de juntar dinheiro. Não gosto de trabalhar de manhã. Não gosto de fazer por obrigação. Não gosto de multidões. Não gosto de me sentir só. Não gosto de ter saudades.
29 Outubro, 2004
Há greves e greves
Mesmo estando em Cabo Verde, tento acompanhar tudo o que se passa em Portugal. Além da Internet, vejo também o noticiário da SIC.
Ao que parece a Caixa Geral de Depósitos esteve hoje em greve. Aliás um óptimo dia para fazer greve, não acha? Mas não é disso que pretendo falar. Nem sequer no transtorno que uma greve no maior banco português causa. De facto, quando se faz uma greve o objectivo é mesmo incomodar, senão para que se faz uma greve?
Esta greve, no maior Banco português, fez-me lembrar o Brasil. No passado verão visitei o Brasil. E fiquei apaixonado. O Brasil é imensamente lindo. Contudo, tem algumas coisas que nem dá para acreditar. Por exemplo, você acredita que, há 15 dias atrás, os maiores bancos Brasileiros estiveram em greve um mês seguido? Você imagina o transtorno causado? Você sabe que lá não existe o sistema Multibanco? Você imagina que perdi dois dias das minhas férias no Brasil, para fazer um simples levantamento, que em Cabo Verde demora 15 minutos? Você acredita que os brasileiros já estão conformados com isto?
Como vê um dia de greve na CGD não é assim tão mau...
Ao que parece a Caixa Geral de Depósitos esteve hoje em greve. Aliás um óptimo dia para fazer greve, não acha? Mas não é disso que pretendo falar. Nem sequer no transtorno que uma greve no maior banco português causa. De facto, quando se faz uma greve o objectivo é mesmo incomodar, senão para que se faz uma greve?
Esta greve, no maior Banco português, fez-me lembrar o Brasil. No passado verão visitei o Brasil. E fiquei apaixonado. O Brasil é imensamente lindo. Contudo, tem algumas coisas que nem dá para acreditar. Por exemplo, você acredita que, há 15 dias atrás, os maiores bancos Brasileiros estiveram em greve um mês seguido? Você imagina o transtorno causado? Você sabe que lá não existe o sistema Multibanco? Você imagina que perdi dois dias das minhas férias no Brasil, para fazer um simples levantamento, que em Cabo Verde demora 15 minutos? Você acredita que os brasileiros já estão conformados com isto?
Como vê um dia de greve na CGD não é assim tão mau...
28 Outubro, 2004
A Matemática
Matemática? Bragh! Detesto matemática! É só p’ra crânios! Afirmações deste tipo são comuns nos nossos jovens dos dias de hoje, muitas vezes, produto de preconceitos enraizados na sociedade. De facto, não são só os mais jovens que sofrem deste mal. Grande parte da sociedade vê na matemática um bicho de sete cabeças. Assim, considera-se normal que os miúdos não gostem, não se dediquem nem tenham aproveitamento escolar nesta disciplina. Desta forma, o papel do professor de matemática está cada vez mais dificultado.
Tem-se a ideia de que a matemática é um edifício de técnicas e teoremas. Nada mais natural que esta situação. Pois o ensino da Matemática não tem sido isso mesmo? Um treino intensivo de técnicas, um acumular de noções e conteúdos em tempos que parecem cada vez mais escassos, uma avaliação de aprendizagem que consiste, ainda hoje, essencialmente, em testes e exames escritos? Que ideia diferente poderia ter resultado de tal tratamento?
A matemática tem certamente características próprias, resultantes da sua natureza abstracta, da sua carga simbólica, dos seus métodos rigorosos. Mas será mesmo inevitável que a maioria dos jovens passem por tantas dificuldades nesta disciplina?
Tem-se a ideia de que a matemática é um edifício de técnicas e teoremas. Nada mais natural que esta situação. Pois o ensino da Matemática não tem sido isso mesmo? Um treino intensivo de técnicas, um acumular de noções e conteúdos em tempos que parecem cada vez mais escassos, uma avaliação de aprendizagem que consiste, ainda hoje, essencialmente, em testes e exames escritos? Que ideia diferente poderia ter resultado de tal tratamento?
A matemática tem certamente características próprias, resultantes da sua natureza abstracta, da sua carga simbólica, dos seus métodos rigorosos. Mas será mesmo inevitável que a maioria dos jovens passem por tantas dificuldades nesta disciplina?
27 Outubro, 2004
Meu querido Diário (II)
Hoje coloquei um aluno na rua. Inevitável. Por vezes, enquanto professores, tomamos decisões que nem sempre queremos. Esta foi uma delas. No entanto, se queremos ser justos e respeitados pelos nossos alunos, temos de tomar decisões difíceis. Mandar para a rua um aluno não me afecta muito. Essencialmente, porque acredito que, pelo menos aqui, funciona. O aluno sente o castigo e nas próximas aulas modifica a atitude. Possivelmente noutros lugares não é assim, o que torna esta questão algo de mais discutível.
Custou-me mandar este aluno para a rua, porque me revi, quando era da sua idade, nas suas atitudes. De facto, ele foi para a rua por uma sucessão de piadas, que por acaso até tinham graça. Quantas vezes eu fui para a rua assim. Quantas vezes eu achei tal decisão injusta...
Passados alguns minutos do aluno sair da sala de aula, vou dar com este aluno, de joelhos, com o caderno no chão a ouvir o resto da aula e a passar tudo o que eu escrevia no quadro (dou as aulas de porta aberta). Claro, que não contive o riso em frente a todos os alunos, o que provocou uma gargalhada geral.
Custou-me mandar este aluno para a rua, porque me revi, quando era da sua idade, nas suas atitudes. De facto, ele foi para a rua por uma sucessão de piadas, que por acaso até tinham graça. Quantas vezes eu fui para a rua assim. Quantas vezes eu achei tal decisão injusta...
Passados alguns minutos do aluno sair da sala de aula, vou dar com este aluno, de joelhos, com o caderno no chão a ouvir o resto da aula e a passar tudo o que eu escrevia no quadro (dou as aulas de porta aberta). Claro, que não contive o riso em frente a todos os alunos, o que provocou uma gargalhada geral.
16 Outubro, 2004
A outra dimensão de Deus
As recorrentes leituras de C.S. Lewis são, para mim, sempre proveitosas. Gostaria de partilhar uma ideia que me ajudou muito a compreender a dimensão de Deus. O conceito tem base bíblica mas não aparece na bíblia. Por isso não aceite isto como uma doutrina. Aliás o que vem a seguir pode ser até bastante polémico.
Pensemos na dimensão de Deus. Que ideia fazemos de Deus? Porque é que para Deus um dia são como mil anos e mil anos como um dia? Será que Deus conhece o nosso amanhã? Como é possível Deus atender centenas de milhões de pessoas no mesmo instante?
A vida vem-nos momento a momento. Um momento desaparece antes de outro surgir. O tempo é assim. Desta forma, tendemos a partir do princípio que esta série temporal – esta ordenação do passado, do presente e do futuro – não só rege a nossa vida, mas a maneira como todas as coisas existem. Há em nós a convicção que o universo e o próprio Deus estão em movimento constante do passado para o futuro, tal como sucede connosco.
È quase certo que Deus é exterior ao tempo e que a sua vida não consiste em momentos sucessivos. Para Deus todos os momentos são presente. Pensem assim: Deus tem toda a eternidade para ouvir uma oração proferida, numa fracção de um segundo, de um piloto de um avião que se despenha em chamas no solo. Sei que é difícil de compreender. Por assim dizer, para Deus ainda é 1200 ou 2005. Se imaginarmos o tempo como uma linha recta ao longo da qual temos de viajar, teremos de imaginar Deus como toda a página em que a linha está traçada. Nós, temos de sair do ponto A da linha antes de chegarmos ao ponto B e não podemos alcançar o ponto C sem termos largado o ponto B. Deus, do alto, ou de fora, ou de toda a volta, contém a linha inteira e vê-a toda.
Deus não têm história. È demasiado real, absolutamente real para ter história. Para Deus não há passado, presente ou futuro. Para Deus todos os momentos são agora (mesmo os que passaram, para nós, há 2000 mil anos ou que irão acontecer, para nós, daqui a 1000 anos!).
Desta forma fica resolvida, para mim, uma outra grande dificuldade que se levanta com esta questão. Repare, toda a gente que crê em Deus, crê que Ele sabe o que nós iremos fazer amanhã. Mas se ele sabe que vou fazer isto ou aquilo, como eu posso ter a liberdade de fazer uma coisa diferente?
Ainda aqui a dificuldade está em pensarmos que Deus avança, como nós, ao longo da linha temporal. Mas para Deus o nosso amanhã é para Ele agora. Todos os dias para Ele são agora. Não se lembra que de que ontem fizemos isto ou aquilo : vê-nos simplesmente a fazê-lo.
Ele não prevê que amanha façamos determinadas coisas: vê-nos pura e simplesmente a fazê-las, porque se para nós o amanhã ainda não chegou, para Ele já. Deus não sabe dos nossos actos antes de os praticarmos. Mas o momento que os praticamos é já “agora” para Ele.
Não sei se fui claro a transmitir a ideia. Usei quase sempre o texto de C.S. Lewis. Para mim, esta ideia assume uma grande profundidade. Mas admito que seja polémico.
Pensemos na dimensão de Deus. Que ideia fazemos de Deus? Porque é que para Deus um dia são como mil anos e mil anos como um dia? Será que Deus conhece o nosso amanhã? Como é possível Deus atender centenas de milhões de pessoas no mesmo instante?
A vida vem-nos momento a momento. Um momento desaparece antes de outro surgir. O tempo é assim. Desta forma, tendemos a partir do princípio que esta série temporal – esta ordenação do passado, do presente e do futuro – não só rege a nossa vida, mas a maneira como todas as coisas existem. Há em nós a convicção que o universo e o próprio Deus estão em movimento constante do passado para o futuro, tal como sucede connosco.
È quase certo que Deus é exterior ao tempo e que a sua vida não consiste em momentos sucessivos. Para Deus todos os momentos são presente. Pensem assim: Deus tem toda a eternidade para ouvir uma oração proferida, numa fracção de um segundo, de um piloto de um avião que se despenha em chamas no solo. Sei que é difícil de compreender. Por assim dizer, para Deus ainda é 1200 ou 2005. Se imaginarmos o tempo como uma linha recta ao longo da qual temos de viajar, teremos de imaginar Deus como toda a página em que a linha está traçada. Nós, temos de sair do ponto A da linha antes de chegarmos ao ponto B e não podemos alcançar o ponto C sem termos largado o ponto B. Deus, do alto, ou de fora, ou de toda a volta, contém a linha inteira e vê-a toda.
Deus não têm história. È demasiado real, absolutamente real para ter história. Para Deus não há passado, presente ou futuro. Para Deus todos os momentos são agora (mesmo os que passaram, para nós, há 2000 mil anos ou que irão acontecer, para nós, daqui a 1000 anos!).
Desta forma fica resolvida, para mim, uma outra grande dificuldade que se levanta com esta questão. Repare, toda a gente que crê em Deus, crê que Ele sabe o que nós iremos fazer amanhã. Mas se ele sabe que vou fazer isto ou aquilo, como eu posso ter a liberdade de fazer uma coisa diferente?
Ainda aqui a dificuldade está em pensarmos que Deus avança, como nós, ao longo da linha temporal. Mas para Deus o nosso amanhã é para Ele agora. Todos os dias para Ele são agora. Não se lembra que de que ontem fizemos isto ou aquilo : vê-nos simplesmente a fazê-lo.
Ele não prevê que amanha façamos determinadas coisas: vê-nos pura e simplesmente a fazê-las, porque se para nós o amanhã ainda não chegou, para Ele já. Deus não sabe dos nossos actos antes de os praticarmos. Mas o momento que os praticamos é já “agora” para Ele.
Não sei se fui claro a transmitir a ideia. Usei quase sempre o texto de C.S. Lewis. Para mim, esta ideia assume uma grande profundidade. Mas admito que seja polémico.
14 Outubro, 2004
Meu querido diário
O calor está insuportável. Não sei se este calor se pode quantificar em graus, mas parece-me que estão uns 50 graus. Por causa disto, não tenho dormido bem. Contudo, a vida continua. Ontem à noite fui comer uma lagosta. Ainda não foi desta que fiquei um apreciador. Este sábado tem sido bastante monótono. Há um problema conexão da internet e na Tv só passa futebol. Três jogos seguidos do campeonato Inglês. Mesmo para mim, é demais. O pior é que não temos escolha, pois todos os canais estão a dar o mesmo. Ainda pensei ir passear, mas o calor não deixa. O curioso é que apesar de estar numa ilha, não tenho uma praia aqui perto! Resta-me ler e escrever um pouco.
13 Outubro, 2004
As novas tendências pedagógicas
Por esta altura, em Cabo Verde, faz um calor insuportável. Agora imagine dar 5 aulas de matemática a turmas de 44 alunos. Cansativo. O ensino faz-se apenas com um pau de giz e um quadro. Não existe manual, computadores, laboratórios, giz de côr,...No entanto, deixe-me dizer que é extremamente reconfortante ser professor por aqui, porque os alunos ainda são respeitadores, trabalhadores e interessados.Em contrapartida, no nosso Portugal, as novas tendências de ensino apontam no sentido em que o aluno tem de achar a escola algo divertido. Assim não se devem fazer exercícios, os alunos não devem memorizar, não se deve dar trabalhos de casa, não devem ir para a rua quando desrespeitam o professor, ...Felizmente tenho a sorte de estas novas tendências ainda não terem chegado aqui. E você, certamente, que percebe porquê.Mas alguém acredita que sem esforço, sem disciplina, sem memorização, sem prática e força de vontade se consegue aprender alguma coisa?
12 Outubro, 2004
A lógica da Trindade de deus
No outro dia pensava na lógica da trindade de Deus. A esse propósito, aqui fica esta pequena reflexão, baseada, em grande parte, nas ideias de C.S Lewis.Utilizando uma única dimensão, só podereis traçar uma linha recta. Utilizando duas, podereis traçar uma figura, digamos um quadrado. E um quadrado consiste em quatro linhas rectas. Utilizando três dimensões, podereis construir um sólido, um cubo, por exemplo. E um cubo consiste em seis quadrados. Repare que à medida que avançamos para planos mais reais e mais complicados, não abandonamos as coisas que encontrámos nos planos mais simples. Estão apenas combinadas de maneiras novas, as quais não poderíamos imaginar se só tivéssemos conhecimento dos planos mais simples.O principio de Deus abrange o mesmo princípio.O plano humano é um plano simples e bastante vazio. Uma pessoa é um ser (uma personalidade), e duas pessoas são dois seres distintos (duas personalidades distintas). Como em duas dimensões, por exemplo numa folha de papel, um quadrado é uma figura e dois quadrados duas figuras distintas.Na dimensão de Deus, ainda encontramos lá personalidades, mas combinadas de maneiras novas que nós, que não vivemos nesse plano somos incapazes de imaginar. Na dimensão de Deus, encontra-se um ser que sendo três pessoas permanece um Ser, assim como um cubo, sendo seis quadrados, permanece um cubo.Evidentemente que não podemos conceber um ser assim, do mesmo modo, que se fossemos feitos para perceber apenas duas dimensões no espaço, nunca poderíamos imaginar um cubo no espaço.
11 Outubro, 2004
Comunicação
Ouvi com muita atenção o nosso Primeiro Ministro na sua comunicação ao país. A pretexto do caso Marcelo, de que nem falou, conseguiu ter todas as atenções. Apesar de não ter havido direito ao contraditório, esteve muito bem. Aliás, todos nós sabemos que a “conversa” é o seu ponto forte. Na aflição, fez promessas e uma excelente propaganda.Ao que parece, o discurso de Santana Lopes foi antecipado para as 20 horas porque um assessor lembrou-se que o horário anterior coincidia com a Quinta das Celebridades. Ainda bem que o fez, porque senão corria o risco que os portugueses pensassem que a Quinta tinha mais um concorrente. Será que não o incomoda a facilidade com que podemos imaginar o Nosso Primeiro Ministro na Quinta das Celebridades?E é precisamente neste ponto que faz sentido citar outro grande vulto da actualidade ,José Castelo Branco: “No mundo, há dois tipos de pessoas: os que mamam e os que são mamados!”.
10 Outubro, 2004
Malucos à parte
Hoje fui à praia. Melhor, hoje fui ver o mar. No regresso, um maluco fez questão de me acompanhar. No minimo, incomodativo. O que me consola é que os malucos não têm noção das figuras que fazem. Talvez por isso sejam mais felizes que nós.
09 Outubro, 2004
Bem Vindos
Olá caros amigos. Obrigado por visitarem este balde de lixo. Se esperam encontrar aqui algo de interessante estão completamente enganados. Aqui, quanto muito, encontrarão lugares comuns, textos roubados e, uma vez por outra, rascunhos de coisas que até têm alguma piada.
Espero que gostem. Ou não.
Espero que gostem. Ou não.
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